Confissões de um pós-adolescente

Hélio Flanders, frontman do Vanguart, vai se apresentar sozinho no próximo sábado, 17, mas garante que não tem vontade de seguir carreira solo: "Antes era muito 'eu', muito sozinho. Vira diário de adolescente quando fica assim"

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 12/10/2009, às 14h49

Imagine a seguinte imagem: um rapaz franzino, visual amarrotado de quem passou horas na frente do espelho para sair de casa como se tivesse acabado de acordar, cabelos tão comportados quanto festa no camarim de banda de rock. Ele pega o violão e manda seu folk de dúvidas existenciais, daquelas que, mesmo intimistas, conseguem falar a multidões.

Tudo bem se você pensou em Bob Dylan. Não seria a primeira vez que Hélio Flanders, vocalista do Vanguart, tem sua imagem ligada ao cantor. Tiete assumido que é daquele menino magrinho que costumava atender por Robert Allen Zimmerman antes de virar uma das maiores lendas do rock, o músico brasileiro terá, em poucos dias, ainda mais chances de fazer trazer à tona a lembrança de Dylan no palco. No próximo sábado, 17, ele levará seu folk ao Sesc Pompéia (São Paulo) para o projeto "Do Coração ao Cotovelo": uma apresentação solo, definida como "banquinho e violão, sem o banquinho", em noite que também contará com show da cantora Tiê.

Se depender do nome, a empreitada garante nota 5 para cima na Escala Richter do emo. Seria Flanders o lado B no disco arranhado das franjas lambidas?

Foi com voz de sono - às 13h30 - que Flanders atendeu a reportagem do site da Rolling Stone Brasil, por telefone, minutos antes de partir para um ensaio com os camaradas do Vanguart. Não, o cuiabano de 24 anos não guarda muita semelhança com aquela turma que fala dos problemas do coração com a profundidade de quem conheceu o Verdadeiro Amor na fila para comprar chapinha de cabelo. A experiência, na verdade, está mais ligada à chance de automedicar a dor de cotovelo com repertório íntimo - o que significa "duas ou três músicas minhas e outras de Bob Dylan, Neil Young, Smiths".

"Ao vivo, é você e o violão. E, no caso, um pouquinho de viola e piano também", resume o que considera "uma experiência legal", principalmente pela oportunidade de "tocar sem marcar tempo, sem ter que ensaiar".

Não é preciso ser aluno aplicado na Escolinha da Mãe Diná para prever o que acabou de passar pela cabeça de boa parte dos leitores deste texto: estaria o principal compositor do Vanguart preparando terreno para semear carreira solo em breve? Não é o caso, ele garante. "A banda me satisfaz muito ainda. Sozinho, vou viver numa sinuca. No futuro, posso vir a fazer, a produzir discos meus em casa, sabe? Agora, não tenho essa vontade, mesmo."

Duas coisas que, definitivamente, não estão nos seus planos atuais: ser caseiro e sozinho. No primeiro caso porque, para horror da ala mais à esquerda do indie, para a qual as pequenas gravadoras são como montanhas de Sierra Maestra de onde convém combater o inimigo imperialista, o Vanguart lançará o segundo álbum pela gigante Universal. Ou seja, nada deste papo de vender bicicleta da irmã mais nova, se necessário for, para bancar disco feito na garagem do baixista.

"Estamos no Brasil. Gravar sozinho é difícil", Flanders explica, e sua voz não é a de quem está na defensiva - ele soa como se estivesse constatando que dois mais dois, ora essa, só pode ser igual a quatro. Mas até que ponto grande gravadora (a mesma de Ivete Sangalo e NX Zero) e liberdade artística não são como água e azeite - entram no mesmo frasco, mas jamais se misturam? "Não é assim. Hoje a relação de vínculo [entre artista e selo] mudou muito. Viemos do indie meio chatinhos, querendo impor. Eles sabem que só vai funcionar se for do nosso jeito."

Quanto a ser solitário, o vocalista também não quer mais preservar aquela imagem de alguém que anda pra lá e pra cá com a plaquinha pendurada no pescoço: "Não perturbe: gênio pensando". Prova disso é que, para o sucessor do disco de estreia da banda, Vanguart (2007), Flanders não vai segurar a batata quente sozinho: deverão entrar no repertório mais parcerias, como as com Júlio Nhanha e Reginaldo Lincoln, ex e atual baixista, respectivamente. Outra possibilidade é trabalhar com Romulo Fróes. "Antes era muito 'eu', muito sozinho. Vira diário de adolescente quando fica assim."

O plano é entrar em estúdio em janeiro e ter o trabalho pronto para o meio de 2010 - algumas possíveis integrantes da tracklist já estão na internet, como "Home Theories". "Estamos ensaiando, vendo qual vai ser a cara do filho", ele explicou em que pé estão os preparativos do novo disco. "A grande diferença é termos amadurecido. Agora somos homens. Antes, éramos só garotos."

Atualmente, Flanders divide apartamento com Douglas Godoy, o baterista do Vanguart, "e uns amigos aí", na Barra Funda ("o resto todo está casado, morando com as namoradas"). Antes, eles moravam em Perdizes, mas Flanders curtiu o novo CEP, "porque tem esta atmosfera mais operária". Estariam aí influências para o segundo álbum do Vanguart? A gente desconfia.

Hélio Flanders e Tiê

São Paulo, 17 de outubro, às 21h

Sesc Pompéia - Rua Clélia, 93

R$ 16 (R$ 8, com meia-entrada)

Informações: 11 3871-7700