Courtney Love: “As pessoas têm que superar esse negócio da nostalgia em relação a mim”

Em entrevista, cantora fala da atual turnê, da biografia prevista para dezembro e dos planos para um novo disco

STEVE BALTIN Publicado em 24/06/2013, às 17h54 - Atualizado às 19h36

Courtney Love
AP

Courtney Love deu início à primeira turnê desde 2010 na última semana, na Filadélfia. Chamada I’m Still Alive (“Eu ainda estou viva”, em inglês), a maratona é o início do que deve ser um grande ano para a vocalista do Hole, que pretende lançar um disco e uma biografia (escrita em parceria com Anthony Bozza, colaborador da Rolling Stone) em dezembro.

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No primeiro dia da turnê, que ela promete ser repleta de raridades e covers, a sempre divertida e franca cantora falou à Rolling Stone sobre uma variedade de assuntos, dos novos trabalhos à característica que ela acredita unir Hole, Smashing Pumpkins, Nine Inch Nails e Red Hot Chili Peppers. Courtney também deixou claro que qualquer reunião do line-up clássico do Hole está fora dos planos.

Você nos mandou um single no ano passado, mas não ouvimos nada de novo desde então. O que a levou a começar uma turnê agora?

Era para aquilo ter saído, não saiu, e não vai sair até o Natal, que é quando será lançada a biografia. Então, estou simplesmente chamando isso de turnê I’m Still Alive. Espero que a gente faça umas covers bem legais, com raridades que não costumamos tocar, etc. Tocaremos alguns hits. Vai ser em lugares pequenos, então se você é realmente fã e gosta do Hole e das músicas que eu escrevi, então você vai escutar canções que você não ouviu muito [ao vivo].

Eu pensei que o single já teria saído nesse momento. Mas não vai sair até que a [editora] HarperCollins lance o livro. Eu mandei para vocês “This Is War”, que é bonita. Na verdade, o nome é “Wedding Day”. E o lado B é “California”, e, se você vai chamar uma música de “California”, ela tem que ser boa para caralho, e é. E tem outras músicas que são excelentes, dentro das 12 que gravamos. São quatro músicas até agora, mas eu sou muito criteriosa, e preciso de um disco impecável a essa altura. Podemos fazê-lo bem rápido, provavelmente depois dessa turnê nós começaremos a gravar. Estou completamente focada em conseguir o contrato certo para o disco. Só houve quatro discos alternativos que foram bem esse ano – três deles, incluindo Queens of the Stone Age e Vampire Weekend, estão sob o mesmo guarda-chuva, e Fall Out Boy. Esses são bons vislumbres de esperança em um mundo cheio de rap, pop, que eu não entendo.

Que surpresas você está preparando para essa turnê?

Alguém falou de “Credit in the Straight World” [música do disco Live Through This, de 1994] – vou dar uma olhada. Há provavelmente quatro ou cinco boas músicas no [disco solo] America's Sweetheart que podemos tocar. Há músicas que eu praticamente nunca toco que podemos tocar. Vamos olhar para tudo que temos, mas para lugares pequenos e superfãs, e algumas pessoas que nunca me viram. Garotas que tinham 12 anos em 2010 agora têm 15, e podem ir me ver. Essa é a minha demografia – caras espertos que são hetero, um monte de gays, um monte de meninas descontentes e algumas mulheres do tipo “eu cresci com você”.

O melhor elogio que eu já recebi foi quando me mostraram uma banda só de homens e disseram “caramba, isso parece Hole” – o que quer dizer que essa pessoa entendeu que havia um elemento acústico e sônico na música que não tinha nada a ver com gênero. E fiquei tão impressionada com o fato de terem notado isso. A última entrevista que dei foi com um cara que disse: “Você fez parte de um movimento há 23 anos que acho importante, o grunge”. E eu: “Não, não fizemos parte. Éramos tão grunge quanto o Red Hot Chili Peppers”. Não tínhamos a permissão para ser grunge. Eu queria ser grunge porque era um movimento, mas ninguém me deixava entrar. Então, tão único quanto o Red Hot Chili Peppers foi na “ilha” deles, o Hole sempre esteve em sua pequena própria ilha. Eu diria o mesmo sobre Smashing Pumpkins e Nine Inch Nails naquela época.

Eu diria que o fio que une vocês três é a boa composição.

Obrigada, agradeço por isso, e é uma estética diferente entre os três. Trent [Reznor] se safou bem melhor do que eu e Billy [Corgan] quando o assunto é chamar a banda dele de Nine Inch Nails sem ninguém se importar com quem faz parte dela. Mas provavelmente é porque ele se manteve discreto. Ele nunca deixa ninguém mais na banda aparecer nas fotos [risos]. Alguém que tinha falado há pouco tempo com Corgan me entrevistou hoje, e ele disse uma daquelas frases dele, tipo “nostalgia é a morte”. Mas eu concordo com ele. Nessa turnê, como eu disse, é meio que um acidente. Era para convergir com o single que eu mandei há nove meses. Agora há mais três músicas que são tão boas quanto aquela, e tem uma música muito boa que Micko [Larkin] fez o riff, e eu tenho tocado com o Micko por oito anos, que é o mesmo tempo que toquei com Eric [Erlandson]. As pessoas têm que superar esse negócio da nostalgia comigo, porque não vai rolar. Se eu quisesse fazer uma daquelas turnês de reunião vendidas, você não acha que já me ofereceram um milhão de vezes? O mesmo tanto de vezes que me chamaram para reality shows – muitas vezes. E a resposta simplesmente vai continuar a mesma: N-Ã-O. Vamos tocar pérolas do catálogo, coisas com as quais as pessoas estão familiarizadas, boas covers, em lugares pequenos. Terminamos, voltamos, gravamos, termino o livro e saímos no ano novo.

Com quem você está trabalhando no livro?

Estou escrevendo parte eu mesma e parte em parceria com Anthony Bozza. Ontem trabalhei quatro horas nele, no dia anterior foram cinco horas. Eu finalmente tenho um mapa dos lugares que precisam ser cobertos. Para mim, é muito difícil ser linear. Estou lendo Só Garotos de novo porque sei que Patti Smith escreveu sozinha, e My Booky Wook, do Russell Brand, que eu acho que é um livro ótimo, em termos de ser apenas a voz do autor. E achei um livro antigo da Tallulah Bankhead no qual ela está simplesmente fabulosa. É uma combinação desses três livros. Vida [do Keith Richards] é muito longo, nem cheguei a terminar.