A cultura hip-hop na pandemia: como as batalhas de rima se reinventaram em tempos de isolamento social [ENTREVISTA]

A Rolling Stone Brasil conversou com WinniT, Flow MC e Amanda More para entender as consequências da pandemia para as batalhas de rima e o cenário nacional do rap

Camilla Millan Publicado em 24/06/2021, às 17h01

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Loaded Lux e Murda Mook na batalha de rap Total Slaughter, realizada em 2014 (Foto: Craig Barritt/Getty Images for Electus Digital/WatchLOUD)

Durante a pandemia de Covid-19, o hip-hop precisou se adaptar - assim como renunciar diversos aspectos essenciais para os artistas. Quando se trata das batalhas de rima, eventos foram cancelados, pensados para o universo virtual ou até mesmo reimaginados no formato híbrido, com uma parte online e outra presencial.

Em meio aos avanços de casos de Covid-19 e às necessárias medidas de distanciamento social, o aspecto físico da cultura hip-hop sofreu alterações. As competições, ambientes essenciais de vínculo entre artistas, precisaram ser modificadas. 

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Diversos artistas questionam a efetividade das batalhas no virtual, mas o ambiente online também pode ser entendido como uma real possibilidade de universalização do acesso aos eventos, mesmo que não seja de forma plena. 

Se antes da pandemia a distância atrapalhava, no ambiente online perde-se a noção de longe ou perto: você pode participar no próprio quarto. Entretanto, se antes das medidas de isolamento eram necessários apenas MCs e um som, agora a internet pode ser um obstáculo para muitos. 

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Red Bull FrancaMente: o que mudou? 

As transformações nas batalhas de rap ocorreram nos mais diversos níveis. O Red Bull FrancaMente, por exemplo, precisou se adaptar - e este ano, o formato híbrido foi escolhido. A competição é derivada do Red Bull Batalla, maior evento de rap do mundo que acontece em países de língua hispânica, e para a segunda edição da versão brasileira, as inscrições aconteceram por meio do aplicativo oficial.

Nesta quinta, 24, ocorre a transmissão ao vivo da Seletiva Nacional do Red Bull FrancaMente. Apresentada por Kamau, a apuração será realizada por Clara Lima, Max B.O. e Slim, e transmitida na Twitch, no canal da Amazon BR, entre 17h e 19h50 (assista à transmissão neste link). Dos 32 MCs desta fase, 15 irão avançar à final, com data marcada para 18 de julho.

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De modo híbrido, a última parte da competição terá a presença dos MCs em batalhas presenciais sem público e com protocolos das autoridades de saúde, como uso de máscara e testagem. Toda a final também será transmitida online. 

Red Bull FrancaMente 2018 (Foto: Fabio Piva)

 


WinniT - vencedor do Red Bull FrancaMente 2018

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WinniT (Foto: Marcelo Cucatti)

O rapper WinniT foi vencedor do Red Bull FrancaMente em 2018, e considera a competição como “um dos pontos mais importantes” da trajetória dele enquanto MC: “Me deu a oportunidade de descobrir um horizonte completamente diferente do que eu imaginava ser o cenário de batalha de rima,” disse, em entrevista à Rolling Stone Brasil

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Segundo o artista, há diversas dificuldades no cenário pandêmico para os MCs, como não ter contato com o público, com a roda de rima, e a transmissão da arte para outras pessoas. WinniT, contudo, também vê aspectos positivos na adaptação da arte para o meio virtual: 

“Foi um facilitador para continuarmos esse movimento de rotação dentro da nossa cultura. Notei que houve uma crescente em eventos online, batalhas de aplicativos. Acho esse movimento muito importante pra não deixarmos jamais a nossa cultura morrer,” explicou.

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O universo virtual possibilitou para mais pessoas a participação nos eventos, conforme explica o MC. Mesmo assim, WinniT não acredita na substituição do ambiente presencial: “A batalha de rima é sobre conectar (...) Quem já conhecia as competições de rima da rua ficou muito chateado por conta dessa interrupção do nosso cronograma.”


Flow MC - Batalha do Santa Cruz 

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Flow MC (Foto: Arquivo Pessoal)

Se alguém sabe que não é possível substituir o presencial, este é Flow MC. Há mais de 20 anos mergulhado no mundo do rap, o artista lançou o 5º disco, Flowdástico, em 2021 - e acompanhou diversos momentos do hip-hop nacional. Ao lado de Marcello Gugu, Hadee e outros artistas, criou a famosa Batalha do Santa Cruz - evento icônico localizado em São Paulo, em frente à estação de metrô Santa Cruz, desde 2006. 

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A batalha tem uma grande importância para a cena nacional, frequentados pelos jovens  Emicida, Rashid, Projota e Drik Barbosa, por exemplo. Durante a pandemia, contudo, a reunião foi paralisada, conforme explicou Flow MC à Rolling Stone Brasil: “Resolvemos suspender assim que veio o primeiro lockdown, e como a coisa se agravou decidimos manter dessa maneira. O juiz da batalha é o publico, o que causa aglomerações, por isso é impossível fazer com segurança - e nos orgulhamos disso.”

