Cuties, polêmico filme da Netflix, é uma crítica ou incentivo à erotização infantil? [ANÁLISE]

Filme se tornou centro de polêmica e críticas desde a divulgação do pôster oficial

Larissa Catharine Oliveira | @whosanniecarol Publicado em 12/09/2020, às 08h00

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Cuties (Foto: Jean-Michel Papazian / BIEN OU BIEN PRODUCTIONS)

Quando a Netflix iniciou a divulgação de Cuties (Lindinhas, em português), em agosto, a estreia do longa francês na plataforma foi rapidamente rechaçada por grande parte do público. Uma petição chegou a reunir mais de 350 mil assinaturas após o lançamento do pôster e descrição do filme se tornarem alvo de acusações de erotização infantil e incentivo à pedofilia. 

Na imagem original, as protagonistas - atrizes de até 14 anos como personagens de 11 - aparecem em poses sexualizadas em um palco de dança. O título piorava a imagem, mas a descrição parecia confirmar as críticas. “Amy tem apenas 11 anos e fica fascinada por um grupo de dança. Para se enturmar, ela começa a explorar a própria feminilidade e desafia as tradições da família”, explicava a primeira sinopse publicada na plataforma. 

O marketing do filme passou por alterações e a Netflix dos Estados Unidos publicou um pedido de desculpas. A diretora, Maïmouna Doucouré, explicou o conceito do projeto em vídeo publicado na véspera do lançamento na plataforma. A ideia surgiu após ver um grupo de dança desta faixa etária com passos “como os dos clipes de música”. A cineasta franco-senegalesa fez um ano de pesquisa de campos com crianças antes de começar o projeto. “Nossas meninas entendem que, quanto mais hipersexualizada for a mulher nas redes sociais, mais sucesso conseguem. E as crianças imitam isso sem entender o significado”, pontuou. “Coloquei meu coração no filme, porque é minha história”. 

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A erotização infantil é um problema crescente na sociedade atual, principalmente com meninas. O padrão de beleza feminino na mídia é hipersexualizado, com referências como Kim Kardashian e Kylie Jenner, e influenciam as crianças, bombardeadas com clipes, propagandas, capas de revistas e redes sociais. Caracteriza-se a erotização infantil quando uma criança, de maneira direta ou indireta, é submetida a assumir caráter erótico, seja com roupas ou comportamentos. 

A socióloga emérita Gail Dines, responsável pela organização Culture Reframed, reconhece o dilema da transição entre infância e adolescência. “Quando meninas começam a desenvolver a identidade sexual, aprendem sobre duas opções: ser pegável ou invisível”, explica em palestra do TEDx Talks. ‘“E o que esperar de uma adolescente quando a necessidade de ser visível está embutida no DNA da adolescência?”

Esses fatores são observados por Maïmouna ao falar sobre Cuties. “[A protagonista] acredita em encontrar liberdade no grupo de dança e na hipersexualização. Mas isso é liberdade de verdade? Especialmente quando se é criança?”, questiona a diretora.

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Mesmo com a mudança da abordagem de marketing e da descrição, a Netflix ainda foi alvo de novos protestos virtuais com a chegada do filme ao catálogo. Algumas cenas foram compartilhadas nas redes sociais com a hashtag #CancelNetflix, e o assunto chegou aos trending topics do Twitter. Outra petição foi criada, desta vez com mais de 650 mil adeptos, para promover o cancelamento da assinatura do serviço de streaming.

No filme, Amy é a mais velha de três irmãos e a única filha de uma família senegalesa e tradicionalmente muçulmana. Com a ausência do pai e o sofrimento da mãe ao ser informada do segundo casamento do marido, a cultura conservadora da religião é apresentada de imediato. “Porque no inferno haverá mais mulheres que homens”, explica uma mulher às demais muçulmanas presentes. “Sabe onde onde o mal se alimenta? Nos corpos de mulheres seminuas. Devemos nos preservar para conservar nossa decência”. 

Logo após o encontro, a menina se depara com uma vizinha da mesma idade na lavanderia do condomínio. Enquanto Amy usa o hijab e é privada de qualquer vaidade, a vizinha dança música pop e veste uma calça legging colada ao corpo e cropped. Tanto Angelica, a rebelde líder do grupo de dança da escola, quanto as colegas do grupo de dança “Lindinhas”, usam roupas completamente "adultizadas" no cotidiano, como saias curtas e saltos altos. Como é tão forte na adolescência, Amy começa a se comparar e tenta se enquadrar. 

