Demolidor: nova temporada tem quê de Familía Soprano, diz showrunner

Conversamos com equipe e elenco no set da série, em Nova York

Bruna Veloso Publicado em 16/10/2018, às 12h09

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Divulgação/ Netflix

Atenção: o texto abaixo tem spoilers de Os Defensores e das temporadas anteriores de Demolidor

Charlie Cox finaliza a entrevista com um grupo de jornalistas da América Latina pedindo que um deles entregue a Joanne Whalley, a próxima entrevistada, um DVD de um filme de qualidade duvidosa, cuja história é centrada em cães da raça chihuahua. “Ela vai entender”, ele ri. Estamos em uma sala que se assemelha a um depósito de materiais de escritório, com cadeiras bastante usadas, uma mesa e armários, em um complexo de estúdios onde são filmadas as séries dos quatro Defensores da editora Marvel, produzidas em parceria com a Netflix (além de Demolidor, protagonizada por Cox, há ainda Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro). Os dois atores britânicos desenvolveram uma brincadeira de tentar empurrar um para o outro, de variadas maneiras, o tal DVD.

O clima é leve e de camaradagem, mas só por trás das câmeras, já que a terceira temporada de Demolidor, que estreia na Netflix em 19 de outubro, promete ser a mais sombria – possivelmente a mais sombria entre todos os programas-solo de cada um dos heróis dos Defensores. No final da série conjunta (que se passa após a segunda temporada de Demolidor), Matt Murdock fica em péssimas condições físicas. Enquanto os amigos Karen Page (que também é interesse romântico de Murdock, vivida por Deborah Ann Woll) e Foggy Nelson (Elden Henson) acreditam que o advogado/herói vigilante morreu, ele se refugia em um convento para tratar não apenas das feridas físicas, mas também das psicológicas. Quem o apoia nesse momento é a irmã Maggie, papel de Joanne.

“Uma coisa da qual gosto nela é essa humanidade”, afirma a atriz sobre a personagem, que apareceu pela primeira vez no final de Defensores. Maggie era freira no orfanato onde Matt Murdock cresceu. “Ela tem falhas e luta com elas de uma maneira verdadeira. Se esforça para fazer o que é certo. Não é simplesmente uma freira, vemos vários lados dela.”

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Segundo Erik Oleson, novo showrunner da série, a ideia era, de fato, mostrar vários aspectos de diversos personagens, principalmente de Foggy e Karen. “Estava bem interessado em apresentar as motivações por trás dos dois, em especial da Karen, mostrá-la como ser humano”, afirma Oleson via videoconferência (estamos no mês de março, e enquanto assistimos às gravações de uma cena do nono episódio em Nova York, Oleson trabalha no roteiro do décimo, em Los Angeles). “Descrevo os novos episódios como sendo algo entre Família Soprano e a primeira temporada de Demolidor”, afirma. Outra novidade é a intenção de fazer com o que o telespectador se sinta na pele dos personagens. “O que passei para a equipe e para os atores é que queria algo menos observacional, e mais no sentido da experiência. Não quero apenas assistir ao que acontece sem que haja uma ligação emocional.”

Nas gravações, vemos o Demolidor tateando na penumbra pelo set no qual é ambientado o apartamento de Wilson Fisk. Não dá para saber o contexto, mas uma coisa salta aos olhos: o herói não está usando seu característico uniforme. “No começo dessa temporada ele não tem a roupa, então volta para algo mais parecido com o que tinha no início da primeira, feito por ele mesmo. Ele está morando em um convento, então esses tecidos vêm de roupas de freiras, nas cores preto e creme. O formato é como uma bandagem sobre a cabeça, amarrada atrás. Mais para o final da temporada adicionamos um elemento bem legal, algo completamente novo”, conta Liz Vastola, designer de figurinos (ela também trabalhou em Jessica Jones).

Além do figurino, há outra mudança crucial: a fé católica de Matt Murdock está abalada. “É uma coisa para a qual ele virou as costas”, revela Joanne. “No começo ele não está interessado em reencontrar sua fé, mas é forçado a questionar isso. Eu sou um lembrete para ele sobre o que é a fé.” É curioso pensar na mudança em relação ao Matt Murdock da segunda temporada, que em boa parte do tempo manteve uma inabalável crença de que poderia fazer Elektra (papel de Elodie Yung) se regenerar.

