Como a crise do coronavírus pode fortalecer a cena musical brasileira?

Com a pandemia da covid-19, o país não deve receber artistas internacionais por um bom tempo

Julia Harumi Morita | @the_harumi Publicado em 29/06/2020, às 07h00

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Arte: Julia Harumi Morita. Montagem com Jota Quest (Foto: Willmore Oliveriar/ iHate Flash / Divulgação), Marcelo D2 (Foto: Deividi Correa e Denilson Santos / AgNews_ e Anavitoria (Foto: Breno Galtier)

A pandemia de coronavírus fez shows, turnês e festivais serem cancelados ou adiados ao redor do mundo. Contudo, eventualmente, a indústria da música retomará as atividades e se adequará a uma nova forma de consumo. Considerando a interrupção da circulação internacional, será que, de alguma forma, a crise de covid-19 pode dar mais visibilidade para os músicos locais?

Backstreet Boys, Billie Eilish, Taylor Swift e Harry Styles são alguns artistas que planejavam se apresentar para o público brasileiro em 2020, mas precisaram adiar as performances por segurança e ainda não anunciaram novas datas.

Já a banda Mcfly remarcou os shows programados para o mês de março nas cidades de São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Uberlândia, Ribeirão Preto, Belo Horizonte e Rio de Janeiro para os meses de setembro e outubro. Mas com o agravamento do quadro do país, o grupo adiou novamente as apresentações, que devem acontecer somente em 2021, segundo José Norberto Flesch

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De acordo com Felipe Simas, empresário artístico, produtor de shows e manager das cantoras Anavitória e Manu Gavassi, as aglomerações ainda serão um grande risco enquanto não houver uma vacina, por isso, os artistas internacionais devem evitar a vinda para o Brasil no futuro. 

“Por um bom tempo não devemos ter shows internacionais por aqui. Teremos mesmo que esperar, ao menos, até que exista uma vacina e a gente consiga atingir a tão aguardada imunidade coletiva”, disse o produtor em entrevista à Rolling Stone Brasil

Da mesma forma, Fabrício Nobre, diretor do Festival Bananada e curador do Grupo Vegas - que inclui o Cine Joia, Z- Arco da Batata e Blue Note em São Paulo-, imagina que vai demorar muito tempo para termos “uma circulação internacional nos moldes que já aconteciam”.

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Neste raciocínio, a indústria da música nacional deve investir ainda mais nos artistas locais, que, antes mesmo da pandemia, já eram os favoritos dos brasileiros. De acordo com uma pesquisa do DeltaFolha, o Brasil é o mais país que mais consome a própria música na plataforma de streaming Spotify.  

“O brasileiro já tem por hábito ouvir bastante música brasileira. É um dos países com maior índice de consumo da própria música. Canções nacionais costumam figurar sempre entre as mais tocadas nas paradas de sucesso”, disse Simas.


A realidade do mercado da música 

Deixando de lado os cenários hipotéticos, o país ainda tem uma longa luta contra a covid-19. Com mais de 55 mil mortos e 1 milhão de infectados, as casas de shows precisarão investir em estratégias de segurança para retomarem o funcionamento. 

“As casas de shows terão que se adequar aos novos protocolos de segurança quando reabrirem, mas acredito que isso ainda demore a acontecer. Será a última atividade a se normalizar”, afirmou Simas

Por outra perspectiva, Nobre disse que é possível surgir um desnível entre as grandes casas de shows e estabelecimentos menores, mas que, de qualquer forma, todas estão longe de voltar ao normal. 

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“Acho que algumas casas, mais elitizadas, mais organizadas, que tem maior estrutura, vão se organizar para receber artistas com um público pequeno. Alguma deve receber [músicos] sem plateia, mas não acho que é a maneira certa [...] Acho que a gente só vai voltar ou vai ter um novo normal a partir do ano que vem”.

Como disse Simas, “independentemente da crise, a música brasileira merece maior atenção”. E os artistas e o público sabem disso. 

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Apesar da aprovação da lei Aldir Blanc, que visa auxiliar financeiramente trabalhadores da classe artística com até três parcelas mensais de R$ 600, segundo informações do Congresso em Foco, músicos de diversas partes do país se reuniram para arrecadar fundos para profissionais da área.

O festival virtual João Rock, por exemplo, fez um leilão com itens de Alceu Valença e Humberto Gessinger. Já o projeto Juntos pela Música, da UBC - União Brasileira de Compositores -  em parceira com o Spotify, fez uma live de 24 horas para arrecadar doações que foram destinadas à artistas em situação de vulnerabilidade.


Futuro incerto

Aos poucos, o mercado da música testa alternativas para voltar à ativa, como a banda Jota Quest, o grupo Turma do Pagode, o rapper Marcelo D2 e a dupla Anavitória, que anunciaram shows drive-in no Allianz Parque, em São Paulo. 

Mas, mesmo com as iniciativas e pesquisas sobre o setor, a indústria da música continuará tendo um futuro incerto enquanto a pandemia de covid-19 não chegar ao fim, segundo Simas.

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“Enquanto a pandemia não chegar à um fim definitivo (a cura), acho difícil que os shows nacionais continuem acontecendo de forma parecida como aconteciam antes. Alguns shows de drive-in estão começando a rolar, mas estão longe de proporcionar a experiência catártica de um show à vera [ou seja, de verdade]”.

Ele completou: “Os drive-ins são uma forma segura e válida de entretenimento para o momento, mas são, em sua maioria, inviáveis comercialmente. A conta dificilmente fecha. A importância de projetos como esses está mais ligada ao papel que o entretenimento tem na saúde mental das pessoas”.

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Por fim, Nobre disse que o fortalecimento da cena musical brasileira deve acontecer por meio de outros formatos além dos shows, pois também haverá uma diminuição das apresentações nacionais. 

“Por mais otimista que eu seja, eu não acho que grandes turnês, mesmo de artistas nacionais, vão acontecer esse ano ainda. O que pode acontecer é o fortalecimento das cenas locais, os artistas vão tocar cada vez mais nas cidades e regiões deles, e viajar o mínimo possível grandes distâncias de ônibus ou avião.”


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