Coringa, V de Vingança e mais: 5 filmes que inspiraram protestos sociais, religiosos e políticos

Da mesma forma que o cinema é influenciado pelo cenário da sociedade, ele também pode influenciar os indivíduos a se manifestarem por causas e direitos

Julia Harumi Morita Publicado em 02/11/2019, às 11h00

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Manisfestantes do Chile e Ucrânia (Arte: Julia Harumi Morita)

No início de outubro, Coringa estreou nos cinemas e exibiu uma nova versão do Príncipe Palhaço do Crime. O diretor Todd Phillips trouxe um discurso político para o personagem, que incita a revolta dos cidadãos de Gotham contra a elite e o governo. E não demorou muito para Arthur Fleck influenciar as pessoas na vida real também.

Recentemente, manifestantes de diversas partes do mundo adotaram a imagem do Coringa como símbolo de protesto. Mas não é a primeira vez que um filme inspira pessoas a ocuparem as ruas em defesa de uma crença e um ideal.

Afinal, da mesma forma que as obras cinematográficas são influenciadas pelos cenários sociais, políticos e religiosos da sociedade, o cinema tem o poder de influenciar os indivíduos a refletirem sobre acontecimentos e tomarem atitudes em relação às causas em que acreditam.

Em 2019, o mundo viu protestos em diversos países se intensificarem e ganharem destaque internacional. Apesar de estarem em países diferentes e defendendo causas específicas, os manifestantes se assemelham em um ponto: o uso de personagens culturais como símbolos de luta.

Desse modo, relembramos 5 filmes com protagonistas que se transformaram em ícones de protesto ou inspiraram manifestações:

Dogma (1999)

Dogma, de Kevin Smith, teve uma ampla repercussão negativa dentro da comunidade católica, que promoveu protestos contra o conteúdo do filme. Com Matt Damon, Ben Affleck, Salma Hayek, Alan Rickman e Chris Rock no elenco, o longa narra a história de dois anjos caídos na busca de voltar ao paraíso. O filme produzido pela Miramax, na época pertencente à Disney, foi pressionado para não ser lançado e apenas conseguiu chegar aos cinemas após ter os direitos comprados pela Lionsgate

Os manifestantes consideraram a linguagem usada como ofensiva, as brincadeiras dos personagens sobre sexo e drogas, o retrato de Deus, da igreja, da virgem Maria e do suposto 13º apóstolo bíblico. Os protestos organizados junto com o grupo American Society foram realizados em frente ao Lincoln Center for the Performing Arts. Neles, os religiosos defenderam a tradição católica, os valores de família e propriedade. Curiosamente, durante as manifestações, Smith foi visto ao lado dos protestantes e apoiou as críticas ao próprio filme. 


V de Vingança (2005)

A famosa máscara utilizada por V é uma referência à figura histórica Guy Fawkes, que participou da tentativa de bombardeio do parlamento inglês e do Rei James I. O objetivo do ataque era parar as perseguições do governo aos romanos católicos. Nos anos 1980, o acontecimento histórico foi a principal referência para a criação da história em quadrinhos V de Vingança, base para o filme de mesmo nome, dirigido por James McTeigue e estrelado por Natalie Portman

O longa foi a grande inspiração para o surgimento do grupo ativista de hackers chamado Anonymous, em 2008. O movimento virtual incitou os cidadãos a se voltarem contra o governo britânico e ir às ruas com os rostos cobertos para não serem descobertos pela oposição. Foi assim que a máscara de Guy Fawkes se tornou um símbolo pró-democracia e é até hoje usada na manifestação pelo mundo e na anual Million March Mask, em Londres.


Winter on Fire: Ukraine's Fight for Freedom (2015)



Winter on Fire: Ukraine's Fight for Freedom
faz um retrato do Euromaidan, um protesto contra o governo pró-Rússia que tomou a capital Kiev por três meses, em 2013. Na época, o presidente Viktor Yanukovych rejeitou assinar um acordo com a União Europeia e estreitar os laços com a Rússia. Os manifestantes responderam atos pela cidade, criação de gangues e de símbolos próprios, como a música “Glory to Ukraine”.

Agora vamos para Hong Kong, 2019. A chefe executiva, Carrie Lam, apresenta um projeto de lei para flexibilizar a extradição de presos para a China Continental e que, na prática, abre espaço para a detenção de opositores do governo. Inspirado no documentário da Netflix, os cidadãos foram protestar para pedir a demissão de Lam, se dividiram em grupos radicais, passaram a exibir Winter on Fire: Ukraine's Fight for Freedom pelas ruas com projetores e até criaram um hino, “Glory to Hong Kong”.


Padmaavat (2018)

Dirigido por Sanjay Leela Bhansali, Padmaavat conta a história da rainha Rani Padmavati, que faz de tudo para proteger a honra da família, ameaçada pelo sultão muçulmano Alauddin Khilji. Quando o filme estava prestes a estrear, surgiram rumores de que cenas com insinuações sexuais estavam presentes na obra. Isso foi o bastante para motivar protestos dos conservadores radicais, os quais, alegavam ser um desrespeito à religião hindu e pediam para a produção ser banida.

O longa de Bollywood estava programado para ser lançado em novembro de 2017, mas foi adiado devido ao coordenador de imprensa do partido político BJP, Surajpal, que ofereceu US$ 1,5 milhão para matarem o diretor e a protagonista do filme, Deepika Padukone. Após a estreia, protestantes afirmaram que os fatos históricos foram distorcidos e como resposta à exibição do filme queimaram imagens de Bhansali, atearam fogo em ônibus e vandalizaram cinemas de diversas regiões.


Coringa (2019)

O filme estrelado por Joaquin Phoenix causou diversos debates antes mesmo da estreia. As redes de cinemas norte-americanas advertiram o público sobre o conteúdo do filme e deixaram clara a abordagem de temas impróprios para menores de idade. Já autoridades, ficaram em estado de alerta para possíveis ataques ou atos suspeitos dentro dos cinema, devido ao tiroteio na sessão de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, em 2012.

Após a estreia, Coringa ganhou uma nova dimensão de repercussão e causou um efeito semelhante ao do personagem na narrativa do longa. O discurso político do Palhaço Príncipe do Crime inspirou manifestantes em protestos pró-democracia, em Hong Kong; contra corrupção, no Líbano; e contra a desigualdade social, em Santiago.