Conheça o estúdio que revoluciona o cinema de terror moderno com A Bruxa, Midsommar e Hereditário

O impacto da produtora no terror é notável por revelar novos ares para o gênero e garantir uma nova vertente para os próximos anos

Malu Rodrigues Publicado em 28/05/2020, às 07h00

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A Bruxa, Midsommar e Hereditário (Foto 1: Reprodução/ Foto 2: Divulgação/ Foto 3: Reprodução)

Depois do ápice dos slasher com os jumpscares, o cinema deu espaço para o terror moderno. Os filmes dos anos 2010 começaram a moldar novos formatos para o gênero e focaram em elementos místicos e mais sombrios.

No cenário do terror moderno, o mercado independente se consolidou com algumas das produções mais incríveis e marcantes do período. Os detalhes impressionantes de A Bruxa (2015), Midsommar (2019) e Hereditário (2018) colocaram esses longas em um patamar único. Pelas particularidades desses filmes em relação a outros da mesma época, não é surpresa quando é revelado que eles são do mesmo estúdio: o A24.

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Com apenas oito anos de atuação, a companhia criada por David Fenkel, John Hodges e David Katz reviveu o cinema independente norte-americano e deu um novo respiro para a indústria. A empresa voltada para projetos sem muito recurso financeiro para produção começou modesta com a distribuição de filmes como Spring Breakers (2012) e The Bling Ring, de Sofia Coppola (2013).

A partir de 2014, o estúdio ganhou mais visibilidade no mercado e começou a ser conhecido pelos dramas, suspenses e coming-of-age. No entanto, depois de 2016, a A24 começaria a ser ligada ao terror moderno pelas produções subversivas e viscerais.

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Os filmes de terror da companhia independente são complexos e grotescos de uma forma viciante. Toda vez que o logo da produtora aparece na tela já sabemos que não veremos um longa simplesmente assustador, mas algo muito maior. E isso a ponto do público já saber que pensará nos simbolismos do filme por muito tempo.


Grande parte da profundidade dos filmes distribuídos ou produzidos pela A24 vem da liberdade criativa que a empresa promove aos cineastas. Ao contrário de grandes estúdios, a A24 não demanda o corte ou adição de história por parte dos diretores para agradar o público. Além disso, a companhia apoia a arte original do cineasta e dá espaço para cineastas estreantes.

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Curiosamente, por todos esses aspectos,  fãs da companhia - e críticos -, por vezes, até tratam a A24 como um gênero próprio. Em vez de se referirem ao filme de algum diretor, por exemplo, se referem aos ‘longas A24’. 

O impacto da produtora na indústria é notável, principalmente na de terror moderno, que desdobra novos ares para o gênero e garante uma nova vertente para os próximos anos. Confira os filmes mais revolucionários da companhia:


A Bruxa e a subversão do fanatismo

Talvez um dos filmes mais perturbadores e inteligentes que foram lançados nos últimos anos. A mistura do terror com o sobrenatural é desenvolvida com muita potência e todo o filme é construído em volta da tensão. 

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Cenas desconfortáveis e sufocantes são a marca de A Bruxa (2015). O filme de Robert Eggers é essencial para entender as novas bases do terror e é um exemplo perfeito da junção do gênero com elementos religiosos.

O longa revela uma família religiosa do século 17 que se depara com a ameaça sobrenatural de um ser maligno. A proposta da produção não define uma linha clara entre o clichê do bem versus o mal. O filme questiona ao longo do enredo inteiro a complexidade da vivência religiosa.



A exaustão dramática de Hereditário 

O longa produzido pela A24 marcou a estreia de Ari Aster nos cinemas. Hereditário (2018) é quase como uma epifania do terror, que constrói novos contornos para o gênero e se estabelece como umas das produções sobrenaturais mais impactantes da década.

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Sem qualquer tipo de culpa, o enredo coloca os personagens em situações tão traumatizantes que uma parte da descarga emocional deles é sentida pelo próprio espectador. O peso dramático é enorme, e só aumenta a tensão e a exaustão satisfatória do longa. 

Inclusive, foi com esse filme de terror moderno que se reascendeu o debate de grandes premiações de cinema, como o Oscar, ignorarem o gênero durante as indicações. Isso em grande parte pela atuação de Toni Collette.


