Crítica: Yoko Ono and Plastic Ono Band

Leia nossa crítica sobre a carreira de Yoko Ono na Plastic Ono Band, banda da qual participava ao lado de John Lennon

Rolling Stone EUA Publicado em 22/11/2016, às 13h21 - Atualizado às 13h29

Yoko Ono Um olhar da artista sobre John Lennon, o sucesso e a vida
Ap Photo

Qualquer um que toque música avant-garde está sujeito a receber certa quantidade de hostilidade e deboche no início. E se essa pessoa também acaba por ser Yoko Ono, que não apenas demonstrou ter o dom de fazer promoção exagerada de si mesma com “acontecimentos” enjoativos mas também levou o pobre John a extraviar-se e foi creditada por mais de uma pessoa com informação privilegiada por ter “separado os Beatles”, só se pode esperar que as farpas e zombarias cresçam proporcionalmente. Não apenas a maioria das pessoas não tem gosto para o gorjeio bizarro em que Yoko se especializa; elas provavelmente não gastariam tempo de seus dias com ela nem se ela se parecesse com Paula Prentiss e cantasse como Aretha.

Por outro lado, não muito do seu trabalho gravado inspira alguma simpatia. O que mais inspira é irritação, mesmo nos endurecidos fãs da música livre e barulho eletrônico. Two Virgins, Unfinished Music No. One e os nitidamente enfadonhos jingles sobre a paz no Wedding Album foram as ego-trips de dois ricos sem-tetos à deriva das revoluções musicais dos anos 60, como se Saul Bellow de repente tivesse descoberto os pedaços de William Burroughs e recrutado Lenore Kandel para ajudar a forjá-los no vazio.

Lixo amador, simplesmente. Essa coisa de eletrônica/colagem, como a parte do rádio e os grooves silenciosos, foi uma paródia de John Cage igualada por adolescentes precoces com gravadores para todos os lado, e os gritos foram explorados mais eficientemente por Abbey Lincoln em We Insist: Freedom Now Suite (1960), de Max Roach (idem para os suspiros pré-/pós-coito de Yoko) e Patty Waters em uma estranha gravação ESP-Disk de 1965 (uma interpretação clássica de “Black Is the Color of My True Love's Hair”, em que ela grita a palavra “black” em toda distenção possível por 15 minutos).

Não foi até o longo surto na parte de trás do LP ao vivo em Toronto que Yoko começou a mostrar alguns sinais de que ela estava aprendendo a controlar e direcionar seus espasmos vocais, e John finalmente evidenciava uma nascente compreensão da disciplina e feedback no estilo The Velvet Underground que seriam melhores para enfatizar os exageros dela. Aquele álbum começou a ser mais agradável aos ouvidos, até empolgante, e a versão de “Don't Worry Kyoko” na parte de trás do single de “Cold Turkey” foi ainda melhor.

Agora Yoko finalmente tem um álbum próprio lançado, e pressagia experimentos futuros dos Nurk Twins com proposta parecida. Em primeiro lugar, Yoko tem excelente apoio desta vez: uma faixa tem participação de um quarteto de Ornette Coleman, e o resto conta com John, Ringo e o baixista Klaus Voormann trabalhando em acompanhamentos que são por vezes tão desvairados quanto Yoko, mas ainda moderados. Sempre soa como algo bem pensado, cuidadosamente organizado, apropriado; e com a música de Yoko isso é algo que deve ser levado em consideração.

Outro grande adicional é que todas as músicas são relativamente curtas, fazem afirmações distintas, e raramente se deterioram naquele tipo de som alto, irritante, prolixo e sem sentido que caracterizava os primeiros trabalhos dela. De certa maneira, a faixa com Coleman é a mais fraca: Yoko está no seu riff “Ohh, John!”, e a banda de Ornette está tocando um tipo de improviso rítmico que raramente se encontram em seus respectivos auges. Era uma gravação de ensaio, de qualquer forma; o que seria realmente legal seria ouvir Yoko com novos loucos, como Gato Barbieri e Mike Mantler.

As outras faixas, no entanto, são algo diferente novamente. A guitarra de John é forte e furiosa, uma navalha enlouquecida cortando os ouvidos com algumas das distorções mais eloquentes ouvidas em muito tempo. Ele realmente está aprendendo essa linguagem agora, e suas notas altas ao cantar e ritmos guturais falam com a mesma voz autoritária que ele mostrava com os Beatles. E quando ele de repente diminui desses agitos em direção a uma guitarra em linha habilmente abstrata que parece ter saído de Chuck Berry (como em “Why”), você fica sem ar.

Existem também dois experimentos eletrônicos aqui: o Side One termina com uma marcante justaposição dos vocais e da guitarra de “Tomorrow Never Knows”, soando como um dos corais modais do álbum eletronicamente distorcido Music of Bulgaria; e “Paper Shoes” abre com ondas de barulho e estalos de ferrovia, e então se move em uma sequência em que a voz de Yoko, cortada pela máquina e derretida em si mesma, faz flashes em ecos estranhos em volta dos cavaletes.

Este vai melhorar com o tempo. Eles ainda não resolveram toda a estranheza, mas este é o primeiro álbum de John e Yoko que não é um insulto à inteligência ? na verdade, com seu jeito obscuro e mistificador, é quase tão bonito quanto o álbum de John. Dê uma chance, e ao menos um punhado de ouvidas antes de seu veredito final. Há algo acontecendo aqui.