De volta a São Paulo, Mundo Livre S/A fala sobre novo disco

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o vocalista Fred Zero Quatro conta sobre os shows de lançamento na capital, explica as mudanças no processo de produção da banda e critica a postura de associações como Abrafin e Fora do Eixo

Murilo Basso Publicado em 08/03/2012, às 08h17 - Atualizado às 09h53

Mundo Livre
Divulgação

Após quase sete anos sem lançar um disco só de músicas inéditas, o Mundo Livre S/A chegou, no final de 2011, a seu sexto registro de estúdio, Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa. O álbum, que ganha três shows de lançamento em São Paulo a partir desta quinta, 8, começou a ser pensado ainda em 2008, época em que o grupo lançou a coletânea Combat Samba.

O vocalista Fred Zero Quatro classifica o processo de construção de Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa como caótico: para ele, houve uma ruptura no modelo de produção da música com o qual a banda estava acostumada. “Antigamente, não precisávamos nem anunciar que estávamos com músicas novas para gravar que rapidamente surgiam inúmeros selos interessados a financiar a gravação, mesmo com um orçamento mais modesto. Até então, nunca precisamos exercitar esse lado executivo, de correr atrás de uma forma de financiar o próprio trabalho”, explica o músico em entrevista à Rolling Stone Brasil.

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Boa parte da produção ficou a cargo de Dudu Marote, o que de certa forma explica as batidas pop de algumas faixas do álbum. Inicialmente, o Mundo Livre S/A agendava as gravações com Dudu em períodos de shows na capital paulista, mas com o tempo a lentidão do processo fez com que o disco fosse finalizado em Recife. “Nos últimos dois anos, em toda a oportunidade que surgia ficávamos um ou dois dias a mais em São Paulo para gravar. Mas percebemos que estava soando meio disperso, então decidimos terminar o álbum em Recife.”

Apesar da demora para a conclusão de Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa, Fred enxerga pontos positivos. Para o vocalista, por conta do espaço de tempo maior, as canções acabaram soando mais redondas, mais maduras. “Eu não tenho o recurso erudito de cantar algo com técnica apurada, sou mais intérprete. A inflexão conta muito, o quanto você está transmitindo com aquela música, e isso você raramente consegue nas primeiras execuções. Quanto mais tempo você cantar, mais fácil é para você encontrar a melhor entonação”, explica.

Para os shows de lançamento do álbum em São Paulo, que acontecem até sábado, 10, a banda reserva surpresas. “Estamos aguardando uma confirmação de agenda da Silvia Machete. Caso ela não possa, vamos convidar alguma figura do circuito paulista, porque achamos bacana esse tipo de interação”, conta o vocalista. Ele adianta que as apresentações terão a participação do músico BNegão, que colaborou com Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa.

Download

Fred Zero Quatro enxerga a questão do download ilegal como uma grande ameaça para a profissão de músico. “Se o disco tivesse sido bancado por uma lei de incentivo estadual ou federal, ou por alguma empresa com renúncia fiscal, é lógico que seria obrigação nossa colocá-lo para download, porque teria sido o cidadão custeando nosso trabalho. Mas no momento em que consumiu anos de esforço, de produção independente, acho palhaçada chegar e dizer ‘vou disponibilizar de graça’”, afirma, enfático.

Para o músico, a partir do momento em que se assume essa postura, você contribui para a desvalorização da música. “O moleque que se acostuma a baixar centenas de arquivos todas as semanas pode acabar associando que aquilo é só mais uma porcaria que ele pode pegar de graça.”

Pernambuco

Dentre as faixas de Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa, “Ela é Indie” chama a atenção, e as referências à terra natal ganham força. Fred explica que a canção surgiu em homenagem a uma produtora local. “São pessoas muito obstinadas e apaixonadas pelo que fazem, tanto que estão bem estabelecidas hoje em dia”, afirma. “Não queríamos deixar passar batida essa ideia. Comecei a brincar com essa história das tribos locais, então foi meio que uma espécie de ‘antropologia de boteco’ para tentar mapear as tribos mais influentes de Recife.”

Outro assunto envolvendo a cidade que vem à tona é a frase “Pernambuco é a personificação do rancor”, dita por Pablo Capilé, um dos principais articuladores do Fora do Eixo, em um congresso da organização no final de 2011. Fred vê contrariedade na declaração. “Tanto o Fora do Eixo como a Abrafin [ Associação Brasileira dos Festivais Independentes] são herdeiros diretos da cena pernambucana. A própria ideia da Abrafin surgiu em uma reunião da [convenção recifense] Porto Musical”, afirma Fred.

Contrário ao discurso das duas instituições, o vocalista relata que recentemente o Mundo Livre S/A foi convidado para tocar em um festival integrante do Fora do Eixo – sem receber cachê, outra reclamação constante de bandas em relação aos festivais ligados à rede. “Apelaram de todas as formas para participarmos, mas não queriam pagar cachê. Teríamos que bancar a equipe técnica, tudo do nosso bolso”, ele revela. “É fruto dessa falsa dicotomia entre artista-estrela e artista-pedreiro. Não sei em outras regiões do país, mas aqui na minha terra o sindicato da construção civil é um dos mais combativos, vive batalhando por melhorias salariais e por condições dignas de trabalho. Todas as profissões merecem respeito. Pedreiro nenhum trabalha de graça. Quando você usa um pedreiro como parâmetro para essa situação, está chamando ele de palhaço”, encerra Fred.

Mundo Livre S/A em São Paulo

8, 9 e 10 de março (quinta, sexta e sábado) às 21h30

Choperia SESC Pompeia – Rua Clélia, 93

Classificação Indicativa: Proibido para menores de 18 anos.

Ingressos: de R$ 5,00 a R$ 20,00

Duração: 90 minutos

Lotação: 700 pessoas