RoboCop de José Padilha dá ênfase na transformação de homem em máquina

Remake criado por diretor brasileiro estreia no Brasil nesta sexta-feira, 21, com Joel Kinnaman, Gary Oldman, Samuel L. Jackson e Michael Keaton no elenco

Pedro Antunes Publicado em 21/02/2014, às 10h37 - Atualizado às 11h42

RoboCop
Divulgação

Desde o princípio, seria difícil a tarefa do diretor brasileiro em criar um remake interessante para RoboCop – O Policial do Futuro (1987), um clássico da visão de um futuro pós-apocalíptico cruel e sanguinolento feito por um dos mestres da sátira disfarçada. Para não bater de frente com o incomparável original, Padilha seguiu por caminhos que Paul Verhoeven não trilhou, seja por limitações técnicas da época, seja por escolhas de outro direcionamento. O brasileiro faz a estreia nos grandes blockbusters com o melhor que tinha à disposição, com efeitos de primeira e uma nova forma de representar o Policial do Futuro.

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Não é por acaso que o novo filme, cuja estreia em território nacional acontece nesta sexta-feira, 21, tenha se saído bem nas críticas mundo afora - principalmente nos textos que procuraram dissociar o longa de 1987 deste recém-chegado aos cinemas. "Surpreendente" foi a palavra mais escritas nas resenhas e não deixa de ter sentido.

A surpresa deles pode ser considerada por nós, brasileiros, como aquele bom e velho "jeitinho". Ao contrário do que foi feito em outros remakes de Verhoeven, como o caso da tenebrosa versão de Vingador do Futuro lançada em 2012 e protagoniza por Colin Farrell, o RoboCop de Padilha escapa pela tangente e busca uma nova visão para o mesmo herói de lata. E escapa das armadilhas pré-montadas de recontar uma mesma história pela mesma visão, ou descaracterizar o clássico sem piedade.

Não é possível lutar contra pontos inevitáveis da trama, contudo, como a premissa básica: um policial de boa conduta transformado em um soldado robótico após quase perder a vida. Em todo o resto, há espaço para uma reinterpretação. Este foi o caminho de Padilha.

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Fica claro logo nos primeiros 30 minutos de RoboCop que dois filme de Tropa de Elite foram os responsáveis por levar o diretor tão longe. Aspectos do Capitão Nascimento, brilhantemente interpretado por Wagner Moura, transbordam neste Alex Murphy de 2014. O treinamento do Bope (Batalhão de Operações Especiais) é, afinal, uma desumanização de militares para o confronto sangrento contra o tráfico. "Aqui é caveira", como dizem eles, sai quase tão mecânico quanto "Vivo ou morto, você vem comigo", como gosta de falar RoboCop. Seria a escolha pela armadura preta uma referência descarada ao Bope? Ou apenas uma dissociação da imagem ícone do Policial do Futuro?

O novo filme de Padilha tem tantas camadas de interpretação quanto os antecessores citados acima. Tantas, aliás, que as polaridades acabam por anular umas as outras em certos momentos. Vemos a mecanização e banalização da violência, a mídia reacionária (centrada em um caricatural Samuel L. Jackson), a manipulação da fraca opinião pública, a força amoral das grandes corporações e seus departamentos de marketing, ganância política, corrupção policial, o médico (Gary Oldman) discutindo os limites éticos da própria função, diante de um Frankenstein robótico. Como em Tropa, Padilha pinta um cenário para confundir o espectador acostumado à dicotomia rasa. Perde-se o certo e o errado. E o que fica?

Tudo isso, contudo, era esperado. O grande trunfo do diretor brasileiro foi tirar o protagonismo de RoboCop e deixá-lo descaradamente em Alex Murphy, desta vez interpretado por Joel Kinnaman (da série The Killing ). O novo RoboCop não esconde o rosto atrás da viseira futurista a não ser quando entra no "modo de operação". Ele luta não apenas pelo cumprimento da lei, mas, sim, pelo próprio arbítrio. A batalha central, aqui, é entre homem e máquina em um mesmo corpo. Quem comanda quem?

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No futuro pouco apocalíptico de Padilha, os Estados Unidos já adotaram dróides e drones da Omnicorp, empresa liderada por Raymond Sellars (um descolado Michael Keaton), em operações de pacificação, como mostrado no início do filme, no Teerã. Mas a população do país ainda é reticente em aceitar que máquinas tenham o poder de tirar a vida de outro norte-americano. E aí surge a ideia de se colocar um homem dentro de um deles, um rosto familiar em um robô. Assim surge o RoboCop.

A versão 2014 deste clássico ganha também em ação - assim como na mobilidade do herói, que não sofre da pouca capacidade de movimentação de Peter Weller, dentro daquela armadura toda, em 1987. Os tiroteios alternam entre cenas genéricas de qualquer videogame e a adrenalina da câmera na mão, tremida e enérgica, uma marca de Padilha. E o que dizer do momento em que RoboCop é desmontado para Murphy ver o que sobrou do seu corpo humano? É de cair o queixo.

A escolha por manter o tema musical do personagem representa uma faca de dois gumes com a qual o diretor resolveu brincar e diz muito sobre o remake: ora homenageia a obra de Verhoeven, ora ironiza o exaltado nacionalismo norte-americano, cujo povo só pode ser salvo por um deles, dentro de uma máquina criada por eles.

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A família do policial, negligenciada no filme original, ganha importância vital para a trama. É o que mantém Murphy vivo dentro daquela casca robótica - e transforma o longa de Padilha. Com ela, ele encontrou o tal "jeitinho" de reconstruir um clássico sem perder a mão.