Como The Rocky Horror Picture Show levantou discussões de gênero em 1975 e se tornou cult?

Na década de 1970, o filme de Jim Sharman estabeleceu o primeiro contato de muitos espectadores com o universo queer

Lorena Reis Publicado em 06/07/2020, às 07h00

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Patricia Quinn, Tim Curry e Nell Campbell em The Rocky Horror Picture Show (Foto: Reprodução via IMDB)
"Don't Dream It, Be It"

Assistir The Rocky Horror Picture Show foi, para mim, uma experiência transformadora. Eu sempre fui uma criança precoce e curiosa, em muitos sentidos, e, aos 13 anos, o filme me caiu como uma luva. Na época, eu já fazia teatro há quatro anos e era completamente apaixonada por música. Quando as duas coisas se juntavam, então, era tiro e queda.

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Mas Rocky Horror, é claro, desceu de uma forma diferente, única. Instigante. Talvez essa seja a palavra. Dali a três ou quatro dias, eu sabia todas as falas de cor e cantava as faixas do começo ao fim. A verdade, no entanto, é que eu não entendia muito bem o caráter revolucionário do filme até há pouco tempo, quando o revisitei depois de quase cinco anos. Agora, com outra cabeça.

 

Enredo (contém spoilers)

The Rocky Horror Picture Show é uma sátira aos (inúmeros) filmes de terror e ficção científica da década de 1930 até o início da década de 1960, o que é evidenciado ainda nos primeiros minutos do filme, quando uma boca flutuante canta "Science Fiction, Double Feature" e faz referências ao ator Michael Rennie e ao herói Flash Gordon com sua "cueca prata". Relembre:

 

Romance? Terror? Ficção científica?

Dirigido por Jim Sharman, The Rocky Horror Picture Show é baseado no musical homônimo de 1973, escrito pelo também ator Richard O'Brian (que vive o "faz-tudo" Riff Raff). O roteiro foi adaptado de forma brilhante - e bastante teatral - para as telonas, configurando uma comédia de terror britânica.

Lançado, enfim, em agosto de 1975, o filme começa com um criminologista, que narra a história de Brad Majors e Janet Weiss. Após um pedido de noivado fabuloso (com direito a muita cantoria), o casal se perde no meio de uma noite fria e chuvosa, sendo obrigado buscar ajuda - e a única coisa que encontram é um castelo no mínimo suspeito. Lá eles conhecem o Dr. Frank-N-Furter, que se autoproclama "uma doce travesti de Transexual, Transilvânia" e acaba de finalizar seu último experimento: Rocky, um humano artificial criado para satisfazer-lhe.

"Por que você não fica para a noite? /
Ou talvez para o jantar? /
Eu poderia mostrar-lhe a minha obsessão favorita /
Eu estive fazendo um homem /
Com cabelos loiros e um bronzeado /
E ele é bom para aliviar a minha... Tensão", canta Frank, pedindo para que Brad e Janet ficassem mais um pouco. 

Nesse meio tempo, o enredo se desenrola: Frank seduz Brad e Janet separadamente - e nenhum dos dois resiste a ele. Depois, o Dr. Everett Scott invade o castelo para resgatar seu sobrinho, Eddie, que também havia sido manipulado por Frank e ficou preso lá dentro.

Já no final do filme, os assistentes de Frank, Riff Raff e Magenta, revelam-se alienígenas do planeta Transexual, da galáxia Transilvânia, matando, em seguida, Frank e todos os presentes, exceto Brad, Janet e Scott, que ficam no planeta Terra. Depois, eles decolam no próprio castelo, que, esse tempo todo, era uma espaçonave.

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Como o filme se tornou um clássico?

Com uma premissa exótica para os anos 1970, The Rocky Horror Picture Show foi inicialmente um fracasso de bilheteria, enfrentando uma audiência muito pequena. Pouco tempo depois, o filme decolou e, quando o fez, seu sucesso foi irrefreável - tanto que conquistou o status de "cult" após as famosas sessões noturnas, primeiro em Nova York e, eventualmente, no mundo. Muito disso se deve, é claro, ao público LGBTQA+, que logo se identificou com seu apelo à liberdade sexual.

Segundo o crítico Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, Rocky Horror foi, a princípio, "ignorado pela maioria das pessoas, incluindo os fanáticos que eventualmente o assistiriam centenas de vezes". Enquanto isso, em 2005, o “Registro Nacional de Filmes” (National Film Registry) dos Estados Unidos classificou o filme como "cultural, histórica e esteticamente significativo."

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Tim Curry (Sim, ele merece um tópico exclusivo!)

                                         "Ele é o maior sedutor de todos", disse Tim Curry sobre Frank-N-Futher (via The New York Times).
"
Todo mundo é um alvo em potencial."

É literalmente impossivel não se impressionar com a performance estonteante de Tim Curry em Rocky Horror. O elenco inteiro é brilhante, com Susan Sarandon, Barry Bostwick, Richard O'Brien, Patricia Quinn, Nell Campbell, Meat Loaf, entre outros. No entanto, vestindo uma jaqueta de couro e meia arrastão, Curry deu tudo de si como Frank-N-Further e merece ser eternamente enfatizado.

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Conservadorismo vs. Subversão

Bom, vamos ao que interessa: The Rocky Horror Picture Show é um dos maiores clássicos queer, visto que estabeleceu, em 1975, o primeiro contato de muitos espectadores com o universo LGBTQA+ a partir de experiências de transvestismo e descobertas homossexuais. Ainda, o filme, à frente do tempo, contrastou o "conservadorismo" da década de 1950 com a "subversão" da década de 1970, abrindo portas para o autoconhecimento e levantando questões de gênero que eram, muitas vezes, varridas para baixo do tapete.

Em The Rocky Horror Picture Show, podemos observar que tanto a masculinidade quanto a feminilidade e a liberdade neutra em termos de gênero mostram-se presentes. O Dr. Frank-N-Furter é um espírito livre que, eventualmente, revela uma personalidade viril dominante, embora sua vestimenta, maquiagem e trejeitos sugiram uma feminilidade sedutora (a qual ele sabe como e quando usar).

 

Por mais que o filme tenha estreado numa época marcante para as discussões de sexualidade, ele ainda é bastante atual, afinal, ajudou muitas pessoas do meu convívio a descobrirem que não se identificam com as regras heteronormativas impostas pela sociedade. 

Sem mais delongas, é pouco dizer que Rocky Horror expandiu meus horizontes e mudou a maneira como eu encaro algumas questões. Muitos ensinamentos ficaram - e, entre eles, o fato de que, idealmente, todos nós deveríamos ser quem quisermos ser. Talvez seja por isso que a frase "Don't Dream It, Be It" (ou melhor: "Não Sonhe, Seja") ainda ecoe tanto na minha cabeça, mesmo depois de tanto tempo.

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