O artista disse haver incertezas quanto ao retorno do evento, mesmo após a pandemia: “Não sabemos como vai ser a volta por conta do espaço usado pertencer ao metrô de São Paulo. Não sabemos se a administração da estação é a mesma. Todas as anteriores adoravam a batalha, mas entraremos em contato para saber como prosseguir quando a pandemia der trégua. Em tempos de Bolsonaro no poder e a constante marginalização da cultura e truculência, nunca se sabe o que pode acontecer.”

 
 
 
 
 
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A inegável importância da Batalha do Santa Cruz para a cena faz com que a suspensão tenha um grande impacto aos MCs. Sem edições virtuais, resta ao público buscar outras competições realizadas remotamemente - mas a falta de celular e internet também são obstáculos para a adaptação para o mundo virtual. 

Flow MC explicou: “Impacta principalmente o surgimento de novos rostos na cena, porque ali ao vivo é como se fosse um show para iniciantes. A internet ajuda bastante, mas hoje em dia esse lance de algorítimos é muito complicado para um artista novo se destacar, precisa pagar para divulgar. É osso para um moleque nos extremos da cidade, nas periferias, muitas vezes nem celular tem... Como se mostrar pro mundo?”

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Segundo o artista, o lado presencial é essencial para explorar diferentes eventos e ter destaque na cena hip-hop nacional: “A molecada de periferia que se sente isolada, lá se sente acolhida. Além de receber ideias de empoderamento. Na quebrada, infelizmente, você com a mente ociosa recebe vários convites para coisas ruins. A batalha salva vidas. E quem nunca teve contato com o rap, conhece [no presencial], produtores, beatmakers, outros MCs, aprende sobre técnicas de improviso e escrita,” disse Flow MC.


Amanda More - Batalha das Minas Londrina

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Amanda More (Foto: Henrique Antonelli)

A MC Amanda More fundou o coletivo Batalha das Minas em 2017 como uma forma de fortalecer as mulheres e a comunidade LGBTQIA+ no hip-hop. Durante a pandemia, o grupo realiza formatos online de batalhas, assim como produção de conteúdo sobre empoderamento feminino, cultura preta e hip-hop.

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Em entrevista à Rolling Stone Brasil, More explicou que o coletivo surgiu de uma necessidade real: “Diziam pra mim que eu tava dividindo a cena, mas em nenhum momento eu quis dividir. Só quis o nosso espaço de direito. Nos eventos tem mina que quer ser DJ e não deixam tocar, mina quer rimar e o ex organizador do evento não deixava. Não dá, sabe? Por isso fizemos a batalha exclusivamente para a galera LGBT e as mulheres, porque é quem sempre é cortada e podada dos rolês.”

Se antes da pandemia as possibilidades para as mulheres e LGBTs eram limitadas, em um momento de isolamento social, há ainda menos oportunidade para esses grupos no rap. Assim, o coletivo Batalha das Minas Londrina continuou a realizar as reuniões, mesmo que de forma online - e apesar das dificuldades, Amanda More vê o virtual como um facilitador para a conexão entre artistas:

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“Conseguimos conversar com outros movimentos da região. E tem o lance da gente ser mina, ter que voltar tarde dos eventos, e é perigoso. Querendo ou não, o meio da internet facilita isso, não é tão arriscado. Essa preocupação, 'ah, não, vamos acabar tarde porque as meninas precisam pegar busão,'” explicou a MC.

 
 
 
 
 
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Nas competições virtuais do coletivo, quem vota é o público. MCs recebem um beat original no WhatsApp e têm um determinado tempo para enviar o vídeo, publicado no Instagram Batalha das Minas Londrina. Em seguida, as filmagens são postas à votação, com duração de dois dias. No evento virtual Rap para Todes, com patrocínio da Red Bull, cada participante também precisou inserir determinadas palavras em cada entrada. 

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Amanda More vê com importância a realização das reuniões virtuais, mesmo com a cobrança de artistas por batalhas presenciais: "É uma forma de respeitar também o próximo e concluir esse tempo de pandemia da melhor forma possível. 500 mil pessoas mortas é muita coisa, e já somos sabotados pelo governo. Precisamos tomar nossa posição como povo também de se proteger e proteger nosso amigo. O sistema online precisa acontecer por conta disso, e vamos continuar fazendo."

Em tempos de pandemia de Covid-19, a reinvenção é um ponto essencial para a cultura hip-hop permanecer se movimentando. Apesar de ser essencialmente física e presencial, iniciativas no formato online contribuem para a cena. 

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Quando a pandemia cessar no país, diversos eventos voltarão ao tão esperado modo presencial, mas enquanto a situação não melhora, respeito ao próximo e às famílias dos mais de 500 mil mortos é essencial. Enquanto cultura de acolhimento, diálogo e denúncia, o hip-hop continua a fazer seu necessário papel - por enquanto, virtualmente. 


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