De ícone sexy a inimigo público nº 1: a trajetória de Jim Morrison, do The Doors

Vocalista, que faria 75 anos neste dia 8 de dezembro, nasceu de uma família rica de Miami mudou-se para Los Angeles para se tornar um mito

Paulo Cavalcanti Publicado em 08/12/2018, às 09h00

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Jim Morrison morreu aos 27 anos (Foto: Agência El Universal / AP)

Difícil pensar em quem seria ou como estaria Jim Morrison, vocalista do The Doors, caso não tivesse morrido em Paris, naquele ano de 1971. A única certeza é que celebraria seu 75º aniversário neste 8 de dezembro de 2018.  

Até hoje as circunstâncias da morte dele estão envolvidas em mistério. Teria sido uma overdose de heroína? Ou  ataque cardíaco? De qualquer forma, Morrison entrou para o chamado “clube dos 27”, juntando-se a ícones como Brian Jones, Jimi Hendrix e Janis Joplin, outros roqueiros lendários que se foram com mesma idade "amaldiçoada".

Um rebelde bem-nascido

James Douglas Morrison, nascido no dia de 8 de dezembro de 1943 em Miami, Flórida, era um jovem privilegiado. O pai dele era um famoso almirante da Marinha norte-americana.

Quando ainda era adolescente, Morrison se rebelou com a vida convencional e confortável que tinha em casa.  Saiu da Flórida e foi para Los Angeles estudar cinema na famosa UCLA. E aí tudo começou.

Roqueiro? Não, blueseiro, no máximo

É importante dizer que Morrison nunca foi um “roqueiro”. Na verdade, ele era um boêmio que gostava de bebida, noitadas, poesia e literatura beatnik. Elvis Presley, Chuck Berry e outros pioneiros de rock não significavam nada para ele. Nem a chegada dos Beatles o sensibilizou.

Como aspirante a poeta, ele gostava da métrica do blues e ouvia este estilo – sua formação musical veio daí. Morrison era um crooner; o jeito empostado de cantar surgiu ao ouvir os discos de Frank Sinatra que ele tanto gostava.

Um encontro que mudou tudo

Na UCLA, ele conheceu o tecladista Ray Manzarek, que também estudava na instituição. Manzarek tinha uma banda, chamada Ricky and The Ravens, mas nada parecia se encaixar entre eles.

Depois de apresentar algumas letras para Manzarek e mostrar seus dotes vocais, Morrison foi convidado a participar do grupo, que iria ser rebatizado por ele de The Doors, baseado no livro As Portas da Percepção, de Aldous Huxley.

Dentro da banda, Morrison finalmente se encontrou e agora tinha condições de se expressar artisticamente. Naquele momento, Hollywood perdeu um possível cineasta, mas o universo do rock ganhou um dos seus mais importantes representantes.  

Um disco para se opor aos hippies, às flores e ao Verão do amor

Morrison engrenou a parceria musical com Manzarek, Robby Krieger (guitarra) e John Densmore (bateria) e o quarteto assinou com a gravadora Elektra. A banda começou a escrever canções polêmicas e urgentes, como a edipiana “The End”, que fez com que a trupe fosse expulsa do popular clube Whisky a Go Go, em Sunset Boulvard, uma avenida de 35 Km que sai do centro de Los Angeles e chega ao oceano Pacífico - e, em certos trechos, reunia alguns clubes de música ao vivo e, por isso, ajudou a fomentar a música da Costa Oeste norte-americana.

O primeiro álbum, The Doors, saiu em janeiro de 1967. O LP contrastava com a euforia hippie que era vivenciada no Verão do Amor. O trabalho de estreia do quarteto de Los Angeles falava de morte, sexo, fim, impotência e possuía um clima soturno e gótico.

Era a trilha sonora perfeita para embalar os jovens que estavam morrendo aos milhares na Guerra do Vietnã. A lasciva “Light My Fire” foi um enorme sucesso, chegando ao primeiro posto da parada. A poderosa "Break On Through (To the Other Side)" e balada lisérgica “The Crystal Ship” tornaram-se outros destaques. O disco fechava com a já citada e polêmica “The End”. O álbum tornou-se um best seller, assim como os lançamentos seguintes do The Doors.

Vida em hotéis baratos e sem luxo  

De repente, “O Rei lagarto”, como era chamado, era agora considerado um dos maiores astros do rock. Trajando calças de couro, belo ao extremo, com jeito de deus grego, ele era um cobiçado símbolo sexual e sua estampa estava na capa de várias revistas.

