David Bowie planejou álbum pós-Blackstar e “pensou que tinha mais alguns meses”

Em entrevista exclusiva, o produtor e amigo Tony Visconti fala sobre os últimos momentos e o desejo de continuar do cantor

BRIAN HIATT Publicado em 14/01/2016, às 12h00 - Atualizado às 12h13

Imagem registrada na última sessão de fotos da vida de David Bowie
Jimmy King/Divulgação

Por volta de uma semana antes de morrer – com o lançamento de Blackstar próximo –, David Bowie chamou o produtor e amigo de longa Tony Visconti por meio do FaceTime e disse a ele que queria fazer mais um álbum. Naquelas que viriam a ser as últimas semanas da vida dele, Bowie compôs e gravou demos de cinco canções inéditas, e estava ansioso para retornar ao estúdio pela última vez.

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Bowie sabia desde novembro que o câncer dele era terminal, de acordo com Visconti, mas se a última conversa deles foi alguma indicação, ele não tinha ideia que tinha tão pouco tempo de vida. “No estágio final, ele estava planejando a sequência de Blackstar”, diz Visconti, produtor do disco, em entrevista conduzida na última quarta-feira, 13.

“E eu estava animado”, continua Visconti. “Eu pensava, e ele pensava, que ele teria alguns meses pelo menos. Obviamente, se ele estava animado para fazer um novo álbum, ele deve ter pensado que teria mais alguns meses. Então o fim deve ter sido muito súbito. Não tive muita proximidade com isso. Não sei exatamente, mas ele deve ter ficado doente muito rapidamente depois daquela ligação.”

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Visconti tem trabalhado com Bowie de diversas formas desde Space Oddity, de 1969, produzindo vários álbuns chave, entre eles The Man Who Sold the World (1970), Low (1977), Scary Monsters (and Super Creeps) (1980) e a volta com o disco surpresa The Next Day, de 2013.

Visconti ficou sabendo da doença de Bowie há um ano, quando ele apareceu para as sessões de Blackstar em Nova York. “Ele apareceu logo depois de ter saído de uma sessão de quimioterapia, e não tinha sobrancelhas, e não tinha cabelos na cabeça”, diz Visconti. “E não havia como ele conseguir manter aquilo em segredo para a banda. Mas ele me disse, privadamente, e eu realmente fiquei chocado quando sentamos cara a cara para conversar sobre isso.”

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Por volta da metade de 2015, entretanto, o prognóstico de Bowie pareceu melhorar. “Ele estava otimista porque estava fazendo quimioterapia e estava funcionando”, diz Visconti. “E, em certo ponto no meio do ano passado, ele estava conseguindo remover. Eu fiquei animado. Ele estava um pouco apreensivo. Ele disse: ‘Bem, não celebre tão cedo. Por enquanto, estou conseguindo remover, e vamos ver o que acontece’. E ele continuou a quimioterapia. Então eu pensei que ele conseguiria se recuperar. E, em novembro, aquilo repentinamente voltou. Espalhou-se por todo o corpo dele, então não tem como se recuperar disso.”

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Bowie já havia finalizado Blackstar em novembro. Mas mesmo antes daquilo, Visconti notou o tom de algumas letras e disse a ele: “Você é um filho da puta. Está compondo um álbum de despedida”. Bowie simplesmente riu em resposta. “Ele era tão valente e corajoso”, diz Visconti. “E a energia dele ainda continuava incrível para alguém que tinha câncer. Ele nunca demonstrou medo. Ele estava todo preocupado em fazer este disco.”

Até onde Visconti sabe, rumores de problemas de saúde adicionais ligados ao ataque cardíaco de Bowie em 2004 e o diagnóstico de câncer há 18 meses são falsos. “Quando me encontrei com ele em 2008 ou 2009, ele tinha até ganhado um peso”, acrescenta. “Estava robusto. As bochechas estavam coradas. Ele não estava doente. Ele tinha tomado remédios para o coração. Mas era normal, como muitas pessoas com 50 ou 60 anos tomam medicamentos para o coração e vivem por muitos anos. Ele estava lidando com isso muito, muito bem”. No período entre o ataque cardíaco e o lançamento de The Next Day (2013), Bowie chegou a ter aulas de boxe.

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Quando soube da morte de Bowie, Visconti estava na estada com Holy Holy, um projeto em tributo a Bowie que inclui o baterista da Spiders From Mars Mick "Woody" Woodmansey. “Tivemos de decidir se continuaríamos com a turnê porque estávamos todos abalados”, diz Visconti. “Segunda foi o pior dia da minha vida. Devo dizer. Mas conversamos sobre isso e dissemos: ‘Somos músicos, isso é o que fazemos. David gostaria.’ Tocamos pela primeira vez desde que ele morreu na noite de ontem [terça, 11] para uma plateia muito, muito entusiasmada em Toronto. Havia pessoas chorando, mas tinha pessoas sorrindo, batendo palmas e pulando. Ouça, foi uma experiência incrível ser capaz de reconhecê-lo e celebrar a vida dele.”