De volta ao Brasil, Mark Lanegan mantém carreira prolífica e admite: “Falar sobre mim não é algo que me anima”

Em projeto solo, cantor se apresenta este sábado, 30, no Cine Joia, em São Paulo

Lucas Brêda Publicado em 29/05/2015, às 18h28 - Atualizado em 09/10/2015, às 17h38

Mark Lanegan
Reprodução/Facebook

Poucos músicos de 50 anos de idade já participaram de tantos projetos e canções quanto Mark Lanegan. Ex-vocalista do Screaming Trees, ele foi membro do supergrupo grunge Mad Season, colabora frequentemente com o Queens Of The Stone Age (basta lembrar dos vocais de “A Song For The Dead”), integra o Twilight Singers e cantou em tantas gravações quanto sua disponibilidade permitiu.

Neste sábado, ele sobe a palco do Cine Joia, em São Paulo, às 23h. Não para tocar canções de algum dos projetos já citados, mas com a carreira solo, na qual já soma sete álbuns de inéditas desde 1990. O mais recente deles é Phantom Radio (2014), o terceiro – assim como Blues Funeral (2012) – assinado como Mark Lanegan Band.

O fértil escritor, porém, está longe de ser um nerd musical, ou algo do tipo. “Às vezes eu componho todo dia, mas outras vezes não”, conta Lanegan, em entrevista por telefone à Rolling Stone Brasil. “Hoje em dia, costumo escrever mais quando tenho um disco específico para fazer. Mas no passado, era todo dia.”

Com raríssimas exceções, todas as canções lançadas pela Mark Lanegan Band são assinadas pelo vocalista. “Na maioria das vezes eu escrevo a música, levo para eles, e nós tocamos juntos”. “Eles estão ligados no que quero fazer agora. Além disso, são os caras que tocam nos shows, portanto procuram fazer algo que eles gostem de tocar ao vivo.”

Quando voltou a se dedicar ao projeto solo, em 2012 – oito anos após Bubblegum (2004) –, Lanegan conseguiu atualizar sua sonoridade, inserindo elementos da música eletrônica em meio à rusticidade dos vocais graves e extremamente roucos. O resultado é que Blues Funeral ficou entre os discos mais vendidos em seis países da Europa, na semana de seu lançamento – fora a recepção positiva da crítica.

O processo se repetiu com Phantom Radio, sem tanto alarde, mas com tantas canções desafiadoras quanto o antecessor. “Venho escutando Kraftwerk há muitos e muitos anos. Além de outras bandas de krautrock”, aponta ele, referindo-se às recentes (ou nem tanto assim) influências. “Isso e outras coisas dos anos oitenta é de onde tiro inspiração para meu trabalho mais recente.”

A ambientação – sempre com muita profundidade e refinamento – das canções também tem influência pesada da banda que o acompanha. “Eles são grandes músicos”, diz, tirando de si a glória. “Sou abençoado por ter feito um monte de discos com um monte de gente boa.”

É natural que Lanegan desvie o foco de si durante quase toda entrevista. Não é preciso mais que suas canções para perceber que a personalidade misteriosa – e até sombria – está muito mais ligada à introspecção do que à expansão. Com uma voz que beira o desânimo e frases sempre muito curtas, ele admite: “Pra ser sincero com você, falar sobre mim mesmo não é algo que me anima.”

“Mas”, acrescenta, com uma longa pausa e um riso estranhamente expressivo. “[Dar entrevistas] faz parte da cartilha do meu trabalho. É algo que me acostumei a fazer”. Quando a reposta parecia completa – curta e direta, como todas as outras –, ele conclui: “Mas eu preferia estar fazendo outra coisa, claro.”

O que, exatamente? “Não sei... Brincando com meus cachorros ou... coisas do dia-a-dia da minha vida”.

Lanegan também se mostra desligado quando o assunto é indústria da música e público. “Não presto atenção nesse tipo de coisa. Nunca fiz isso”, admite. “É legal alcançar o máximo de pessoas possíveis. Mas, sabe, o que eu posso controlar é compor, fazer música. O resto está fora do meu alcance.”

