Documentário passa a limpo a polêmica em torno de Wilson Simonal

Wilson Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei retoma a história de um dos músicos mais populares que o Brasil já teve; "Errar faz parte da essência humana", diz Max de Castro, filho do cantor acusado de "dedo-duro da ditadura"

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 30/11/2009, às 11h26

Wilson Simonal costumava ser o Pelé das rádios. Mas acabou chutado para as últimas divisões da música brasileira.

Na década de 1960, fez e aconteceu: regeu um coro de 30 mil pessoas no Maracanãzinho, estádio do Rio de Janeiro, com o sucesso "Meu Limão, Meu Limoeiro", levou com um pé nas costas dueto com a sempre intimidante diva do jazz Sarah Vaughan (veja o vídeo aqui) e gozou de popularidade que só encontrava rival à de Roberto Carlos.

A partir dos anos 70, no entanto, sua carreira desancou ladeira abaixo. E desceu o fundo do poço. Lá ficou até a morte do cantor, em 2000, aos 62 anos. Em 1971, um episódio nefasto, que lhe salpicou com a pecha de "dedo-duro da ditadura", fez com que a breve menção de seu nome disparasse sirenes entre a classe artística. Outrora amado pelas massas, encontrou o fim da linha justamente quando todo um novelo de sucessos ainda estava para se desenrolar à sua frente.

Com estreia hoje nos cinemas brasileiros, o documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei, codirigido por Cláudio Manoel (sim, o "Seu Creysson" de Casseta e Planeta), Micael Langer e Calvito Leal, quer ver essa história passada a limpo - e não em nuvens brancas. E, em 84 minutos, vai atrás do vespeiro que, por quase quatro décadas, ninguém fez questão de cutucar. Seja para ver se dali saía o mel de um dos músicos mais populares que o país já teve, seja para encontrar o fel de um colaborador do regime militar, num momento em que vários artistas iam parar no saguão do aeroporto, rumo ao exílio, ou, pior, nos porões do DOPS, o temível Departamento de Ordem Política e Social.

Leia a resenha do filme, publicada na edição de maio da Rolling Stone Brasil.

Pai dos também músicos Max de Castro e Simoninha, o cantor foi comentado, no filme, por detratores da época, como Ziraldo, Sérgio Cabral e Jaguar - todos do histórico jornal O Pasquim, famoso por jogar política e sátira na mesma panela. Entre esses, há quem faça mea culpa. Já Boni, então chefão da Rede Globo, confessa que o cantor chegara a ser boicotado na emissora. Simonal pegava mal, com o perdão da rima. Do outro lado, foi lambuzado de elogios por Pelé, Nelson Motta e Chico Anysio - que viu a queda do típico "boa-praça" carioca como fruto "de um tempo de intolerância".

A acusação de ser informante do SNI (Serviço Nacional de Informações) começou quando Simonal quis dar basta a uma coceira chatinha: desconfiava que seu contador estava o passando para trás. O músico, que - hoje a tese mais difundida - não bambeava nem para a direita, nem para a esquerda, tinha uns camaradas no DOPS. Mandou os amigos irem lá "dar uma coça" no sujeito. Entrevistado pelos documentaristas, o contador, hoje recluso, negou a denúncia - alegou ter inventado a confissão só para despistar dos miitares.

Daí para Simonal ser acusado de entregar diversos colegas da classe artística foi um pulo. E a queda foi feia. Em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil, Max de Castro lamenta "pelas coisas que aconteceram como aconteceram". Mas diz que seu pai dançou no tribunal histórico sem ter qualquer direito de se defender. "Ele acabou sendo vítima do processo." Mas e quanto à fatídica noite de 24 de agosto de 1971, quando agentes do DOPS estacionaram o Opala do artista à porta da casa do chefe de escritório Raphael Viviani? "A atitude que ele tomou naquele momento..." Do outro lado da linha, uma pausa. Breve. "A gente tem que entender que todo ser humano erra. Errar faz parte da essência humana." Max também não teve vontade alguma de encarar o pivô do baque do pai. "Não tenho nenhum vínculo emocional."

A tese do filme é clara: seja pela ingenuidade, alienação ou pleno desinteresse, Simonal não ligava para política. Sua vida não era . Definitivamente, ele não fazia, sequer o desejava, parte da intelligentzia carioca. Sua boemia era suburbana - e com orgulho. Para ele, as coisas se resolviam no braço, "entre homens", mas isso não quer dizer que ele correspondeu à fama de "dedo-duro" que tanto o assombrou.

O documentário não dá um ponto final no caso, mas abre o capítulo de um livro que por muito tempo o Brasil tentou esconder na prateleira mais alta, da estante mais afastada. Mais do que ir atrás dosporquês, é interessante desvendar como o Brasil conseguiu despachar "para a Sibéria" (termo usado pelo já falecido jornalista Artur da Távola) um artista tão onipresente nos anos 1960?

O assunto não era muito tocado na casa dos Simonal, "pois éramos pequenos para entender", disse Max. Mas o músico lembra de que a família teve de deixar Ipanema ("coração da intelligentzia carioca; onde o clima era muito hostil") para "fugir das perseguições". Acabaram se mudando para São Paulo, em parte para aliviar "os problemas emocionais que minha mãe teve".

Além do documentário, no que já vem sendo chamado de "ano Simonal", está para sair uma caixa com nove álbuns feitos entre 1961 e 1971 e a biografia Nem Vem Que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, do jornalista Ricardo Alexandre. Vem a calhar: para Max, os 84 minutos de fita não teriam como dar conta de tanta história. "Assistindo ao documentário, parece que todo sucesso de meu pai aconteceu da noite para o dia. O livro vai contar a infância pobre do Simonal, de como ele saiu da condição de ser filho de empregada doméstica para virar um astro. Desde shows em boates, para público de 40 pessoas, ou quando ele estreou no Beco das Garrafas (famoso pico da boemia carioca da época, em Copacaba) até os 30 mil do Maracanãzinho."

O autor de "Nem Vem Que Não Tem", para o filho, deixou seu legado, ainda que "muita gente - principalmente os que nasceram dos anos 1970 para cá - não pudesse nomear, reconhecer a referência". Djavan, por exemplo, começou cantando o repertório de Simonal em bares de Alagoas. "O próprio Luiz Melodia chegou para mim, em uma pré-estreia (do doc) no Rio, e disse que foi influenciado por meu pai, no início da carreira. Mas de repente alguns músicos sacaram que talvez não fosse tão bacana citar meu pai como referência. Isso poderia queimar o filme do cara."

A iniciativa de Cláudio Manoel em levar o filme adiante foi, ainda hoje, um ato corajoso, afirma Max. Desde a primeira reunião, em 2001, muita gente tentou murchar o projeto. E não só antigos difamadores do cantor. "Mesmo amigos de Simonal, que temiam o tipo de abordagem que seria feita. Cláudio acabou vendendo o apartamento (para realizar a obra). Foi algo tipo, 'mexeram no meu brio, agora eu vou fazer de qualquer jeito!'", contou Max.

Para o músico, nascido um ano depois do malfadado capítulo da história da MPB, "o que mais me saltou aos olhos foi a questão de Simonal ser o primeiro popstar negro do país". Ele continua: "outro dia mesmo, um repórter negro veio me entrevistar. Eu cheguei e disse: 'Bom, em 1967, meu pai tinha um programa no horário nobre da Record, a líder da época. E hoje? Que artista negro tem isso?'. O cara ficou sem resposta."