Conheça Mary Morello (mãe de Tom Morello): aos 96, ativista política, a favor do rock e contra o racismo

Talento vem de berço… E, no caso de Tom Morello, o ativismo também

Yolanda Reis | @ysreis Publicado em 20/08/2020, às 07h00

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Tom e Mary Morello, filho e mãe, em protesto (Foto: Reprodução / Instagram)

Tom Morello é uma das maiores vozes políticas da música. Em letras conhecidas, como Killin’ In The Name doRage Against The Machine e “Unfuck the World” do Prophets of Rage, o músico leva a voz do protesto para auto-falantes, palanques, palcos e playlists do mundo todo. Formado em Ciência política, é bastante ativo em militâncias a favor das minorias. Um coro importante na luta.

Mas, mais importante que a mente de Tom Morello é a mente por trás do astro:Mary Morello. Foi ela que, quando Tom chegou em casa chorando, aos quatro anos, por ter sido xingado na escola por ser negro, disse para ele lutar “como Malcolm X.” Ela, também, que ensinou a importância da liberdade de expressão - e deu muitas aulas de história para ele. Mary, a mãe de (quase) 97 anos do Tom Morello, é a verdadeira política do filho.

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Todos os anos, Morello faz questão de lembrar disso. Em publicações nas redes sociais, celebra a vida da mãe, e agradece por tudo que ela fez e como se sacrificou para criá-lo sozinha - e sem faltar nada. Foi mãe, pai, professora e “a maior mulher” para o vocalista do RATM. Moveu fundos e mundos para o filho - mas não parou por aí: influenciou toda uma comunidade.

Ela, que completa 97 anos em outubro de 2020, passou praticamente um século inteiro lutando pela igualdade entre povos - e a liberdade de expressão. Foi professora, ativista, defensora do rock, e uma ótima mãe. Conheça Mary Morello - uma pessoa que os fãs de Tom vão amar ainda mais que ele:

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Forte e independente

Mary Morello nasceu em 1923 em Marseilles, Illinois, EUA - uma cidade que, em 2018, não tinha nem 5 mil habitantes. Filha de italianos e irlandeses, cresceu em meio à minas de carvão e pobreza. Ainda na infância, viu a força da Grande Depressão chegar na comunidade, e começou seu caminho benfeitor: compadecida, cozinhava e entregava comida para as muitas pessoas em situação de rua do período. Ainda durante a adolescência, ajudou os operários de carvão a organizar um sindicato e lutar por direitos trabalhistas e condições dignas de mão de obra.

No início da vida adulta, Mary viu o irmão (a quem Tom Morello chamou, carinhosamente, de “tio Bud” no Instagram) partir para Segunda Guerra Mundial. Ele fazia parte da divisão de tanques - e ela, como mulher, ficou nos Estados Unidos. Para ajudar, começou a vender títulos de crédito do governo para levantar dinheiro para os batalhões - odiava os nazistas.

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Com o fim da Guerra e o mundo em frangalhos, Mary decidiu que queria mais para si. No início da década de 1950, com vinte e tantos anos - idade, na época, em que as pessoas já eram casadas e tinham vários filhos - decidiu estudar, viajar, e seguir solteira. Foi até Chicago e formou-se na universidade em História da África e América Latina. Depois, pegou carona nuns navios cargueiros - e ganhou o resto do mundo.

Durante a segunda metade dos anos 1950, explicou Tom em vários contos nas redes sociais, Mary visitou mais de 60 países. Sua paixão era conhecer. Parou, aqui e ali, e foi professora de inglês em países como Alemanha, Peru, Espanha e Japão. Em 1960, embarcou no Quênia - e lá ficou, pois descobriu o propósito maior da sua vida: a luta política.

Quando Mary Morello chegou no país africano, foi recebida por guerra. Sob o domínio inglês, Quênia sofria exploração da Europa, que, depois da destruição da Segunda Guerra, usava as terras férteis para cultivo próprio. Durante os anos 1950, os indianos entraram em conflito, pois também queriam usufruir do local. Em contrapartida, havia a resistência local, União Africana do Quênia, exigindo redistribuição da terra. Dentro do partido africano, havia a sociedade secreta e de guerrilha Mau-Mau. O objetivo deles era uma guerra para libertar o país do domínio da Inglaterra.