Mas dinheiro, fama e bajulação não significavam nada para ele. A enorme quantia que ele recebia ia para uma conta conjunta do The Doors. Assim, Morrison não ostentava. Nunca teve qualquer tipo de posse. Não possuía carro ou mesmo uma casa própria. Morava em hotéis vagabundos na Sunset Strip.

Amor? Um só

Mas na maior parte do tempo, ficava na casa da namorada Pamela Courson, a verdadeira alma gêmea dele e musa inspiradora de várias canções que escreveu.  

Morrison vivia o estilo de vida da contracultura em seu dia a dia. Ele também cortou os laços com a família, falando em todas as entrevistas que concedia que na verdade era órfão.

Encrenca com as autoridades

Acima de tudo, Morrison era um provocador. Os shows do The Doors se tornavam cada vez mais explosivos. Em 1967, Morrison se envolveu em uma grande encrenca. Ele estava namorando nos bastidores quando um policial jogou gás na cara dele. Durante o show, começou a atacar as autoridades. Foi preso no palco.

"Vocês querem ver meu p…?"

Jim Morrison também abusava do álcool.  O constante estado de embriaguez dele tornava os shows cada vez mais erráticos e conturbados. No dia 1º de março de 1969, no Dinner Key Auditorium em Miami, o caos chegou ao ápice. No local cabiam 7 mil pessoas, mas lá estavam cerca de 12 mil.

Em um show onde nada dava certo, o embriagado Morrison se irritou com a platéia, que se xingava e disputava o espaço a cotoveladas. Ele então teria dito: “Vocês são uns idiotas. Querem ver o meu pau?”. E segundo algumas testemunhas, ele teria mostrado o órgão sexual. Logo depois, o show se dissolveu em meio ao tumulto.  

Inimigo público número um

Depois daquilo, Morrison foi processado e condenado por exposição indecente e uso de linguagem profana. Pagou uma multa de U$500 e uma fiança de U$50 mil.  Mesmo assim, foi condenado a seis meses de prisão. Com o escândalo, os shows seguintes da banda foram cancelados. O vocalista virou uma espécie de inimigo público, um corruptor subversivo.

A Rolling Stone EUA tratou extensivamente do caso. A revista publicou uma de sua mais célebres capas, como se Morrison estivesse em um antigo cartaz do Velho Oeste com a inscrição “procurado” acima do rosto dele (imagem abaixo).  

A última fuga

Morrison ficou apavorado com a perspectiva de ir para a cadeia. Os advogados dele apelaram da sentença e enquanto a situação permanecia indefinida junto à lei, ele rumou à França com Pamela à tiracolo. A intenção dele era ficar longe da pressão que sofria em casa.

Morte misteriosa

Na distante Paris, o lar de tantos poetas que ele tanto admirava, o artista também procurava resgatar a inspiração que ele achava ter perdido.  Muitos dizem que lá, Morrison e Pamela entraram de cabeça na heroína.

Os fatos relativos aos derradeiros dias do cantor até hoje estão envoltos em mistério. O que se sabe é que no dia 3 de julho de 1971 Morrison morreu na banheira do apartamento onde morava.  

As autoridades médicas apontaram que a causa da morte do cantor de 27 anos foi um  ataque cardíaco, mas nenhuma autópsia foi realizada. Ele foi enterrado no cemitério Père Lachaise, lá mesmo em Paris. Seu túmulo logo virou ponto de peregrinação.

Pamela morreu de overdose em 1974. Reclusa, raramente falava como foram os últimos dias dela com Morrison.

O começo do culto

Manzarek, Krieger e Densmore tentaram seguir como The Doors, mas logo aposentaram o nome da banda. O renascimento aconteceu em 1979, quando “The End” foi usada em momentos chave de Apocalypse Now, filme clássico de Francis Ford Coppola, até hoje a crônica definitiva sobre a insanidade da Guerra Do Vietnã.

Durante a década de 1980, o culto só aumentou, com inúmeras bandas da época mostrando ter sido fortemente influenciada pelo The Doors.  

Em 1991, o diretor Oliver Stone veio com The Doors, biografia cinematográfica da banda, com Val Kilmer vivendo Jim Morrison de forma brilhante. E destes anos para cá, o legado de Morrison e The Doors nunca arrefeceu.