Produção pensou no que agradaria a Renato Russo, diz Ísis Valverde sobre o filme Faroeste Caboclo

“É uma história muito relacionada a nós brasileiros”, complementou Fabrício Boliveira, que vive o famoso João de Santo Cristo criado na canção do Legião Urbana

Stella Rodrigues Publicado em 20/05/2013, às 14h28 - Atualizado em 29/05/2013, às 20h26

Faroeste Caboclo
Divulgação

Ísis Valverde, Fabrício Boliveira, o diretor René Sampaio e os produtores e distribuidores do filme Faroeste Caboclo se reuniram para uma entrevista coletiva de imprensa, no início da tarde desta segunda, 20.

O longa baseado na célebre canção do Legião Urbana, com estreia marcada para o próximo dia 29, traz Boliveira, em seu primeiro protagonista, na pele de João de Santo Cristo, anti-herói que sai do interior da Bahia para tentar a vida em Brasília. Ísis Valverde é a amada do rapaz, Maria Lúcia, a “mocinha fora do arquétipo”, conforme definiu a atriz. “Maria Lúcia é um personagem fábula e esses sempre seduzem o ator”, disse Ísis. “Mas são perigosos também, porque você vai com muita sede. É como uma rosa cheia de espinho que você vai pegar com vontade e fura o dedo. A gente decidiu fazer o nosso, o personagem que estava na nossa cabeça, nossa história, mais singular. Espero que tenham gostado, a gente foi fundo, se entregou”, continuou. Ela contou que havia sempre em mente durante a produção a ideia de fazer algo que agradasse ao compositor Renato Russo, caso ele ainda estivesse vivo, e que a família dele aprovasse.

Giuliano Manfredini, filho de Russo, estava presente e respondeu rasgando elogios à produção: “É verossímil, extremamente fiel, mas ao mesmo tempo autônomo, tem vida própria. Meu pai com certeza teria adorado”.

Dez filmes inspirados em canções.

Sem entregar muito sobre a trama, dizer que é “verossímil, mas autônomo” é uma boa forma de definir as escolhas feitas para adaptar os fatos ocorridos nos nove minutos de música.. “Buscamos um recorte e encontramos a história de amor sem deixar de lado os principais eventos e, principalmente, o espírito da música”, explicou René. “Não queríamos fazer um clipe, um clipe de 100 minutos é meio chato”, disse ele, rindo. “Amplificamos o sentido da história. Você fica com a essência do drama, dos personagens. Fizemos as adaptações necessárias para que essa experiência fosse completa também, para transpor para o cinema de maneira eficiente e sem perder o espírito.”

“É uma boa oportunidade e possibilidade de comunicação como artista, de levantar questões, o que é algo em que acredito como ator”, afirmou Boliveira a respeito do papel. “É um personagem parte de uma fábula de verdade, é uma história muito relacionada a nós brasileiros. Ele é um pouco do mito da construção de Brasília, de São Paulo. Essa música ainda traz discussões hoje, e é muito bom, como artista, dialogar com a poesia de outro artista, que era o Renato Russo.”

O ator ainda comentou a respeito da atualidade do tema intolerância, citando como exemplo as declarações polêmicas do deputado Marco Feliciano a respeito de negros e homossexuais. “Intolerância é uma das questões muito latentes no filme”, disse. “Tem a ver com essa dificuldade de comunicação com as diferenças. Como a gente se afina dentro das diferenças? É sobre respeitar e admirar a diferença.” O ator ainda comparou o Mito de Édipo com a forma como João tenta mudar o próprio destino da mesma forma que o personagem mítico. “Esse é o destino que foi escrito no passado, mas o que você traz de política pessoal, de escolha?”, questionou. “Fica essa questão do ser humano, o que é escolha e o que é destino?” Curiosamente, apesar do preconceito racial permear o longa, o papel nunca foi destinado necessariamente a um ator negro. René contou que Fabrício Boliveira foi escolhido pelo talento e a entrega que teve com o personagem. Só então foi realizado esse aprofundamento das questões não somente de classe social, mas também racial.

Por mais que o final trágico da história seja inevitável, essas adaptações todas garantem algumas boas surpresas no filme. “O drama que a gente buscou foi chegar ao duelo final. A música respeita a métrica e a gente respeita esse drama”, explicou o diretor. “Criamos os eventos na ordem correta para o filme, não para a música.”