Conheça a história da diretora de Selma – Uma Luta pela Igualdade, indicado ao Oscar de Melhor Filme

Como a nerd em filmes Ava DuVernay fez o longa-metragem mais importante do ano

GAVIN EDWARDS Publicado em 21/02/2015, às 09h47

Ava DuVernay, diretora de Selma

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“A violência ao contrário é uma ferramenta ousada e sofisticada”, diz Ava DuVernay. Sentada em um restaurante mexicano em West Hollywood, a diretora da Selma fala a respeito do seu filme mundialmente aclamado, sobre Martin Luther King Jr. e o legado do movimento pelos direitos civis. “Hoje em dia você conversa com outras pessoas sobre King e tudo o que elas conhecem é o [discurso] ‘I Have a Dream’ e que ele acreditava na paz. Sério? Ele foi reduzido a isso?”.

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Selma – Uma Luta pela Igualdade, estrelado por David Oyelowo no papel de King, é o antídoto a essa percepção rasa da vida do líder do movimento pelos direitos civis – um filme fascinante sobre os protestos de 1965 em Selma, no Alabamba, liderados por King, fundamentais para a aprovação do Voting Acting Act.

DuVernay pode fazer história neste ano como a primeira mulher negra a receber uma indicação para o Oscar de Melhor Diretor. “Isso não é importante para mim”, ela diz a respeito de sua condição pioneira. “Mas sei que é importante para outras pessoas”. Ela se serve de guacamole. “É um misto de sentimentos, já que não sou a primeira mulher negra a merecer isso”. [Nota do Editor: DuVernay não recebeu uma indicação neste ano].

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DuVerney, 42 anos, é divertida e direta. Hoje as cores de suas unhas não combinam entre si – ela perdeu algumas das unhas postiças – mas se esquiva do tema com elegância. “Você é homem, não deveria reparar nessas coisas”, ela comenta em meio a risadas.

Suas opções de filmes na infância e adolescência em Compton, Califórnia, eram restritas a blockbusters. “Não há cinemas independentes em comunidades negras no país”, ela diz. Contudo, seu amor por filmes cresceu com as idas semanais ao cinema com uma tia e por um encontro na infância com Roger Ebert.

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Na UCLA, onde se graduou em Estudos Afro-Americanos e em Inglês, DuVernay descobriu o mundo das produções independentes e, depois da formatura, tornou-se uma promotora de sucesso de filmes. Enquanto trabalhava no set de Colateral (o suspense de Michael Mann estrelado por Tom Cruise e Jamie Foxx), teve uma epifania sobre o que fazer de sua vida.

“Javier Bardem estava no set, e havia algo naquela cena com Javier e Jamie, aquele homem de cor e um homem negro. Estávamos no leste de Los Angeles, em um lugar meio pesado, à noite, com uma câmera digital. Eu simplesmente adorei aquilo. Comecei a escrever um roteiro naquele fim de semana”. O roteiro, sobre uma jovem cujo marido estava na cadeia, veio a ser Middle of Nowere, que venceu o prêmio de Melhor Direção do Festival de Sundance, em 2012.

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Selma tem muitas qualidades, incluindo um elenco notavelmente amplo (Oprah Winfrey tem um pequeno papel como a ativista Annie Lee Cooper). Mas alguns dos pontos altos do filme vêm de sua objetividade e simplicidade, como o uso dos silêncios por DuVernay. Em uma cena indelével, a esposa de King, Coretta, confronta-o sobre os encontros extraconjugais dele e pergunta se ele ama alguma outra mulher. Há uma longa e carregada pausa antes de ele dizer: “Não”.

“Gosto do silêncio”, diz DuVernay. “Esteticamente, sinto-me sufocada pelos cortes rápidos e uma parede sonora. E acho que mostrar negros pensando em uma tela é algo radical.”

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“Ava é uma das grandes líderes das quais estive próximo”, diz o rapper e ator Common, que interpreta um ativista dos direitos civis, James Bevel. “Ela nos faz sentir que somos parte de algo especial. Vejo os atores de fundo comprometidos e não fazendo as coisas de maneira forçada – isso é um testamento para o diretor.”

Uma versão mais antiga do roteiro trazia foco maior no relacionamento entre King e o presidente Lyndon B. Johnson, e como os esforços deles levaram ao Voting Rights Act. Mas o filme tem sido criticado – mais diretamente pelo antigo assistente de Johnson, Joseph A. Califano Jr. – por retratar Johnson mais como antagonista do que como parceiro de King.

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“Todo cineasta faz um filme com o próprio ponto de vista”, diz DuVernay. “O roteiro era essa coisa de LBJ e King mas, originalmente, era muito mais tendencioso a LBJ. Não estava interessada em fazer um filme com um ‘salvador’ branco. Eu estava interessa em fazer um filme centrado nas pessoas de Selma.”

“Ele tem sido tratado como o herói da época”, segue. “E ele foi [um herói], mas um herói relutante. Ele teve de ser convencido e encorajado, ele estava protegendo um legado –não estava fazendo algo pela bondade do coração dele. Isso deixa as coisas melhores ou piores? Não acho. História é história, e ele fez isso, eventualmente. Mas houve um processo para isso que era importante mostrar.”

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Cinco décadas depois dos protestos de Selma, violência policial contra negros sancionada pelo Estado tornou-se um assunto pertinente. Conforme ela observa: “A arte se transforma com o que está acontecendo no mundo. Dizemos ‘Ferguson’, não dizemos ‘Mike Brown’. Assim como dizemos ‘Selma’, não ‘Jimmie Lee Jackson’. Há algo de surpreendente nas pessoas em um lugar específico – uma cidade pequena –, erguendo-se e tomando as ruas.”

Agora, DuVernay busca desenvolver uma série de TV. Ela também está juntando material para um documentário sobre o “complexo prisional-industrial” norte-americano. “Agora tenho as chaves do carro, e não irei estacionar tão cedo.”