Comemoração tardia

Com ótima programação musical, Brasil Rural Contemporâneo serviu como festa em homenagem aos 50 anos de Brasília

Por Cristiano Bastos Publicado em 22/06/2010, às 18h03

Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado, participou do show de Otto no Brasil Rural Contemporâneo

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Semanas antes de amargar sua bancarrota política, o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, sonhava alto com os festejos dos 50 anos de Brasília, celebrados no último mês de abril. No auge da megalomania, sua "equipe" cogitou importar, por assim dizer, dois gigantes da música universal: o ex-beatle Paul McCartney e o Rei Roberto Carlos. Nesse devaneio, chegaram a tramar até um dueto entre Macca e Robertão... No final, a festa foi bem diferente: Chiclete com Banana, Victor & Léo e NX Zero comandaram o folguedo cuja cena foi roubada por uma atração norte-americana, a "Parada Walt Disney". Pato Donald, Pateta, Mickey e Minnie foram os personagens que, no dia 21 de abril, supriram as crianças de alegria e aplacaram, também, o desolador tédio dos adultos da cidade. Bem que os organizadores da mal-fadada festa poderiam ter investido suas volumosas e mal-aplicadas verbas num encontro nos moldes do Brasil Rural Contemporâneo, evento voltado à agricultura familiar, luxuosamente respaldado pela fortuna da música e da cultura nacional. Em quatro dias de Feira (de 16 a 20 de junho), estima-se que mais de 150 mil pessoas tenham passado pela Concha Acústica de Brasília - fincada na bela e sinuosa orla do Lago Paranoá - para conhecer gastronomia, moda e artesanato vindos das cinco regiões brasileiras. E também para assistir a dezenas de excelentes shows, Paulinho da Viola, Cidadão Instigado e Alceu Valença entre eles. Tardiamente, ainda que em tempo, Brasília ganhou uma festa digna de seus 50 anos.

Vascaíno fanático, Paulinho da Viola desembarcou em Brasília no dia em que a seleção brasileira fez seu jogo de estreia na Copa do Mundo. Antes do show, Paulinho revelou à Rolling Stone Brasil que se encontrava um pouco apreensivo. Motivo: a promessa de que milhares de pessoas estariam presentes naquela noite do último dia 16. Nas palavras de Paulinho, uma "enorme vibração coletiva". "É um público diferente do qual estou acostumado a tocar", confessou, com sua peculiar modéstia, o sambista. O samba "positive vibration" de Paulinho, de fato, irradiou para todos os cantos.

O show de Paulinho também foi memorável por outro especial motivo. Talvez esta tenha sido uma de suas derradeiras apresentações: o músico estaria, segundo sua produção, gradualmente abandonando os palcos para se dedicar ao ofício da marcenaria, outra de suas paixões. No show, o convidado de Paulinho da Viola foi o sambista Monarco da Portela, conhecido como o "mais jovem integrante da Velha Guarda da Portela". Paulinho lançou mão de gemas de altíssimo quilate de seu repertório, a exemplo de "Coração Leviano", "Dança da Solidão" e "Foi Um Rio que Passou em Minha Vida". Mais tarde, foi a vez dos soteropolitanos do BaianaSystem, que fecharam a noite tendo como convidado o ex-Planet Hemp BNegão.

Inaugurada em 1973, a Concha Acústica de Brasília, edificada às margens do Lago Paranoá, numa área de 30 mil metros quadrados, é um dos projetos mais belos concebidos pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Ao ar livre, o anfiteatro (cujo projeto tem linhas arrojadas que unem arquitetura e natureza) deveria, a rigor, destinar-se à realização de espetáculos de grande porte na cidade - teatro, música ou dança. Niemeyer pensou-o justamente com o propósito nobre de que "servisse à comunidade". Se não fosse o Brasil Rural Contemporâneo, o monumento brasiliense, que recebeu melhorias, estaria completamente às moscas. O subaproveitamento do anfiteatro é, na verdade, uma grande vergonha para Brasília. Em condições piores encontra-se somente o Museu de Arte de Brasília, o MAB, outra clássica edificação que jaz abandonada logo ao lado da Concha.

