Coronavírus, humor e audiovisual: como a comédia nos ajuda a lidar com o presente?

Conversamos com Fábio Porchat e Bruno Mazzeo sobre as produções humorísticas neste período e as possibilidades para o futuro

Camilla Millan Publicado em 31/07/2020, às 07h00

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Montagem de Bruno Mazzeo (Divulgação) e Fábio Porchat (Reprodução/YouTube)

A quarentena mudou a dinâmica da nossa vida - e muitas vezes essas transformações geram situações cômicas. Durante esse período, você pode ter tentado fazer uma receita que deu muito errado, viu alguém passar vergonha em uma videochamada (ou você mesmo passou vergonha) ou até foi em uma festa online e odiou.

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A pandemia de coronavírus transformou o “ficar em casa” em uma nova possibilidade de passar (muito) constrangimento online. No entanto, o momento também converteu diversos acontecimentos rotineiros em conteúdo audiovisual.

Devido à Covid-19, as produções de novelas, filmes e programas foram paralisadas. Na televisão, o conteúdo é majoritariamente jornalístico ou reprises de produções já transmitidas. Apesar disso, algumas pessoas conseguem fazer com que, mesmo por alguns minutos, consigamos ver as coisas de outra maneira: são os humoristas.

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Eles sempre produziram conteúdo atual, seja na televisão, YouTube ou redes sociais. No entanto, a capacidade de fazer humor com a situação excepcional que estamos vivendo não é para qualquer um. 

Seja piada sobre home office, isolamento social, festa online ou outras novas dinâmicas que estão surgindo durante este período, a comédia possibilita ver a situação a partir de uma nova perspectiva: a do riso. 

Para refletir mais sobre a função do cômico nesta pandemia, conversamos com o humorista Fabio Porchat, sócio do Porta dos Fundos, e Bruno Mazzeo, humorista, roteirista e protagonista da série Diário de um Confinado.

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Riso e Quarentena: Combinam, e muito!

O canal Porta dos Fundos, no YouTube, lança vídeos cômicos sobre acontecimentos atuais há muito tempo - e com a pandemia não seria diferente. Segundo Fábio Porchat, para a produção dos vídeos neste momento, há uma preocupação principal:

“Temos pensado muito nas possibilidades em termos de forma. É call, zoom, facetime, ligação(...) É muito em cima dos métodos de ‘fazeção’ nessa pandemia que estamos nos inspirando. E claro, cada um se inspira muito nas próprias vivências”, comentou o humorista. 

Durante a quarentena, o Porta dos Fundos lançou a série de vídeos “Trabalhando em Casa”, que mostra funcionários de uma empresa tentando se reunir remotamente - o que acaba se tornando uma zona. Porchat comentou sobre a ideia da produção:

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“Foi uma recepção muito boa e imediata. Quando a gente lançou, logo no iniciozinho [da quarentena], as pessoas estavam ávidas por poder rir do que estava acontecendo. Ainda era novidade. No fim das contas, agora a gente já está um pouco mais acostumado, mas lá atrás, todos estavam sem saber como reagir”, disse o astro.

Segundo Porchat, a ideia surgiu da sala de criação do Porta dos Fundos: “A gente disse, ‘cara, é isso’, porque faz total sentido falar sobre esse momento dessa forma. Falar de home office, que era uma novidade para todo mundo. Geralmente, os conteúdos de pandemia estão sendo muito bem recepcionados pelo público”.

Na série de vídeos, o humorista interpreta um chefe que tenta organizar as coisas durante a pandemia - e na vida real não é diferente: "Me identifico com ele, que tenta fazer acontecer, botar uma ordem meio caótica nessa confusão. No fim das contas, a gente precisa continuar. Estou escrevendo para o Porta, trabalhando para um filme, uma série, o especial de Natal. Não dá para parar de trabalhar. Continuo gravando o Papo de Segunda ao vivo do estúdio, o Que História É Essa Porchat? lá no estúdio também…"

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No dia 4 de julho, uma produção nascida na pandemia estreou: Diário de um Confinado. A série multiplataforma foi escrita e estrelada por Bruno Mazzeo e teve a direção artística de Joana Jabace, esposa do astro.

