Conheça Cidade Dormitório, o trio sergipano que mistura punk e psicodelia ao falar sobre relacionamentos modernos

Fraternidade-Terror, disco de estreia da banda, saiu em outubro de 2019 e é um reflexo franco e doloroso do Brasil atual

Lorena Reis Publicado em 17/03/2020, às 16h30

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Cidade Dormitório (Foto: Divulgação / Hemilly Souza)

Com uma sonoridade que transita entre o pós-punk e a psicodelia experimental (uma daquelas que faz você se sentir sortudo ao escutar na lista de reprodução automática do YouTube), a banda sergipana Cidade Dormitório discorre sobre as múltiplas facetas urbanas e a liquidez dos relacionamentos modernos no álbum Fraternidade-Terror, lançado em 28 de outubro de 2019 e disponível nas plataformas digitais.

Com Yves Deluc nos vocais e na guitarra, Lauro Francis no baixo e Fabio Aricawa na bateria, o jovem trio de Aracaju nasceu em 2015 e prontamente se destacou nos palcos. Abriram o III Festival ZONS e o Festival DoSol - ambos em 2016. Desde então, apresentaram-se ao lado de grandes nomes brasileiros, como Chico César, The Baggios, Maglore, Vivendo Do Ócio, Scalene e Boogarins.

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Entusiasmado, Deluc compartilhou a história da banda com a Rolling Stone Brasil: “Eu tinha acabado de entrar na faculdade, comecei a compor algumas músicas e postar tudo no SoundCloud. Muitas pessoas me conheceram dessa forma, como o Lauro e o Heder [Nascimento, ex-guitarrista da banda]. Eles queriam fazer um projeto, e foi bem assim.”

Quanto ao Fabio, o vocalista contou que o encontrou ocasionalmente durante um show cover do Pixies, no qual o baterista se apresentava. “Ele estava tocando e eu achei aquilo massa para caramba”, revelou. “Depois, eu estava tocando no acalorado [da faculdade] e o mesmo rapaz que eu tinha visto lá veio me chamar. Ele nunca tinha tocado bateria, mas queria fazer parte disso.”

Assim, o (então) quarteto passou a se reunir no apartamento de um amigo, às margens da Universidade Federal de Sergipe: “Temos essa pegada da vida universitária também, isso é divertido!”.

Embora possa soar como uma incógnita, a escolha do nome "Cidade Dormitório" decifra muito bem o processo de formação da banda.

“Nós morávamos em Nossa Senhora do Socorro [uma cidade-dormitório, ou seja, uma cidade que serve de moradia, mas é economicamente movida por outra cidade]”, explica Yves. “É um termo que tece toda a nossa rede de relacionamentos. Por isso, nossas composições discorrem sobre aspectos aparentemente banais, mas que fazem parte do nosso cotidiano urbanóide (...) Não tem nada mais expressivo que o cotidiano; ele é nutrido por tudo. Pelas fissuras, pelas desigualdades, pela paixão. E você encontra tudo isso nas ruas, nas calçadas, nos bares... É um nome bacana.”

Em 31 de janeiro de 2017, os integrantes da Cidade Dormitório divulgaram o EP Esperando o Pior, sem imaginar que a obra de 4 faixas teria tanta repercussão. "Agora o Meu Coração é Um Lixeiro Azul Vazio Escroto", em especial, soma mais de 1 milhão de visualizações no YouTube ao traduzir, poeticamente, um arquétipo de desilusão:

"Você magoou meu coração /
E agora no meu peito rola algo meio mau /
Um pedaço de plástico pesado e azul /
Depredando o meu miocárdio tão sentimental."

Ouça a canção abaixo:

“Não tínhamos a menor ideia do que poderia acontecer”, contou o vocalista, estudante de psicologia. “A gente sabia que era uma música massa, assim, com potencial chicleteiro, talvez? Estranha, com um nome gigante, divertido, quem sabe? Mas eu nunca imaginei, mesmo reconhecendo que a música é boa e com um potencial enorme.”

Lançar um álbum, enfim, mostrava-se um processo natural e necessário para consolidar o trabalho material da banda - e assim nasceu Fraternidade-Terrorum reflexo franco e doloroso do Brasil atual. Nele, são retratados temas complexos como romance e melancolia, bem como os dramas mais profundos da humanidade.


Capa de Fraternidade-Terror desenhada por Emanuelle Alencar

Mesmo com as músicas já na incubadora, em processo de maturação, Yves confessou que o processo de produção do disco foi bastante acidentado.

“Não sabíamos direito como conectar o álbum, no sentido de concatenar as composições”, afirmou. “Mas havia um clima sombrio nas faixas. Então, eu pensei muito sobre a liquidez descrita por [Zygmunt] Bauman, sobre como a sociabilidade se reflete na fraternidade, ao mesmo tempo em que é afobada pela distância”, ele acrescentou, e contou, também, se inspirar na própria vida ao compor as músicas da Cidade Dormitório - que, geralmente, recorrem aos sentimentos de tristeza e solidão.

“As temáticas estão aí. Elas existem. Eu espero que possamos fazer canções mais felizes também (risos). Mas é o que rola, um material mais crítico, mais amargo. As relações são complicadas mesmo. E das relações surgem coisas boas e ruins. Tudo serve como inspiração. Às vezes, nem como inspiração, mas necessidade de botar para fora”, concluiu.


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