Conheça o Trava Bizness: único selo musical focado em transsexuais do Brasil

Idealizado pela artista Malka, projeto busca oferecer produção e finalização de qualidade para as pessoas trans

Nicolle Cabral Publicado em 29/03/2019, às 17h30

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Integrantes do selo Trava Bizness (Foto: Nu Abe)

"É uma coisa que sempre existiu, mulheres trans, homens trans e pessoas não binárias capazes de fazer arte em alto nível. A questão é que todo o preconceito e precarização levaram a invisibilidade desses artistas que existem há muito tempo", diz Malka, artista e idealizadora da Trava Bizness, a primeira gravadora focada em transsexuais do mundo.

A existência da Trava Bizness se junta a crescente necessidade dos movimentos LGBTQ+ de tomar para si espaços dentro da música, de oficializar o rolê das manas e criar meios seguros para que a arte exista. Afinal, "ninguém melhor que uma travesti para dar um show", diz Malka.

Em todo o Brasil e, principalmente em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, alguns exemplos têm conquistado espaço. É o caso do Helipa LGBT+, realizado na acontece na Zona Leste da cidade de São Paulo. O objetivo ali é democratizar a participação de toda a comunidade. Atualmente, o movimento é um espaço de expressão da música, da dança e da liberdade do corpo.

Outro encontro marcante dentro dessa cena é a BATEKOO, que começou despretensiosamente em Salvador, e hoje incorpora o manifesto do movimento negro representado por ritmos como o rap, funk carioca, trap e R&B.

Dentro deste contexto surgiu, em 2018, a Trava Bizness. O selo oferece produção e finalização musical de qualidade para as travestis, homens trans e pessoas não binárias. "Havia uma precarização do nosso trabalho. A ideia surgiu para que a nossa comunidade pudesse se apropriar do poder da arte e que ela fosse executada a altura por nós mesmos", explica Malka.

"Parece que agora, finalmente, as pessoas cisgênero, entenderam que existe um mundo fora do mundo delas, que as nossas questões também são emocionais, e cabem dentro da música popular", reflete a artista. "Essa abertura é, na verdade, porque as pessoas resolveram olhar para o lado e ver que dentro da mesma comunidade delas, existem outras vivências e outros olhares que podem ser colocados em pauta." completa.

Em 2018, Malka divulgou o seu primeiro single "Pimenta" que levanta discussões sobre a transfobia, mas se articula para deixar uma mensagem positiva e elevar a autoestima da luta e da resistência das transsexuais.

A verdade é que música boa não tem gênero e a Trava Bizness se apresenta como um projeto que está na linha de frente para garantir que a voz das transsexuais seja propagada dentro do mercado musical. "É muito complexo. Muitas das meninas que fazem arte hoje, ainda estão em situação de prostituição, porque não existe emprego para nós. Então a gente tem muito apoio dentro da comunidade para trazer mais oportunidade e mais pessoas."

O selo, além de atuar como motor dentro desse mercado, busca colocar, cada vez mais, a história das trans, o apoio da comunidade, e a arte que elas produzem em evidência. "A gente vê a trajetória das travestis, mesmo em luta, sendo retratada com muita dor pelos lugares. E aí parece que só tem dor. Independente da transfobia, a gente tem uma comunidade que é muito feliz. A gente também ama, vive e tem força." enfatiza Malka.

 "A música me deu abertura para falar e gritar"

A Rolling Stone Brasil também entrevistou: Alice Guel, rapper do interior de São Paulo, que pluraliza sua luta e afeto por meio do rap, e integra o casting do Trava Bizness.

"Eu descobri que a música fazia parte da minha vida desde pequena. Eu lembro da minha mãe ouvindo a Rádio 105 FM, no espaço rap, e aquilo mexia comigo de alguma forma. Conforme eu fui crescendo, fui construindo essas possibilidades musicais, entendendo o meu corpo artístico e o que eu posso fazer com ele", conta Alice.

"Eu fiz muitas coisas até eu descobrir que eu precisava gritar. E isso foi logo depois que eu me assumi travesti socialmente. Eu tinha uns 20 anos, e quando isso aconteceu, eu descobri todo o embate e a dificuldade que era do meu corpo falar. Mas aí eu entendi que a música poderia me dar a abertura para falar e gritar."