Todas as cenas hilárias foram pensadas, gravadas e editadas dentro da casa de Mazzeo e Jabace - e o astro nos explicou sobre a produção: “Quisemos realmente fazer uma crônica, um registro histórico. É um formato que entrou para a história da vida de todo mundo. Todos vão dizer que já passaram por uma pandemia, e nós fizemos uma crônica sobre esse momento”.

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Segundo Mazzeo, a recepção da série foi muito bem-sucedida: “Recebi muitas mensagens de pessoas agradecendo, falando que estavam em um momento difícil com parente doente, mãe doente.. E não foram poucas, foram muitas. Mensagens muito bonitas que eu fico muito feliz, porque é uma prova de estar comunicando e tocando algumas pessoas”.

E para que serve esse humor?

No meio da pandemia, a arte se faz presente como uma forma de repensar acontecimentos, de escape da tragédia e também como uma forma de companhia. A comunicação com as pessoas é muito importante para as produções atuais, e a comédia faz esse papel ao transformar o cotidiano caótico a partir de novas perspectivas.

“É uma função do humor se fazer presente -  e que bom que agora não está sendo diferente”, refletiu Bruno Mazzeo. Segundo o artista, o gênero tem uma função plural independente da época.

“Lá no futuro, a gente vai ver [Diário de um Confinado] e dizer ‘porra, lembra dessa época?’. É como vemos os chargistas, que até hoje, quando você vai ler um livro sobre a política brasileira da década de 1930, a época está lá, representada na charge de fulano de tal. É como o humor via aquela sociedade - e fazendo isso, dando outra perspectiva, botando o dedo na ferida aqui e ali, alertando e também, claro, entretendo”, disse Mazzeo.

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Porchat também refletiu sobre a função da comédia neste momento: “No fim das contas, o humor serve para as pessoas se identificarem com aquela situação e rirem dos acontecimentos na própria vida. Ele serve como uma lanterna que aponta para o caminho para lembrarmos da situação, mas também aponta para o lado oposto, para esquecermos um pouco”. 

Além disso, o papel de crítica também se faz presente nas produções cômicas atuais, como disse Mazzeo: “Em países de turbulência política, como é o nosso eternamente, essa função fica exacerbada. O público se sente representado no humorista quando faz uma crítica… Ele se sente vingado. Isso sempre foi uma marca do humor brasileiro”.

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Produções na pandemia: oferta e demanda do humor 

Vivendo uma pandemia ou não, as pessoas buscam por conteúdo que dialoga com a realidade - por mais caótica que ela seja. Apesar da paralisação em gravações e filmagens, as produções recentes não se desprenderam do quesito “contemporâneo”.

Segundo Porchat, especificamente sobre o Porta dos Fundos, as pessoas estão buscando conteúdo sobre pandemia na comédia: “Temos dado bastante coisa de quarentena, mas sempre quando lançamos vídeos sobre outros temas eles são menos acessados. As pessoas querem falar sobre os acontecimentos. É algo novo tão surreal que as pessoas querem viver essa loucura juntos’, disse o humorista. 

No entanto, segundo o sócio do Porta dos Fundos, a maior busca por produções acontece independente do gênero: “Teve uma demanda maior por conteúdo, ponto. As pessoas estão isoladas e consumindo coisas. Lógico, o brasileiro adora rir e conteúdos de humor, então houve um aumento geral”.

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De acordo com o humorista, houve diminuição do consumo no YouTube, onde visualizações caíram: “As pessoas estão consumindo outros tipos de streaming. Estão vendo menos o celular e mais a Smart TV, porque elas assistiam no caminho do trabalho e agora, como estão em casa, não precisam mais do celular. Se der uma canseira, a pessoa vai lá dar uma volta na cozinha”, brincou Porchat.

Apesar da diminuição na plataforma, o artista explicou que não foi o caso do Porta dos Fundos: “Ele teve um aumento significativo. A gente aumentou em mais de 10% de visualizações, de inscritos... Tudo isso”.

Para Bruno Mazzeo, o confinamento leva a um maior consumo de produções audiovisuais, e o conteúdo contemporâneo, como narrativas de comédia, ganha espaço: “Quando vem uma coisa atual que fala do momento, a pessoa fica mais sedenta por aquilo - e não só porque estamos com pouquíssimas ofertas devido à interrupção”.