As plateias do cantor, entretanto, estão inegavelmente crescendo, devido a um “rejuvenescimento” de parte do público, atraído pelas músicas mais recentes. “Sempre fico feliz quando a fatia da plateia que é da minha idade influencia pessoas mais novas”, diz. “Sempre tem gente mais nova. Isso acontece em todos os lugares. Não sei por que isso acontece, mas... gosto que aconteça.”

No Brasil, especialmente, Lanegan desenvolve uma relação um pouco mais próxima. Desde 2010, ele veio três vezes com a carreira solo: uma em 2010 – para um Popload Gig –, outra em 2012, e mais uma em 2013 – no festival brasiliense Porão do Rock.

“Toda vez que vou aí, desde a primeira vez, as plateias são muito quentes, receptivas, e animadas”, comenta. “[O Brasil] tornou-se um daqueles lugares que sempre procuro voltar.”

O setlist desta, que será a quarta apresentação dele no Brasil em cinco anos, contará, majoritariamente, com faixas dos dois últimos álbuns. Não ficam de fora, porém, músicas marcantes da trajetória solo dele, como “One Way Street”, “Hit the City” e “Methamphetamine Blues”, além de uma única faixa do Screaming Trees, “Black Rose Way”.

“É uma canção que nunca tocamos com o Screaming Trees – exceto pela vez que gravamos”, conta o vocalista. “Não foi uma música que eu tive tempo de enjoar, já que não é uma das que tocamos um milhão de vezes – como várias da banda. É uma faixa que gosto de tocar. Que minha banda gosta. Por isso continuamos mantendo no setlist.”

“Black Rose Way” data dos anos 1990, mas o Screaming Trees foi formado em 1985, há 30 anos – quando Lanegan deu início à sua carreira na música. “Pessoas que eram minhas amigas e não estão mais por aqui”, diz ele, sobre o que mais sente falta nos últimos anos. “Caras que não conseguiram chegar à minha idade. Mas, com o passar do tempo, aprendi a não sentir tanta falta. Consigo viver bem atualmente.”

Mais do que bem, Lanegan procura viver com intensidade a atualidade. “Sou uma pessoa de 50 anos agora, então, não sou o mesmo cara de quando comecei”, argumenta. “Não sei quantos anos você tem, mas as pessoas mudam bastante conforme elas crescem. Passei por muitas experiências de vida.”

“Sabe, o modo de falar, num sentido geral”, continua. “Quando eu era mais jovem, eu não era uma pessoa muito pacífica. Passei por muitos altos e baixos e agora tento não levar as coisas tão a sério. Tem a ver com ficar no ‘aqui e agora’, viver um dia após o outro e assim eu fico bem.”

Tanto na fala quanto nas palavras, o cantor exalta os “maus bocados” em que esteve metido. E o tempo não fez bem apenas para a vida pessoal de Lanegan. “Se você ouvir os discos que fiz nos anos 1980, eu não sabia direito... era algo que eu estava descobrindo e, sabe, minha voz definitivamente se desenvolveu”, comenta sobre seu maior trunfo como músico. “A mudança na minha voz com certeza tem a ver com isso [o tempo]. Mas acho que eu simplesmente aprendi a cantar melhor.”

Mark Lanegan certamente passa longe de ser uma unanimidade, e até mesmo de chegar perto de fazer alguma diferença no cenário musical mainstream atual. Em um universo recheado de solidão, sombras e um antigo blues, o que mais importa para ele é a expressão. Como canta em “I'm The Wolf”, Lanegan “sobreviveu ao assassinato de outro”, com um uivo indefectível que solta não para assustar, mas para reafirmar sua existência.

Mark Lanegan em São Paulo

30 de maio (sábado), às 23h

Cine Joia – Praça Carlos Gomes, 82 – São Paulo/SP

Ingressos: R$ 160 (há meia-entrada)

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