Dalila, a rainha da Bahia

Ivete Sangalo encarnou personagem para mostrar seu novo show, com vestido, intrumentos e microfone dourados

Por Bruna Veloso, de Salvador Publicado em 30/01/2009, às 18h29

Cerca de 55 mil pessoas estavam lá para vê-la. A cada toque da sirene (som estridente que avisa o público quando um artista está prestes a chegar ao palco principal), mais e mais gente descia para a pista, tentando encontrar um lugar onde a visão fosse privilegiada. À 0h15, Ivete Sangalo apareceu diante de uma chuva de gritos do público ansioso que, depois de muita espera, queria soltar o corpo diante das músicas de uma das artistas mais populares da atualidade no país.

Veja o que Ivete disse à Rolling Stone Brasil sobre preconceito com o axé.

Foi-se o tempo em que cantoras de axé usavam apenas seus dotes físicos (e, por que não, vocais) para atrair as massas. Agora, elas querem grandes produções. Assim como Daniela Mercury, que se apresentou no Festival nesta quarta-feira, 28, Ivete montou uma grande cena e fez suspense quanto ao figurino, um vestido dourado para encarnar Dalila. Enquanto um som que remete à música árabe sopra das caixas, dançarinos cospem fogo, antecedendo o início de "Cadê Dalila", composição de Carlinhos Brown e nova música de trabalho da cantora.

Ivete aparece sentada em uma cadeira e acenando como uma miss, interpretando a mulher que, de acordo com contos bíblicos, tirou a força de Sansão ao cortar-lhe as madeixas. Seu trono é carregado por homens vestidos de preto, e, quando é colocada no chão e se levanta, o público vai abaixo.

Tudo no palco é dourado, do microfone aos instrumentos de percussão. O início do show é uma avalanche de batidas características do axé: sem intervalo entre uma faixa e outra, a cantora manda "Levada Louca", "Empurra-Empurra" e "Tô na Rua". Só então se dirige ao público, com o carisma de costume. "O coração está para sair pela boca. O que é que eu faço com vocês, meu povo?", diz, acrescentando estar nervosíssima com o show. Pudera: Ivete é a única artista a subir ao palco das 11 edições do Festival de Verão, e tinha nas mãos todo o público da arena. Para se ter uma idéia, a platéia era quase a mesma de um estádio do Morumbi (SP) lotado em dia de show. E, sendo assim, uma das apresentações mais difíceis de ser ver de longe: os telões não ajudaram, já que durante diversas vezes deixaram de mostrar imagens da cantora para exibir o logo do Festival.

"Não Precisa Mudar" teve trecho à capela e o maior coro dos dois primeiros dias da maratona. "Festa", "Berimbau Metalizado" e "Poeira" (fica difícil distinguir em qual das três o povo pulou mais) somaram-se a versões, como "Não Quero Dinheiro", de Tim Maia, e "Burguesinha", de Seu Jorge. O show terminou depois de uma hora e meia novamente com "Cadê Dalila", desta vez com crianças no palco, e "Arerê".

O resto da noite

Abrindo a noite desta quinta, os mineiros do Jota Quest fizeram um show dançante. Pulando muito e parando ao centro do palco apenas quando estava com o violão nas mãos, Rogério Flausino administrou bem a massa, que respondeu plenamente a hits como "Além do Horizonte", "Na Moral" e "Planeta dos Macacos". Os hits românticos, lugar comum depois de alguns anos da carreira do grupo, também não ficaram de fora, a exemplo de "Mais Uma Vez" e "Só Hoje". Não faltaram músicas do novo CD, La Plata, entre elas a faixa-título e "Vem Andar Comigo". Fora as incursões eletrônicas que aparecem mais nos intervalos entre as faixas do que nelas propriamente, o Jota Quest faz, musicalmente, um show sem grandes firulas, baseado nas guitarras do galã da banda, Marco Túlio, com o uso do pedal de waa-waa, e na linha de baixo de PJ.

A escolha de Ana Carolina como atração seguinte poderia parecer equivocada, se a mistura de ritmos aleatórios não fosse marca do festival (o tema desta edição é "movido pela mistura"). Segunda atração da noite e antecedendo Ivete Sangalo, o show de Ana, mais calmo e lento do que os demais, baixou os ânimos. Em certos momentos, peso nas guitarras e samples de metais e violinos ajudavam a não deixar o público cair completamente. Mesmo assim, muita gente (principalmente mulheres) cantou junto com "Encostar na Tua" e "Garganta". Na parte dedicada ao samba, com "Quero Ver Se Tem Atitude", "1.100,00 (Nega Marrenta)" e um duelo de pandeiros (a cantora mostra intimidade com o instrumento), os baianos se soltaram mais.

Nem a garoa fina que caiu durante o show da Eva, que entrou depois de Ivete, fez com que o público parasse de dançar. Saulo Fernandes, como não podia deixar de ser em uma banda de axé, segura o show com carisma - se diz emocionado e incapaz de dormir depois de se apresentar para um público como aquele. Cantando "Flores", "Toda Linda" e "É do Eva" (do verso que já é domínio popular "Sorria, você está na Bahia") estão entre as faixas que fizeram o povo, a certa altura molhado de suor e de chuva, dançar até as 3h30. Pouco depois, foi a vez de bandas e músicos de forró, encarregados de encerrar a noite.