O misticismo de Midsommar

O terror folk evidenciou uma narrativa inquietante de um grupo que viaja à Suécia para um festival, mas se depara com um culto pagão. O longa, também de Ari Aster, é uma ambiciosa história da mistura de misticismo e realidade sombria e crua.

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Diferente da maioria das produções de terror, Midsommar (2019) tem uma paleta clara - o que, acredite ou não, deixa tudo ainda mais perturbador. O longa abre para o espectador um enredo repleto de imagens macabras e aterrorizantes.

Midsommar foi aclamado em 2019 e, pela performance poderosa como Dani, a atriz Florence Pugh virou a nova queridinha de Hollywood. 


O Farol e o surrealismo visceral 

Estrelado por Robert Pattinson e Willem Dafoe, O Farol (2019) é o último lançamento de terror da A24 antes do fechamento dos cinemas devido à pandemia. Além da distribuição na América do Norte, a empresa também foi responsável por produzir o longa - traço que se manteve bem presente no último ano.

O Farol  é um terror psicológico sobre como dois faroleiros começam a perder a sanidade enquanto estão isolados em uma ilha e uma tempestade chega. Curiosamente, o longa também foi dirigido por Robert Eggers, de A Bruxa. Então não é surpresa ver elementos parecidos entre as duas produções.

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As cenas, filmadas todas em preto e branco, reforçam o misticismo e o sombrio do filme. Um dos pontos mais impressionantes do longa é a abordagem de lendas marítimas, mitologia e psicanálise, que se condensam em uma história surrealista e visceralmente viciante.

Sem muito gore ou os famosos jumpscares, O Farol é construído com cuidado e de forma mais lenta até chegar no ápice. O longa se renova nos detalhes em cena e visuais deslumbrantes. Inclusive, o terror foi filmado com lentes 35 mm, uma ode aos filmes dos anos 1930.


Além do terror

Apesar de brilhar e revolucionar o terror, o A24 também invadiu outros gêneros no cinema, dominou a cena independente - e invadiu a mainstream sem perder a originalidade.

No chamado Coming-of-Age, os filmes distribuídos pelo A24 viraram queridinhos da crítica. Lady Bird: A Hora de Voar (2018), de Greta Gerwig, foi indicado para melhor filme e roteiro no Oscar. Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), ganhou Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, além do Oscar de Melhor Ator para Mahershala Ali.

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Nas comédias dramáticas, um dos exemplos mais incríveis do estúdio é A Despedida (2019). Na ficção científica temos Ex Machina: Instinto Artificial (2014), enquanto no suspense vemos O Homem Duplicado (2013).

Até 2019, o estúdio recebeu 25 indicações para o Oscar. Com Room (2016), A24 ficou em evidência no mercado de entretenimento após conquistar o prêmio de Melhor Atriz pela atuação de Brie Larson. No mesmo ano, ganhou como o Oscar de melhor documentário pelo longa metragem Amy; e Oscar de melhores efeitos visuais por Ex Machina.

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Para além das telas de cinema, o A24 também está se disseminando no streaming- indo em contramão a alguns grandes estúdios norte-americanos. Na Netflix, A24 produziu o incrível - e esnobado do Oscar - Uncut Gems (Joias Brutas), protagonizado por Adam Sandler . Na Amazon, produziu o filme Anos 90, que marcou a estreia de Jonah Hill como diretor.

Apesar de tudo, a companhia não só foca em filmes. Euphoria, série da HBO, estrelada por Zendaya, e The Confessions Tape, da Netflix, são exemplos de programas aclamados pela crítica e produzidos pelo estúdio. No Hulu, a empresa é responsável pela série Ramy. O protagonista da produção ganhou o 72º Globo de Ouro em 2020 como melhor ator.

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O novo gigante independente da indústria de filmes e séries não tem planos para parar. Tanto Euphoria e Ramy foram renovadas para a segunda temporada. No cinema, o A24 já tem encaminhado vinte filmes - ainda sem datas de lançamento por causa da pandemia. The Green Knight, com Dev Patel, é a aposta dentro do gênero de fantasia medieval.

A próxima grande estreia de terror da companhia é False Positive. O filme está cotado para ser um conto moderno do clássico O Bebê Rosemary (1968). A proposta é ousada, mas esperada, já que vem de uma produtora que vem colocando a mão em projetos que renovam e dão uma nova visão para o terror do cinema moderno.


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