Conheça os Peaky Blinders da vida real - mais violentos, e muito mais azarados do que mostrados na série

A gangue existiu na virada do século XIX, mas não tem muito a ver com o que você viu na TV

Yolanda Reis | @ysreis Publicado em 18/08/2020, às 07h00

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Peaky Blinders da vida real (Foto: West Midlands Police / Wikicommons CC2)

Birmingham, Inglaterra, 1919. Poucos meses depois do final da Primeira Guerra Mundial. A cidade se afoga em corrupção e pobreza. Mas é um momento ótimo para a família Shelby. Os gangsters, líderes do grupo de apostas-e-crimes-gerais Peaky Blinders, dominam cada canto do local. Nem o conflito com as outras gangues e com a polícia os impedem de ramificar e florescer. Essa é a história de Peaky Blinders, série criada por Steven Knight para BBC - e disponível na Netflix.

A história é baseada numa gangue que realmente viveu em Birmingham e atendia por Peaky Blinders. Mas… O quão verdadeiro todo o resto é? Para decepção de muitos, “quase nada” é a resposta. Knight usou pouco mais que o imaginativo para criar os Shelby. Os bandidos da vida real não eram uma baita organização criminosa, nem controlaram toda a Inglaterra, ou eram milionários. Suas atividades transgressoras, de fato, estavam mais para um Laranja Mecânicado que Os Intocáveis- ultraviolência horrorshow, mas ainda sem disciplina.

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Knight baseou a série Peaky Blinders num sonho de menino. Em entrevista para o History Extra, explicou que toda a ideia de Thomas Shelby e companhia nasceu numa história que ouviu do pai quando era criança:

“O pai dele [avô de Knight] deu um recado para ele e disse: ‘Vai e entrega isso para seus tios’. Meu pai bateu na porta e viu uma mesa com oito homens vestidos de maneira imaculada, usando boina e com armas no bolso. A mesa estava coberta de dinheiro. Só aquela imagem - fumaça, bebida e os homens bem vestidos na favela de Birmingham - pensei, ‘essa é a mitologia, essa é a história, e essa é a primeira imagem que preciso trabalhar.’”

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Os Blinders Originais

Esses homens eram, provavelmente, os Peaky Blinders originais. Que de série de TV não tinham muito: a começar pela época. A gangue, ao contrário do que faz entender a produção, não começou depois que os soldados voltaram da Primeira Guerra e foram para Inglaterra: foi o contrário. Como contou o historiador Carl Chinn, autor de The Real Peaky Blinders, ao Birmingham Mail, a influência dos Peaky Blinders caiu lá por 1910, início do conflito mundial, e começou bem antes, durante os anos 1890. 

Também é bem diferente a origem do apelido. Na produção, aprendemos ganharam o nome (“peaky”  = “afiado” e "blinders" = “que deixa cego”) por costurar navalhas nos vuelos e, durante as brigas, usá-las para cortar a testa do inimigo e deixá-los cegos pelo sangue escorrendo. Mas isso passa bastante longe do que realmente acontecia. É verdade que as boinas eram marca registrada dos Peaky Blinders, mãs não usavam lâminas: a primeira fábrica da Gillette na Grã-Bretanha só abriu em 1908, e os itens eram muito caros. 

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É provável, então, que “peaky” tenha vindo somente porque os gangsters usavam boinas bem distintivas, com os vuelos bem angulados, parecendo afiados. Já “blinder” é uma gíria, usada até hoje, para definir alguém muito bem vestido, arrumado e respeitoso. Outra teoria, menos aceita, sugerem que os bandidos afundavam as boinas das vítimas no rosto para elas não poderem ver o atacante.

Cabelin' na régua

Os Peaky Blinders da vida real eram formados, majoritariamente, por homens da classe baixa de Birmingham. A maioria deles morava em bairros violentos, e eram bem jovens - dos 12 aos 30 anos, por aí. Trabalhavam durante o dia no porto ou na cidade, mas eram extremamentes distintos como gangue: sempre estavam vestidos de maneira impecável.

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Em The Gangs of Birmingham, Philip Gooderson compartilhou a visão de Arthur Mathison de um típico Peaky Blinder: “Tinha orgulho da aparência e vestia-se com habilidade. Usava calças boca de sino, botas com ponteiras de metal, um cachecol colorido e um chapeu pontudo com uma aba alongada.” O cabelo era “curto por toda a cabeça, exceto por uma parte na frente que era mais comprida e penteada na testa.”