Alice Guel, no final de 2017, lançou o seu primeiro projeto solo Alice No País Que Mais Mata Travestis no anseio de bater de frente ao fazer sua arte em um país que lidera o ranking de assasinatos de transsexuais no mundo. No EP, a música que mais marca a sua trajetória é "Deus É Travesti".

"Travesti nossa que estais no céu / Santificado seja o nosso nome / Alice, Cecília, Eloá, Érika, Olga / Amara, Ela, Ametista, Alicia / Seja feita a vontade das vadias / Assim na Terra como em qualquer outra esquina / A woman"

A rapper conta sobre como foi o processo de criação desse single: "Eu sempre frequentei igreja católica, depois fui para igreja evangélica, então eu sempre tive essa proximidade com a religiosidade. Mas depois eu comecei a realmente estudar outras possibilidades de religião, até porque elas estavam lá expostas e dispostas para mim, mas eu não sentia que o meu corpo era contemplado e isso me incomodava desde quando eu era criança."

"Quando eu comecei, isso foi uma das primeiras pautas que eu quis escrever, porque ser travesti é babado, sabe? Eu cheguei a ser expulsa de casa, tive alguns desentendimentos com familiares. Aí eu fiquei me questionando sobre esse Deus onipresente, onisciente e onipotente, se ele existe. E se existe, porque deixou isso acontecer comigo?", relembra a artista.

Após se mudar para São Paulo, se envolver com a música e conhecer as manas, Alice diz que entendeu que tudo aquilo que as pessoas diziam para ela não chegar perto - a rua, a periferia, as travestis, LGBTs e mulheres, era onde que ela encontrava a sua religião e se sentia regada em espiritualidade.

"As manas pretas travestis que me salvaram e me ajudaram todas as vezes em que eu precisei de suporte psicológico, social, familiar, afetivo, financeiro. Todas as ajudas vieram de pessoas que todo mundo um dia me disse que eu não poderia estar junto."

"Quando eu escrevi "Deus é Travesti" foi meio que um grito: 'eu escolhi acreditar que a força que me move, que me cria, não é um boy cis branco. A força que me move e que me cria é uma mulher preta, travesti, de peito e pau.'", conta Alice. "As mulheres podem sim se infiltrar na religião, e em todos os lugares que elas quiserem, as mulheres trans, as mulheres cis, e eu decidi que se existe alguma pessoa que me guarda são as negras "transvestigeneras" da periferia porque elas que me ajudaram."

União e respeito

A relação entre a Alice e a Malka começou muito antes do projeto da Trava nascer e ambas as artistas não imaginaram que o projeto fosse vingar tão fortemente. A produtora é uma iniciativa que marca a união e o respeito dentro desse movimento no Brasil. Hoje, as travestis, LGBTs, mulheres pretas e da periferia tomam posse do seu espaço na arte e levam as suas demandas por meio da música em um cenário majoritariamente dominado por homens brancos.

Além disso, o selo ajuda na propagação desses conteúdos musicais no cenário independente. A Alice conta sobre como foi lançar o seu EP, antes da Trava, e na era do streaming:

"Eu lembro que para subir as minhas músicas nas plataformas digitais foi um corre sinistro. Porque diziam que a minha música era agressiva, que era um afronte religioso. Muita gente chegou a dizer que o que eu fazia não era música, não era rap, não era som, que na verdade eu queria criar atritos."

"Muitas portas se fecharam, muitas pessoas ainda torcem o nariz quando eu canto as minhas músicas em alguns roles. As pessoas ainda não estão preparadas para ver travesti detendo o poder da fala, do conhecimento e da música.", revela. Alice completa: "Mas eu realmente entendi que eu sou o tipo de artista que nasce para criar atrito. Porque se não há atrito, não há discussão para que haja um espaço de fala para que a gente possa se entender, criar pensamentos, pluralidade de vida musical e vivência sonora."

No sábado, 30, a partir das 22h, o Z Largo da Batata, em Pinheiros, abre as portas para receber o projeto Movimento Diversa e apresentação da Trava com as artistas que integram o selo: Marina Matheus, Albert Magno, Natt Maat e Rosa Luz, Malka e Alice Guel.