Para o roteirista, sempre houve uma grande oferta de produção cômica no Brasil e, durante a pandemia, muitos humoristas saíram na frente na criação de conteúdo: “Tem aquela coisa...Eu e o Marcelo [Adnet], por exemplo, criamos o nosso conteúdo, então não temos uma dependência que às vezes um ator tem de precisar de um texto, de alguém que crie - por isso acabamos fazendo mais rápido”. 

Para o astro, o principal conteúdo lançado durante a pandemia é de comédia: “A medida que o conteúdo vai ficando legal, o outro se anima em fazer e a coisa vai crescendo em um bom sentido. Pensando aqui, as coisas feitas agora são realmente de humor. Quase todas, por enquanto”. 

Como fica depois da pandemia?

Uma discussão crescente no audiovisual é o tempo narrativo das produções. As próximas séries, filmes e programas irão retratar um mundo no qual nunca existiu a doença, um planeta ainda doente ou um ambiente pós-covid?

Como vai ser a filmagem em estúdio? Quais serão os cuidados? Haverá impedimentos para uma gravação de um mundo fictício pós-coronavírus? As perguntas são muitas, mas além de se preocupar com a forma, é preciso questionar: o que as pessoas vão querer assistir?

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Para Mazzeo, são muitos fatores a serem considerados. “Cada caso vai ser um caso. Faria um filme no fim de 2020. Com a pandemia, foi para outro ano, mas a gente parou para olhar o roteiro e viu que ele não faz mais sentido no novo mundo. Uma solução se a gente quisesse manter, era colocar uma data anterior à pandemia. Tipo, ‘isso aconteceu antes’ - já tem gente fazendo isso. Ou você precisa adaptar, botar para um novo mundo ainda desconhecido. Sobre o 'durante', também é uma possibilidade, mas talvez a pessoa não queria mais ver sobre o cara confinado".

“Não dá para agir como se nada fosse. Vou voltar a filmar uma série minha em 2021. Ela fala de cotidiano também. Estou deixando mais para perto para ver o tamanho das mudanças necessárias. Não tem jeito. Se no mundo estiverem todos de máscara, vou retratar isso. Se não existir mais certas aglomerações, não vou poder fazer porque a ideia é comunicar com o mundo daquele momento. Mas é isso, eu joguei fora um roteiro no qual eu estava há três anos trabalhando porque é outra realidade”, refletiu.

Segundo Mazzeo, essas situações trazem uma transformação: “Sempre quando vem um momento mais difícil, uma pandemia, ditadura, guerra… Qualquer coisa que vira uma exceção, a arte se reinventa. No mundo inteiro, não estou falando só do Brasil. São períodos férteis porque é como se o artista precisasse se reinventar para poder continuar ali, não ficar para trás. Eu tenho essa sensação e acho que agora vai acontecer um pouco isso.”

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Para Porchat, as mudanças já estão acontecendo: "Os criadores de conteúdo estão precisando se reinventar, trabalhando com o pouco material que tinham na mão. No fim das contas, essa pandemia deu um empurrão que a internet estava precisando para ganhar a importância que ela já tinha, mas ainda não era vista talvez muito por conta dos investidores".

De acordo com o humorista, as mudanças no conteúdo dependerão do surgimento da cura: “Se descobrirem a vacina, isso vai passar batido. Todos estarão curados e vai ser só um acontecimento possível de ser citado. Porém, enquanto ela não for descoberta e a gente precisar continuar saindo de máscara e passando álcool gel, o corona estará muito instaurado na nossa sociedade".

O humorista e sócio do Porta dos Fundos também se preocupa com o futuro da arte nacional: “Todos nós, trabalhadores da cultura, ficamos com o coração apertado com as poucas possibilidades futuras para o teatro, cinema... É muito duro pensar que a cultura no Brasil já tinha sofrido um baque muito grande com esse governo, porque o Jair Bolsonaro, não governa, ele se vinga. Ele quer se vingar da ciência, da educação e dos artistas também”.

“É um pensamento completamente torto de artistas de esquerda que mamam nas tetas do governo quando, na verdade, o mundo cultural é muito maior (...) Estamos falando de artistas, técnicos e pessoas que trabalham para dar retorno para o governo e para o Brasil. As leis de incentivo, vistas de forma totalmente equivocada, são necessárias, acontecem no mundo todo -  inclusive nos Estados Unidos - e precisam continuar acontecendo para desenvolvermos a cultura no nosso país", concluiu Porchat.

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