Do Inferno à Babilônia

Veteranos do Skatalites fazem show repleto de sucessos em São Paulo

Por Artur Tavares Publicado em 08/04/2008, às 10h22 - Atualizado em 09/04/2008, às 11h36

A primeira noite da turnê do Skatalites no país lotou a casa paulistana Inferno. Por duas horas, três dos membros originais do grupo (que já passam dos 70 anos de idade), além de outros seis músicos que fazem parte de uma nova formação, fizeram um público na média dos seus vinte e poucos anos dançar como se fosse a última noite de suas vidas.

Os precursores da música jamaicana não mostraram repertório muito diferente da última passagem pela América Latina (a primeira vez que passaram pelo Brasil), abrindo a apresentação com "Freedom Sounds". O Inferno (os trocadilhos são inevitáveis) esquentava a cada música. Na terceira, o tema da série de filmes 007, o calor já estava insuportável, enquanto a pista de dança parecia estar apenas se aquecendo.

Em "Eastern Standard Time", a quinta canção da apresentação, antecipou "El Pussycat", embalada logo em seguida, primeira que fez o público entrar completamente no clima dos jamaicanos. Foi a primeira canção em que todo mundo da casa acompanhou com a voz os metais do grupo.

Neste momento da apresentação, já estava mais do que claro que a banda gostava de conversar com o público, principalmente seu líder, o saxofonista Lester Sterling, que anunciava o nome de todas as canções, e que foi o primeiro a levantar uma pequena bandeira do Brasil.

Passados aproximadamente quarenta minutos, as músicas instrumentais do Skatalites abriram espaço para a cantora Doreen Shaffer (uma das três integrantes originais do grupo, além de Sterling e Lloyd Knibb). A carismática senhora fez o público entrar de vez em catarse cantando "Can't You See". Foi só a primeira canção de sua participação, que se estendeu por uma hora.

Logo veio "Sugar, Sugar". Shaffer esbanjou carisma, e sua voz suave, combinada com a cozinha e os metais da banda, marcaram o ponto alto da apresentação, e encantaram o público.

Quando deixou o palco, Shaffer cedeu aos músicos espaço para tocar por aproximadamente meia hora. Foi quando o Skatalites embalou "Latin Goes Ska" e "Rockfort Rock Medley", que tiraram todo o público do chão.

Foi só após 1h40 de apresentação que o grupo tocou "Guns of Navarone", o maior expoente do ska, e grande sucesso do Skatalites. Durante mais de seis minutos, o mundo fora do espaço na rua com maior tradição em casas noturnas de São Paulo pareceu não existir.

O Skatalites encerrou a apresentação com "Rivers of Babylon", mas voltou para o bis. Apresentou mais uma música e voltou a tocar "Freedom Sounds". Fez contagem regressiva, e após dez segundos, tanto os integrantes do grupo como o público gritaram em uníssono: "Freedom" (liberdade). E foi assim que, por duas horas, o Inferno se transformou na Terra Santa de Jah, a Babilônia.