Pôster usado pela Netflix para divulgar filme (esq.) foi alterado pelo pôster original (dir.). (Foto: Divulgaçaõ)

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Além desses desafios da pré-adolescência, Cuties também retrata uma geração exposta à sexualidade adulta sem realmente ter acesso à educação sexual. Com as curiosidades naturais sobre sexo, mas sem informações confiáveis, as protagonistas acreditam em mitos absurdos sobre gravidez e uma delas chega a usar uma camisinha encontrada no chão como bexiga, por desconhecer o preservativo. 

O interesse de Amy pela dança não surge pelo amor pela arte, mas como uma ferramenta de integração social e a possibilidade de libertação. Ao aprender passos cada vez mais sexualizados, como aqueles reproduzidos por milhões de adolescentes no desafio de“WAP”, colaboração de Cardi B e Megan Thee Stallion, finalmente consegue a oportunidade de entrar no grupo e encontrar amizades. Se antes era desprezada, logo se torna uma espécie de instrutora das colegas ao dominar as caras e bocas sensuais dos clipes e vídeos de dança online.

Não faz sentido demonizar a Netflix ou diretora como criadoras desse fenômeno, como alguns comentários na internet sugerem. A erotização infantil retratada é real, seja com o sucesso de estrelas pop hipersexualizadas entre as crianças, a exposição em redes sociais - como nos casos de Melody e Mel Maia, sintomas de uma problemática maior - ou o acesso precoce a conteúdo pornográfico, geralmente por volta dos 11 anos de idade, conforme levantamento da Culture Reframed. Os recursos escolhidos para apresentar tal diagnóstico, porém, não se tornam menos passíveis de crítica por isso.

Angie e Amy em cena de Cuties (Foto: Reprodução/Youtube)


Apesar de justificadas pelo contexto, algumas cenas ultrapassam a linha tênue entre crítica e reprodução da erotização infantil. Enquadramentos especialmente problemáticos, até constrangedores, se repetem com frequência desnecessária ao roteiro, na ânsia de esfregar na cara da audiência o tamanho minúsculo dos shorts e apertados das crianças, as barrigas expostas e as posições inadequadas com closes de cima para baixo, foco nas nádegas ou interação com a câmera em imitações perfeitas - e perturbadoras - de adultas sedutoras. A necessidade da reafirmação da sexualização precoce das garotas chega a ser cansativa.

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Posicionamentos diferentes da câmera e o corte de algumas dessas cenas, incluindo segmentos inteiros de dança hipersexualizadas e desnecessárias, protegeria as meninas e seria mais coerente com a mensagem proposta, sem reproduzir aquilo que pretende criticar.

Inegavelmente, Cuties aborda o problema urgenteeatual de uma infância erotizada e adultizada. O filme tem um recorte cultural específico ao abordar a temática pelo ponto de vista de uma criança negra e muçulmana, com base na própria experiência da diretora, mas conversa com uma realidade presente em muitasculturas. Sem dúvidas, muitos acontecimentos conversam com a experiência pré-adolescente das gerações Y e Z, rodeadas de imagens conflitantes sobre feminilidade e afeto. 

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A crítica existe no filme, mas é sutil e parece perder sentido diante das longas cenas sexualizadas das atrizes mirim. Apenas a cena do pôster controverso dura três minutos inteiros, com uma coreografia provocativa e longa. Quando se trata de crianças, explorar os limites do público é, no mínimo, irresponsável. Enquanto isso, cenas realmente importantes e significativas não ganharam desenvolvimento, e o verdadeiro objetivo do longa é mostrado apenas na cena final, quando Amy parece encontrar um novo caminho, longe dos extremismos opressivos, sejam conservadores ou liberais. 

A intenção feminista do filme, como definiu Maïmouna, não é forte o suficiente para encontrar um público dessensibilizado e acostumado a entender meninas como “novinhas” culpadas e condenáveis, muito menos para justificar a sexualização de crianças como forma de ativismo contra o mesmo mal. 



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