De Beto Guedes a Rage Against the Machine: um curioso papo entre as bandas Molho Negro e Menores Atos

Bandas de Belém e Rio de Janeiro, duas das mais promissoras bandas de rock do Brasil, entrevistam-se sobre a vida na estrada, saudade de casa e preferências musicais

Pedro Antunes Publicado em 04/12/2018, às 18h28

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Menores Atos (alto) e Molho Negro (Fotos: Fernando Valle e Julia Rodrigues)

Da melancolia ao caos, Menores Atos e Molho Negro se posicionam como grandes nomes do rock nacional (que está distante de agonizar, é bom lembrar). Integrantes de uma cena que não precisa ser chamada de "cena" - dada à amplitude estética dos grupos adeptos da guitarra, distorções e por aí vai -, as bandas compartilham do talento de criar revoluções quando sobem aos palcos.

Menores Atos, do Rio de Janeiro, está na ativa desde o início dos anos 2000, mas trocou de formação algumas vezes e até entrou em hiato. Em 2014, lançaram Animalia, um álbum que faz aquelas lágrimas escorrerem até dos olhos mais secos e sangra os corações de pedra.

Com Lapso, o novo álbum fresquinho lançado neste ano, eles expandem sua viagem sonora. Canções como "Devagar" e "Amanhã" entregam mais clima. São arrebatadoras na arte de tragar o ouvinte para sentimentos que, por vezes, eram-lhe distantes, estavam escondidos ou enterrados.

Ouça Lapso, do Menores Atos: 

Do lado do Molho Negro, a palavra-chave é "mordaz". Porque a pancada que João Lemos (voz e guitarra), Raony Pinheiro (baixo) e Augusto Oliveira (bateria) produzem, um rock energizante, direto, sem firulas e frituras, também se derrete em veneno, sarcasmo e ironias e nas sacadas raivosas dos seus versos.

Também com um álbum que cheira a tinta fresca, Normal, lançado há pouco, o trio de Belém possui show explosivo que costuma chegar ao fim com todos os integrantes no meio do público, inclusive com parte do kit de bateria.

Ouça Normal, o novo disco do Molho Negro: 

Menores Atos e Molho Negro participam da Noite Tenho Mais Discos Que Amigos!, neste sábado, 8, quase um mini-festival com nomes de destaque do novíssimo BRock e parte da imensa programação da Semana Internacional de Música de São Paulo (a SIM São Paulo).

Também sobem ao palco do The House (antigo Hangar 110, localizado na Rua Rodolfo Miranda, 110 - Bom Retiro) as ótimas Black Pantera e Violet Soda. Os ingressos custam R$ 30 (antecipado) a R$ 40. Os credenciados da SIM têm entrada gratuita.

Para a Rolling Stone Brasil, João Lemos, do Molho Negro, entrevistou Cyro Sampaio, do Menores Atos. E também rolou o inverso, Cyro fez  perguntas a João. Os dois tiveram seu dia de "repórter da Rolling Stone".

O bate-papo entre músicos é interessante não só pelas respostas, mas pelas perguntas também. João, por exemplo, quis saber sobre a ligação entre Menores Atos e seu público, sempre tão intensa. Também pede uma sugestão de disco para "iluminar esses tempos sombrios". E a resposta é surpreendente.

Já Cyro, que deixou o Rio de Janeiro e se mudou para São Paulo recentemente, leva sua pauta para essa ideia de deslocamento (de distância da cidade natal ao som escolhido para ouvir nas turnês pelo País).

Vamos lá?

João Lemos, do Molho Negro, entrevista Cyro Sampaio, do Menores Atos:

Molho Negro: Eu conheci a banda quando saiu o Animalia uns anos atrás, mas soube que o Menores é uma banda mais antiga, que já teve mais integrantes. Me explica um pouco dessa história oculta aí?
Menores Atos: Pois é, a banda existe desde o início dos anos 2000, lançou um primeiro disco em 2005 e aí ficaram parados por um bom tempo. Até que o Felipe (baixista original) e o Bola (baterista) tiveram vontade de voltar com a banda e me chamaram (Cyro) pra assumir as guitarras. Daí em diante, o som mudou muito. Foi como começar do zero novamente, lançamos o Animalia em 2014, o Felipe saiu em 2015, quando chamamos o Celso... E cá estamos.

Molho Negro: A primeira vez que eu vi o Menores Atos foi numa casa pequena, porém lotada, e fiquei impressionado com o fato das pessoas cantarem as músicas mais alto que a própria banda. Na opnião de vocês, o que é que ajuda a criar esse elo forte entre fãs e banda?
Menores Atos: Acho que as letras, bem pessoais, formam o maior elo com o público. É o que faz as pessoas sentirem "essa música conta a minha história, foi feita pra mim". A atmosfera do show (e dos discos) tenta traduzir o clima das letras e intensificar essas emoções.

Molho Negro: Se vocês tivessem que escolher um disco brasileiro para nos iluminar nesses tempos sombrios, qual disco vocês escolheriam?
Menores Atos: Vou de Beto Guedes, Sol de Primavera, um disco muito importante pra mim, com letras e melodias incríveis e que me traz muita coisa boa.

Cyro Sampaio, do Menores Atos, entrevista João Lemos, do Molho Negro:

Menores Atos: Nós também somos uma banda que saiu (há pouco de tempo) da cidade natal para viver em São Paulo. Para vocês, o que mais aproxima e o que mais afasta Belém de São Paulo?
Molho Negro: Acredito que em Belém muito se atribui à “mística” da cidade, dos climas e regionalismos que ajudam a ambientar tudo que nasce de lá. Do mesmo tanto que injustamente classificam São paulo como se fosse uma cidade muito “técnica” uma cidade onde “se você procurar, você acha, se plantar você colhe”. Acho que esses argumentos ajudam mais a afastar do que aproximar as cidades e as pessoas. Às vezes, a gente encontra gente parecida, talvez seja isso, as pessoas aproximam o que os conceitos afastam.

Menores Atos: Viajando muito de carro pra tocar, a gente sempre ouve muita música juntos. Qual a banda que mais representa esse momento de viagem pra vocês?
Molho Negro: Sendo bem sincero, o bicho pega mesmo é nas playlists de Vaporwave e Lo-fi hip hop, mas falando por mim (João), ouvi pelo menos umas 50 vezes na estrada o tell Me How You Really Feel, da Courtney Barnett, deste ano.

Menores Atos: O que vocês acham de pista premium?
Molho Negro: Nunca fui em uma e nunca tive a oportunidade de enfrentar uma tocando, mas até hoje me arrepio quando lembro que o Rage Against the Machine destruiu a pista premium em minutos no (Festival) SWU (realizado em 2011).