“No começo das gravações, tive conversas de até três horas com Erik, nas quais tentei entender como tudo o que aconteceu até o fim de Defensores afetou Matt”, diz Charlie Cox. “Como tudo impactou ele como pessoa, a atitude dele em relação a si mesmo, em relação a Deus e em relação às pessoas em sua vida.”

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Wilson Fisk sentimental

Quem também passa por mudanças profundas é o vilão Wilson Fisk, interpretado com maestria por Vincent D’Onofrio. “Ele está definitivamente mais emotivo. Essa temporada tem uma história mais intrincada. Wilson não é mais motivado apenas por si mesmo; ele agora se preocupa com a própria vida, e sente a falta de Vanessa”, explica D’Onofrio. “Emocionalmente, uma grande transição acontece dentro de Wilson. Isso afeta a imagem dele de um jeito que vai fazer as pessoas pirarem.” Na busca por voltar à companhia da amada Vanessa, Wilson Fisk se torna um delator e negocia com o FBI a troca de informações por sua liberdade.

Uma das características mais emblemáticas de Fisk, além do porte corpulento e da atitude extremamente bruta em alguns momentos, suave em outros, é a voz. Fora do personagem, D’Onofrio fala tranquilamente, às vezes até em um volume menor do que se esperaria do intérprete de um personagem como Fisk. Mas ele explica que foi justamente a alteração de seu modo natural de falar que o ajudou a compor o personagem. “Alguns meses antes de começarmos a primeira temporada, houve um acontecimento na minha vida – que não vou contar aqui – que eu trazia à tona”, conta. “Achei um meio de fazer um som para representar esse evento, um som gutural que saía da maneira mais honesta possível. E então comecei a falar daquela maneira. Foi assim que achei a voz de Fisk.”

 

Medo como combustível

Erik Oleson chegou a Demolidor com a ideia de explorar um tema central: o medo. “O fato de que esse herói é ‘o homem sem medo’ faz desse um caminho bem interessante”, afirma. “É a ideia de que se não confrontarmos nossos medos, eles são capazes de nos paralisar. São decisivos no modo como nos comportamos, no modo como agimos e como nos relacionamos com o mundo. A não ser que os enfrentemos, esses menos nos debilitam. A liberdade só existe quando você conquista seus medos.”

De maneira mais subliminar, o medo marca um novo personagem, o agente do FBI Ray Nadeem, interpretado por Jay Ali. Nadeem é descrito como um homem correto, mas ambicioso, já que é pai e passou por dificuldades financeiras no passado. Ele também ajudou a custear o tratamento de quimioterapia da irmã. Nesse caso, o medo é o de não poder prover para a família. “Essa temporada tem muito do ponto de vista dele”, conta Ali. “Nadeem meio que representa o trabalhador honesto, o homem comum, e como o poder e pessoas no poder podem tirar vantagem de homens como ele. Acho que tem a ver com o que acontece no mundo hoje e acredito que muitas pessoas poderão se identificar.” É esse agente quem negocia as delações de Wilson Fisk.

Ação de ponta e inspiração nas HQs

Segundo Oleson, há cenas de ação que “vão deixar os fãs boquiabertos”. “Uma das coisas que eu deixei claro quando entrei para o programa era que não queria ação pela ação. Tinha que haver coisas reais em jogo”, explica o showrunner. “E há lutas nessa temporada que Matt não irá ganhar. Como espectador, não me interesso por ação se já sei o resultado daquela cena antes mesmo de ela começar.” Além de Fisk, o Demolidor irá enfrentar o Mercenário, interpretado por Wilson Bethel.

 

Meses atrás, quando começou a se especular sobre como seria a terceira temporada, além da possibilidade da aparição do Mercenário, muito se falou sobre semelhanças com A Queda de Murdock (Born Again), história clássica dos quadrinhos do Demolidor criada por Frank Miller. Oleson confirma a inspiração, mas apenas parcialmente. “Haverá momentos nesta temporada que as pessoas vão ver e falar ‘oh, isso aconteceu na HQ e eles incrementaram’. Mas, em primeiro lugar, a TV é um meio completamente diferente da HQ. Em segundo, quero dar ao público o que ele quer, mas não da maneira que ele espera. Eu quero surpreender.”