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Dez anos de “Triunfo”: Emicida reuniu agressividade das batalhas e fome de vitória para dar seu primeiro recado

Estúdio “emprestado”, sample de “bang bang italiano”, pulseirinha de enforca-gato’ e até ameaça de morte: a história por trás do single que lançou o rapper no cenário musical

Lucas Brêda Publicado em 06/04/2018, às 11h07 - Atualizado às 11h23

Emicida em 2008

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“É da ‘Triunfo’ também!”, Emicida nota que mais um verso – o terceiro seguido – lembrado na conversa com a Rolling Stone Brasil vem da música considerada marco inicial da carreira do MC, lançada exatamente dez anos antes do dia da entrevista, realizada em março. Emicida está sentado em sua sala no mezanino da Laboratório Fantasma, o selo, produtora e marca de roupa que ele comanda com o irmão, Evandro Fióti, e aponta para um quadro temático de “Triunfo”, pendurado na parede à sua frente. “Tem um parceiro meu que fala um bagulho louco: a ‘Triunfo’ define a essência, o modus operandi e a forma de ver o mundo da Laboratório Fantasma. É o nosso primeiro manifesto.”

A data é tema do filme/disco ao vivo 10 Anos de Triunfo, que registra um show do rapper gravado em São Paulo, em novembro – com presença de parceiros musicais como Pitty, Karol Conka, Caetano Veloso, Vanessa da Mata e Guimê – e que sai este mês. O lançamento marca a década em que Emicida foi de garoto sonhador a um dos principais artistas do país nos anos 2010. “O rap estava numa coisa ‘meio morta meio viva’, respirando por aparelhos, muito mano desistindo”, ele recorda de 2008, época pós-morte de Sabotage (2003), quando o hip-hop nacional enfrentava dificuldades (mesmo período em que Criolo chegou a desistir da carreira, por exemplo). “E nós também. Era assim: de hoje não passa, vou fazer só esse bagulho para encerrar a parada. Não tinha horizonte. A gente cantava sobre uma confiança que nem tinha. Quando lançamos ‘Triunfo’, a desconfiança se dissipou.”

O lançamento aconteceu com um show em um clube “duas ruas atrás” da Avenida Paulista. Poucos dias antes do evento, o dono do clube disse que havia “começado uma reforma” e pediu ao rapper para adiar em “uma semaninha” a apresentação. “A gente já tinha espalhado que seria naquela data, se mudasse, fodeu”, recorda Emicida, que teve de “juntar os moleques” para ameaçar de morte o dono do local. “Nós não matava ninguém, mas ele não sabia [risos]. Aí acelerou o bagulho, ajudamos a terminar a reforma e as pessoas foram num pico com tinta fresca”. Segundo a memória do MC, foram 294 (de 300 possíveis) presentes naquele sábado, mas os 300 CDs – “com capa de envelope amarelo de carta” – de “Triunfo” foram todos vendidos. “Queríamos fazer umas pulseirinhas, para ficar chique, mas não sabíamos. Aí compramos aqueles ‘enforca-gato’, sabe? Puta irmão, as pessoas entravam, a gente colocava aquilo no braço, dava dez minutos elas voltavam com a mão roxa.”

Pouco antes de gravar “Triunfo”, Emicida já era conhecido, principalmente das batalhas, mas ainda trabalhava de pedreiro com o padrasto. “Era bizarro, porque eu estava lá carregando concreto e passava um mano: ‘Caralho, mano, você arregaçou na Liga [dos MCs, vencida por ele em 2006], o maluco é o maior do Brasil’. Os caras que trabalhavam comigo não entendiam nada”, ri. As coisas começaram a mudar com “Triunfo” e a subsequente mixtape Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe…, do ano seguinte. A faixa foi gravada no estúdio do produtor Felipe Vassão, a partir das experimentações de Emicida com samples de jazz em um MPC60. “Gravava em disquete, mas no estúdio já não lia aquele formato e eu não tinha computador para descarregar”, o rapper conta que encontrou o produtor apenas para pedir um horário vago e descarregar a base que tinha feito. “Já tinha umas viradas, mas era mais jazz, mais pra baixo. Aí o Felipão abriu a porta, ouviu o barato e falou: ‘Louco isso aí, dá para mexer’. Passou um tempo e ele me ligou. Mano, quando eu ouvi o bagulho, caí pra trás”. A introdução só depois veio de um vinil chamado O Melhor do Bang Bang à Italiana, com “uns barulhos de caubói, uns metais…”

Clássico contemporâneo do rap nacional, “Triunfo” veio como um tiroteio em forma de poesia, cada rima como um disparo, carregada da agressividade das batalhas e exalando a fome de vitória de um jovem Emicida. “Tinha que parecer uma briga mesmo, era ‘punchline’ o tempo inteiro, que foi uma coisa que virou a minha cara”, analisa. “Saiu [o recém-lançado single em homenagem ao filme] ‘Pantera Negra’ e os caras: ‘Ô, o antigo Emicida’ [risos]. Não vou repetir aquilo o resto da vida. Mas, naquela época, era o que nós tinha. A música tinha que parecer uma pá de soco. Tinha nem refrão, foi o Felipão que comeu minha mente para pôr refrão. Eu falava que era bagulho de vendido [risos]. Pula para dez anos depois, o cara cantando ‘Passarinhos’.”

Abaixo, assista ao vídeo de "Triunfo" presente em 10 Anos de Triunfo e, abaixo, a versão original da música.