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Na Quênia, Mary se apaixonou duas vezes. A primeira, pela causa de libertação do povo. A segunda, pelo jornalista Ngethe Njoroge, participante ativo dos Mau-Mau. Os dois namoraram e lutaram, juntos, pela independência da Quênia (que veio em 1963, sob a liderança de Jomo Kenyatta, depois de 10 anos de luta e cerca de 420 mil mortos). Ngethe virou o primeiro diplomata queniano nos EUA; Njoroge Mungai, irmão dele, virou membro do parlamento; Jemimah Gecaga, irmã, a primeira mulher do poder legislativo no Quênia; Jomo Kenyatta, tio-avô e cabeça da revolução, o primeiro presidente do país. 

Mary Morello e Ngethe Njoroge voltaram para Chicago lá pelo meio de 1963 e se casaram após ela descobrir que estava grávida. Quando chegaram, encontraram os EUA também em caos político: a revolta contra as leis de Jim Crow, que asseguravam distinção entre pessoas brancas e negras - e tornavam possíveis agressões contra pessoas não-brancas. O Movimento dos Direitos Civis fervilhava, e o casal endossou a multidão que pedia igualdade.

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Para poder trabalhar ativamente no fim da segregação racial, Mary filiou-se ao Chicago Urban League, ou Liga Urbana de Chicago, e à National Association for the Advancement of Colored People (NAACP). Ambas as organizações pressionavam o governo Kennedy para mudanças de leis, e a segunda ajudou a organizar a Marcha sobre Washington - na qual Martin Luther King Jr. fez o famoso discurso Eu Tenho um Sonho.

Mudando de vida (em partes)

Em 1965, Mary e Ngethe mudaram-se para Nova York. Em maio daquele ano, receberam Tom, primeiro e único filho do casal. Mas não durou muito: quando o bebê tinha pouco mais de um ano, o pai voltou para Quênia. Tom Morello refere-se sempre à Mary como “mãe solteira”. “Nunca senti falta de outro parente [...] e obrigado por me armar com orgulho e confiança,” escreveu o músico no Instagram em 2017 e 2020.

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Mary e Tom Morello; o menino tinha cerca de quatro anos (Foto: Reprodução / Instagram)

Criando o filho sozinha, Mary saiu de Nova York e voltou para Illinois. Desta vez, para a um pouco maior - mas ainda pequena Libertyville. Com o espírito nômade acalmado por um bebê, resolveu virar professora. Assumiu, na Libertyville High School, o cargo de Ciências Sociais e História dos EUA.

Foi como professora de colégio que Mary criou Tom. Em diversas publicações do Instagram, o músico deixa clara a admiração que tem por ela. “Ela causou tumulto e foi uma professora radical num colégio conservador de crianças brancas, e inspirou estudantes a desafiaram o sistema enquanto ajudava a NAACP e o CUL.” Lá, Mary inspirou, de fato, vários estudantes, incluindo Adam Jones, do Tool.

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Quando Tom Morello tinha 13 anos, Mary deu para ele a primeira guitarra. Ela adorava o envolvimento do filho com as artes, e deixava ele e os colegas tocarem no porão. Fazia de tudo para ele ter uma boa visão de mundo, e conseguiu pagar uma viagem para Europa durante a adolescência dele, “mesmo sem ter dinheiro.” Logo nessa idade, o músico mostrava um pensamento subversivo: define-se como “o único anarquista” da cidade que cresceu.

Mary Morello também apoiava o amor à música do filho. No Instagram, ele já a agradeceu por deixar ir a um show do Led Zeppelin “mesmo com um gesso enorme na perna”. E, com mais ênfase, ficou feliz do apoio que recebeu quando, em 1987, tomou uma das decisões mais controversas da vida de alguém: “jogar fora” o diploma de graduação com honras em Ciências Sociais da prestigiada Harvard e ir para Hollywood tentar viver de música.

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De volta ao lar

No mesmo ano, Mary resolveu mudar de rumo para apoiar um pouco mais as escolhas de Tom. Depois de 22 anos anos lecionando, abandonou a cadeira da escola e criou a associação Parents for Rock and Rap. Era uma iniciativa a favor do livre arbítrio e discurso na música - e batia de frente, diretamente, com o Parents Music Resource Center, organização de 1985 que procura censurar, ou informar aos pais, quando músicas têm conteúdo impróprio como violência ou sexo (eles são os responsáveis pelos selos de “Parental Advisory Content” nas capas de discos e filmes dos EUA).

