Como uma revolucionária banda de rock tcheca inspirou Vaclav Havel

Havel conheceu a Plastic People of the Universe em 1976

James Sullivan Publicado em 21/12/2011, às 09h31

Vaclav Havel
AP

Foi preciso uma banda de rock tchecoslovaca que idolatrava Frank Zappa e o Velvet Underground para fazer com que Vaclav Havel percebesse o verdadeiro poder da rebelião. Havel, o dramaturgo, humanitário e revolucionário político tcheco que morreu no último domingo, 18, arriscou seu movimento com o manifesto conhecido como Carta 77, que teve inspiração direta de uma banda de rock underground chamada Plastic People of the Universe.

Intitulada em homenagem a uma música de Zappa, a Plastic People se formou em 1968, logo após a repressão de uma revolta conhecida como Primavera de Praga. Eles tocavam um tipo psicodélico de rock de garagem, como seus heróis norte-americanos, incluindo o Velvet, Captain Beefheart e o Fugs, conta Paul Wilson, um canadense que era professor em Praga naquela época. Wilson se juntou à banda em 1970 a pedido do manager deles, Ivan Jirous, um crítico cultural que atuava como uma espécie de diretor de arte pra o grupo, mais ou menos como Andy Warhol fez pelo Velvet Underground.

Em termos de letras, o Plastic People era mais místico do que político, Wilson diz à Rolling Stone EUA. O frontman Milan Hlavsa – "um astro do rock nato", diz Wilson – era açougueiro, na prática. Wilson cantava em inglês, mas quando o grupo foi empurrado para o underground por um regime tcheco cada vez mais hostil, ele convenceu seus colegas de banda a se concentrarem em letras tchecas. Ele deixou a banda em 1972, mas se manteve por perto, tocando em projetos paralelos (um deles chamado Old Teenagers) que faziam covers de clássicos do rock. Mas em uma cultura repressiva que pedia para músicos profissionais manterem seus cabelos bem cortados, suas roupas conservadoras e suas letras em tcheco, a banda se tornou cada vez mais politizada conforme foi passando a década de 70.

Forçado a ficar cada vez mais afundado no underground, Jirous escreveu um ensaio influente a respeito da resistência no rock and roll. Nele, descreveu uma comunidade concentrada em "viver na verdade", slogan que se tornaria importante nos textos de Havel. Em 1976, de acordo com Wilson, Havel e Jirous se reencontraram em uma reunião secreta e “altamente conspiratória” que foi deslocada de um estúdio de gravação para o bar de vinhos de um hotel. Havel e seus colegas escritores e acadêmicos estavam sendo perturbados pelo regime comunista e algumas pessoas tinham sido presas. Jirous sabia que o rock underground estava prestes a ter um grande confronto com o governo; em questão de semanas “aconteceu um arrastão”, revela Wilson. Mais de 20 músicos, incluindo o Plastic People, foram presos como dissidentes.

O julgamento que se seguiu mostrou a Havel o quanto tal resistência poderia inspirar o tipo de reforma pela qual ele e seus colegas torciam. Carta 77 foi escrito com intenções calculadas; Havel e seus colegas sabiam que assinando aquilo estariam se submetendo a uma ação policial semelhante. "Ele disse “nunca vamos chegar a lugar algum a não ser que nos arrisquemos como esses jovens fizeram'", relembra Wilson, que foi deportado em 1977. Wilson acabou fundando uma gravadora que distribuía a música da banda, incluindo um disco de 1974 chamado Egon Bondy's Happy Hearts Club Banned, em pequenas quantidades na Europa e na América do Norte.

Até conhecer a banda, Havel não era exatamente um vanguardista da cultura. "Tem uma carta escrita por ele na prisão em que está pedindo a sua esposa para comprar o disco mais recente do Bee Gees”, diz Wilson, que traduziu muitos dos escritos de Havel. Uma vez que se familiarizou com o Plastic People e o círculo deles, contudo, Havel se tornou o patrocinador não oficial deles. A banda fez muitos shows no estábulo da casa no interior onde ele morreu no último domingo, 18.

No fim das contas, como a polícia estava incendiando as casas onde as bandas de rock estavam se apresentando, eles pararam de fazer shows. Desgastados por causa da perseguição, se separaram em 1988, um ano antes da Revolução de Veludo na Tchecoslováquia. Não está claro de onde surgiu o nome do movimento, de acordo com Wilson: "Seria legal pensar que veio do Velvet Underground, mas não tem nenhuma prova disso."

No início da década de 90, o Plastic People se reuniu como Pulnoc ("Midnight"), fez turnê pelos Estados Unidos e lançou um álbum pela Arista Records. Nele estava o cover de "All Tomorrow's Parties", do Velvet Underground. Em 1997, Havel (que naquele momento já era o primeiro presidente da nova República Tcheca) convidou o Plastic People para tocar no Castelo de Praga para comemorar o aniversário de 20 anos do Carta 77.

Depois disso, a banda "se tornou novamente famosa por conta própria”, diz Wilson. Desta vez, em um país reformado, a banda reunida poderia ser reverenciada por algo além a subversão política dela, ele diz. "As pessoas de fato amavam a música deles.”