De volta a 1991

Em Londrina, Mudhoney faz a alegria de órfãos do grunge; bandas que se apresentaram no palco menor do Demo Sul sofreram com acústica e problemas de som

Por Bruna Veloso, de Londrina Publicado em 15/10/2008, às 18h21

Como esperado, o Mudhoney foi a sensação da primeira noite do festival paranaense Demo Sul, que em sua oitava edição escalou 20 bandas em dois dias de programação oficial.

A banda de Mark Arm subiu ao palco na noite dessa sexta com cerca de 15 minutos de atraso (a apresentação estava marcada para 0h30). Com os acordes "The Money Will Roll Right In", de 1991, a banda de Seattle enlouqueceu alguns órfãos do grunge postados à frente do palco. A música também já foi gravada pelo Nirvana (e no YouTube, dá para se sentir no início dos anos 90 com um vídeo que mostra Kurt Cobain tocando a faixa junto com Mark Arm e Cia.).

Arm conversou com a reportagem do site da Rolling Stone sobre política, música e a turnê brasileira. Leia aqui.

http://www.rollingstone.com.br/secoes/novas/noticias/3659/

O set list mesclou faixas do início da carreira com as do último lançamento, The Lucky Ones. Ao som das mais antigas, muita gente ali, boa parte ainda criança quando a moda das camisas de flanela saiu de Seattle para o mundo, dançou intensamente, como se estivesse "relembrando" uma época áurea - na realidade, vivida apenas pela TV, anos depois da real.

Arm foi econômico nas palavras, mas agradeceu muitas vezes em português. Esguio como Iggy Pop, e com trejeitos semelhantes em alguns momentos, o vocalista emendou "I'm Now" e "Next Time" (com direito a solo de bateria de Dan Peters), do último CD. Assume a guitarra pela primeira vez em "Suck You Dry". O auge vem em "Touch Me I'm Sick", primeiro single da banda, lançado há 20 anos - o público à frente do palco enlouqueceu, cantando e gritando junto, levantando os braços e exaltando o quarteto. Mais longe, muita gente ouvia sem se mexer muito, apenas balançando a cabeça e cantando um verso ou outro.

Steve Turner destilou seus acordes distorcidos em uma guitarra vermelha modelo Les Paul, enquanto o baixista Guy Maddison ficou bem à beira do palco, balançando a cabeça e incitando os fãs a fazer o mesmo. Depois de fechar o show com "Hate the Police", cover do The Dicks, e agradecer o público, Mark e seus companheiros deixam o palco, dando a entender que não haveria bis. Mas para a alegria dos que entoaram gritos de "Mudhoney", a banda voltou com mais duas releituras: "Street Waves", da banda punk norte-americana Pere Ubu, e "Fix Me", do Black Flag.

Problemas com o som

A local Mescalha saiu prejudicada pela qualidade técnica do som no palco menor. Além de a acústica do Clube Grêmio Literário Recreativo Londrinense não ajudar, foi difícil ouvir a voz do vocalista em meio ao som dos instrumentos. Os solos de guitarra viraram apenas uma massa sonora indistinguível, enquanto que o baixo seguiu abafado pela bateria. Depois de quinze minutos, houve alguma melhora, mas os técnicos continuaram acertando alguns problemas durante as apresentações das bandas seguintes. Ao final do show, Rita Lee e Raul Seixas (covers, claro) convidaram o público para correr para o palco principal. Foi assim durante toda a noite: os dois, ou Janis Joplin acompanhada de um David Bowie dos tempos de Ziggy, chamavam as atrações.

No palco principal, a também londrinense Flattermaus mostrou indie rock melódico em inglês, com voz baixa, difícil de ouvir - característica da banda, e não problema do som, já que no material gravado os vocais também estão em segundo plano. A seguinte, 220 Ska Bar, destoou do restante da programação, com um show de ska animado e dançante, regado a alguns momentos quase hardcore, com distorção na guitarra. Thamú, rudegirl (versão feminina de rudeboy, denominação usada para designar os fãs do ska na Inglaterra, na década de 70) dançarina, não pára um minuto no palco - nem fora dele, quando desce para se remexer junto ao público.

Madame Saatan, banda paraense que cresce no cenário independente, mostrou seu metal com pitadas de regionalismo com boas letras, baixo e guitarra pesados na medida certa, e a potente voz da vocalista Sammliz. A bateria foge das regras que regem algumas bandas metaleiras mais tradicionais, dando o toque regional em músicas como "Vela" e "Gotas e Caos". Show visceral e original, finalizado com todos os covers dançando no palco ("Bowie" se soltou, aparecendo só de macacão, justíssimo, a la ginasta).

Os meninos do Droogies (cujo nome é uma referência a Laranja Mecânica, livro de Anthony Burgess, adaptado para o cinema por Stanley Kubrick) fizeram rolar uma tímida roda de pogo - alguns subiam no pequeno palco, embalados pelo punk rock, e pulavam de volta na platéia. Precisava cair em pé, já que ninguém parecia muito interessado em segurar os "mosheiros" de plantão.

A mineira Vandaluz mistura uma porção de teatro, outra de poesia, e rock para passar uma mensagem de crítica em faixas como "Proibido" e "Teoria". As letras são bem arranjadas, mas a mistura dos três elementos acima é feita com tanta intensidade que às vezes se torna cansativa. Os curitibanos Cassim e Barbária seguem na direção contrária, fazendo som tipo exportação, em inglês, com uma influência sutil do rock industrial, com pitadas de efeitos eletrônicos. O diferencial da banda se perdeu por causa da acústica do lugar, mais uma vez.

O Lendário Chucrobillyman, que também se apresentou no palco menor, antes do Mudhoney, parece ter sido o menos prejudicado pela estrutura - a "one man band" do curitibano Klaus Koti, com menos peso na bateria do que uma banda comum, se fez ouvir com a clareza máxima permitida pelo espaço. O músico ficou feliz com o volume de público ("nunca toquei pra tanta gente assim!") e com a resposta, sempre com muitas palmas ao final das músicas. O formato incomum - Chucrobilly toca, ao mesmo tempo, guitarra, bateria e kazoo (pequeno instrumento musical que adiciona uma espécie de zunido à voz do cantor) - prendeu as atenções. Um megafone também ajuda no efeito vocal. Músicas animadas, com um pouco de rockabilly, um ar mexicano e um toque country ganharam o público de Londrina, que esperou até o final antes de correr para escutar o Mudhoney.