Resgatando, também, o espírito da independência, MaryMorello voltou a se envolver mais ativamente com política. Durante os anos seguintes, fez nove viagens para promover missões de paz na Rússia, África e América do Sul. No país europeu, procurava entender e racionalizar a União Soviética, em guerra com os EUA. Já no hemisfério sul, lutava contra os Esquadrões da Morte, grupos militares que, “extraoficialmente,” punia os cidadãos como achassem melhores: tortura, morte, prisão, ou qualquer outra violência que pensassem.

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Na África do Sul, a luta de Mary era mais familiar: contra a segregação racial. O país, na época, sofria o Apartheid - uma opressão da elite branca contra a maioria negra. Ela deu aulas sobre racismo, na época, e participou de discussões sobre o assunto.

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Primeiro passeio de 2017 para Mary Morello: Museu da Revolução em Havana, Cuba (Foto: Reprodução / Instagram)

Se aproximando dos 70 anos, em 1991, mesmo ano da formação do Rage Against The Machine, Mary quis voltar a dar aulas. Como voluntária do Exército da Salvação, lecionou no Centro de Reabilitação em Waukegan, Illinois. Foi professora de alfabetização para adultos, inicialmente, em um programa que formava pessoas com diploma de Ensino Médio. Nos 20 anos seguintes, participaria de diversas maneiras na formação dessas pessoas. A maioria dos alunos eram homens negros e em situação de rua. Também ajudava-os a encontrar empregos e se reintegrar na sociedade.

Também durante os anos 1990, Mary lutou contra projetos de lei nos EUA (como o  Pornography Victims Compensation Act - no qual vítimas de violência sexual poderiam processar produtores da indústria pornô, e os agressores poderiam usar isso como justificativa; e o movimento de boicote à Cuba). Em 1999, para The Microfone, a ativista também defendeu a suspensão da pena de morte de Mumia Abu-Jamal - pois o RATM havia feito isso num show, e Tom fora duramente criticado.

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Uma tendência de Mary Morello era, inclusive, defender Tom. Odiava ver críticas negativas ao Rage Against the Machine. Se uma revista ou jornal publicasse alco contra a banda, Mary escrevia uma carta ao editor em resposta, xingando e reprimindo quem precisasse. Tom ria disso, mas agradeceu pelo carinho anos depois. Também começou a falar publicamente contra a Guerra no Iraque.

Tendo sobrevivido à Segunda Guerra e à luta de independência do Quênia, Mary Morello não gostava de conflitos. Por isso, quando no final dos anos 1990 os Estados Unidos começaram a digerir a ideia de uma batalha contra o Iraque e diversos outros países do Oriente Médio, ela foi completamente contra. Em um texto no Instagram, Tom explicou que a briga era contra a extração de petróleo no local - mas não cita as organizações que a mãe participava.

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Quase 100!

Depois da luta contra guerra dos anos 2000, ao que parece, Mary Morello precisou descansar um pouco e parar de viajar o mundo. Já com mais de 80 anos, começou a fazer sopa e comida em abrigos e grupos beneficentes, e entrega mantimentos para pessoas em situação de rua. Também começou a brincar bastante em creches comunitárias. Mesmo à distância, porém, milita contra a violência constante das guerras do oriente, como na Síria.

Mary Morello, hoje, está mais próxima dos 100 que dos 90. Não tem habilidade para manter-se online, e a maioria dos seus bons atos acaba um pouco abafada. Tom tenta mostrar sempre para o mundo o quão ativa a mãe dele é. Em 2020, os dois uniram as bandeiras ativistas - criadas por ela, erguidas para o mundo por ele: uma foto sobre o Black Lives Matter brilha no Instagram dele. Mary, que há alguns anos precisa de um andador, até dispensou a ajuda: segura, com ambas as mãos, um cartaz sobre a indignação da morte de George Floyd.

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“Minha mãe foi uma defensora incansável a vida toda. Tenho orgulho de estar do lado dela, hoje, em solidariedade na briga para um país e planeta mais justo e humano,” assinou Tom Morello.