Na quinta-feira, 17, numa oportuna noite de guitarradas brasileiras, a sonoridade "canarinho" reverberou acordes verde-amarelos pelos quatro cantos da Concha. De Fortaleza, o Cidadão Instigado provavelmente deu o melhor show de todo o festival. O rock setentista embebido em toques regionais foi a conjunção perfeita atingida pela banda. Natural de Barbacena, o paraense Mestre Vieira das Guitarradas, da música "Lambada Jamaicana", foi a convidado especial da banda. A colisão do instrumento de Fernando Catatau com a semiacústica de Vieira gerou, literalmente, faíscas. "Concretizamos, finalmente, o sonho de tocar com Mestre Vieira", Catatau confessou para o público. A noite teve, ainda, show do pernambucano Otto, que mostrou canções de seu elogiado último álbum, Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos. Como convidado, Otto chamou Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantando.

Pela diversidade

"Na raiz da nação, a Feira busca cultura, artesanato e sabores que, de alguma forma, dialogam com a variedade rítmica brasileira. Do rock ao carimbó, do maracatu ao samba de roda. É a fusão destes encontros que permite tais possibilidades sonoras", explica a curadora artística do Brasil Rural Contemporâneo, Carla Joner. Programação de alto nível à parte, o festival, entretanto, pecou por ter recebido apenas uma atração de Brasília - o grupo Patubatê -, mesmo sendo a cidade que abrigou a maratona artística. Além disso, nesta ciranda musical estados como Goiás, Santa Catarina e Paraná foram sumariamente ignorados.

O pernambucano Lenine (cuja música "Aquilo que Dá no Coração" é tema da novela Passione) fez o show mais preguiçoso do Brasil Rural Contemporâneo. Por conta disso, foi muito criticado, sendo que no palco o enfado do músico muita vezes era aparente. De São Paulo, o grupo Teatro Mágico, atração seguinte, reequilibrou o alto-astral e, assim, logrou o desejado efeito: "catarse".

No sábado, 19, os cearenses do Cabruêra fizeram um dos melhores shows do evento. A Cabruêra deixou a cama feita para receber o show mais roqueiro da Feira, que ficou sob o comando do power trio gaúcho Frank Jorge, Wander Wildner e Julio Reny, os quais têm passagem, respectivamente, pelas bandas Graforréia Xilarmônica, Os Replicantes e Expresso Oriente. A mitológica presença de Reny certamente foi a mais marcante dentre todas que se apresentaram no Brasil Rural Contemporâneo. Poeta de filiação "loureediana", a Reny pertence a autoria de belas baladas do cancioneiro rock do Rio Grande do Sul, entre as quais "Amor e Morte", "Não Chores Lola" e o sucesso "Jovem Cowboy". Na multicultural plateia de Brasília, os corações deixavam-se flechar pela verve outsider do cantor e compositor. Na plateia, alguns marmanjos não escondiam o copioso choro. Amparado pelo gaitista Gilberto Monteiro, o trio levantou multidão entoando músicas como "Amigo Punk", "Sandina" e "Lugar do Caralho". E mais lágrimas rolaram. "Ensaiamos muito pra esse show", contou Frank Jorge no camarim, momentos antes de subir ao palco. Frank completou: "Fizemos trabalho de operário para tirar todas essas versões. Foi árduo, mas divertido". "O segredo foi unir as visões de cada um de nós", disse ainda Wander Wildner.

Depois dos gaúchos, o pernambucano Alceu Valença inverteu o clima. Saíram rock e milonga e entraram, não necessariamente nesta ordem, xote, maracatu, baião, xaxado, coco e embolada. Valença, que deu um show essencialmente "junino", não esqueceu, porém, estouros radiofônicos como "Tropicana". "A música junina pode ser antiga e contemporânea ao mesmo tempo. Muita gente considera rock a música que faço, mas ela é tão nordestina quanto o blues é norte-americano", cotejou Alceu.

No domingo, 20, Armandinho, Dodô & Osmar encerraram o Brasil Rural Contemporâneo comemorando, por tabela, os 60 anos de invenção do trio elétrico. O lema da noite foi um só: "Atrás do trio-elétrico só não vai quem já morreu", versos cunhados pelo novo baiano Moraes Moreira. No embalo de "Pombo Correio", o trio plugou a multidão na voltagem elétrica das guitarras baianas. Na vitória da seleção sobre a Costa do Marfim, a estridência azucrinante das vuvuzelas foi abafada, ainda que momentaneamente, pela luminosa música do Brasil.