Crimes pesados - mas não tão inteligentes

A alta costura dos blinders, embora invejável, tinha seu preço: eram facilmente reconhecidos. Todos os cidadãos sabiam quando viam o grupo… Assim como as gangues rivais e a polícia. Por isso, um dos hábitos mais frequentes dos Peaky Blinders era a porradaria com todo mundo, como mostra um trecho de uma carta anônima enviada ao Birmingham Daily Mail em julho de 1898: “Não importa em que parte da cidade você ande, gangues de ‘ peaky blinders ’ são vistas, e constantemente não pensam duas vezes para insultarem quem passa, seja homem, mulher ou criança.”

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A carta indignada chegou poucos dias depois de uma das brigas mais memoráveis dosPeaky Blinders, a qual resultou no assassinato do policial George Snipe, como revelou Andrew Davies para o History Extra. O agente encontrou um grupo de blinders “que beberam o dia todo e brigaram a tarde toda.” O gangster William Colerain, de 23 anos, xingou-o, e ele quis prendê-lo por desacato. Os outros cinco ou seis colegas, porém, não concordaram com isso, e foram para cima. George Williams, um dos briguentos, jogou um tijolo na cabeça do policial - foi tão forte que o crânio partiu-se em dois, causando a morte algumas horas depois. O criminoso, com 19 anos, foi preso e condenado à prisão perpétua - para alegria dos jornais.

Os Peaky Blinders, porém, eram conhecidos bem antes disso. A primeira “aparição” notória na imprensa foi em março de 1980. Comandados pelo gangster Thomas Mucklow, um grupo de blinders atacou o jovem George Eastwood enquanto ele comprava cerveja sem álcool. Bateram tanto nele que quebraram o crânio e ralaram o escalpo. A vítima ficou três semanas no hospital e passou por uma trepanação (cirurgia que fura o crânio). Daily Post, Birmingham News e London Daily News reportaram o assalto, e o grupo foi citado por nome.

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Na maior parte das vezes, porém, os crimes dos Peaky Blinders eram muito menos extraordinários. Eles gerenciavam algumas apostas, mas nada tão bem estruturado como mostra a série. Ninguém ali se preocupava em ser um gênio do crime. Entre as transgressões mais elaboradas estavam extorsão, grilagem de terra e fraude. Porém, o mais comum eram roubos e assaltos - inclusive batedores de carteiras aos montes, e muitas brigas de rua, também.

O Museu Policial West Midlands tem uma coleção de incríveis 6 mil mugshots da época dos Peaky Blinders - inclusive várias fichas de membros da gangue. Crimes como apostas ilegais ou extorsão não rendiam, de verdade, prisões. Essas iam para os arruaceiros da turma. Nos detalhamentos das prisões, os motivos são bem amenos: “invasão de domicílio”, “roubo de loja”, “roubo de bicileta” e até “falsos pretestos,” dizem as fichas de 1904 de Harry Fowler, Ernest Bayles, Stephen McHickie and Thomas Gilbert (fora de ordem). Nas fotos, é possível notar a roupa bem cortada e “uniforme”: coletes, sobretudos, boinas.

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O que os Peaky Blinders real não investiam em cérebro, compensavam em músculo. A gangue, uma de várias da época, era a junção dos mais perigosos e violentos jovens. Embora eles não usassem navalhas, não faziam falta: as ponteiras de ferro das botas, as quais usavam para pisar e chutar, compensavam. Também usavam cintos com fivelas pesadas, bengalas e barras de ferro e canivetes. Eram os soberanos da Inglaterra… Até o começo da Primeira Guerra.

Os rivais - e o fim

Quando a década de 1910 chegou, com ela vieram fortes inimigos: a gangue Birmingham Boys. Essa, sim, tem um “quê” dos Peaky Blinders que conhecemos na série. Eram comandadas por um homem jovem, bonito e extremamente inteligente, Billy Kimber. Descobrito por Chinn como “um homem com personalidade magnética e com uma consciência esmagadora da importância de uma aliança com Londres,” na série de TV ele é um inimigo contemporâneo a Thomas Shelby, protagonista - embora, na vida real, nunca bateram de frente.

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Mais bem estruturados, os Birmingham Boys dominaram a cidade e osPeaky Blinders durante os anos 1910 e 1920. Com ultraviolência, dominaram os rivais antigos, e os gangsters acabaram se descentralizando. Nos anos 1930, o bando de Sabini dominou a cidade, e os poucos blinders que restavam acabaram indo morar no campo, envelhecendo, e se desmontando. A atividade de gangue, então, perdeu a honra com o advento dos estudos e o crescimento do prestígio popular, e ninguém contava para os filhos ou netos que fez parte dos peaky blinders (que, depois do notório grupo, serviu como termo para designar todas as gangues de rua). As histórias se perderam no silêncio - e as poucas que restaram, como a do pai de Steven Knight, viram imaginação.