"É preciso inventar parte da realidade para que o resultado não seja chato", diz o diretor de Saint Laurent

Longa é o indicado da França para a disputa do Oscar de Filme Estrangeiro em 2015

Renata D'Elia Publicado em 21/11/2014, às 12h25 - Atualizado às 15h28

O cineasta Bertrand Bonello
AP/Luca Bruno

O cineasta Bertrand Bonello, de 48 anos, experimenta o sucesso internacional com a cinebiografia que dirigiu sobre o estilista Yves Saint Laurent. O filme, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, caiu nas graças dos críticos franceses, que o escolheram como representante do país na disputa do Oscar de Filme Estrangeiro em 2015.

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Saint Laurent atraiu a oposição imediata de Pierre Bergé, ex-companheiro e sócio do estilista, que, por sua vez, apoiou o concorrente Yves Saint Laurent, produção bem-comportada de Jalil Lespert, rodada quase simultaneamente. Dono de uma obra marcada por temas transgressores como em O Pornógrafo (2001) e L’Apollonide – A Casa de Tolerância (2011), Bonello escolhe o período mais louco e brilhante do cineasta francês para traçar uma narrativa delirante entre o mundo do erotismo, das drogas e da beleza.

O diretor conversou com o site da revista Rolling Stone Brasil durante a última edição da São Paulo Fashion Week. O filme chegou aos cinemas nacionais no último dia 13 de novembro.

Doze escândalos do mundo da moda.

Como surgiu a ideia de filmar a cinebiografia e como você escolheu um período da vida de Yves Saint Laurent para retratar no cinema?

De fato, é um bocado diferente dos meus filmes anteriores. Quando fui convidado pelos produtores, percebi que tinha um excelente material para criar. Não havia exigências sobre roteiro, nem livros para me basear. Fui livre para criar uma obra pessoal. Estes são os anos mais loucos, criativos e interessantes de Saint Laurent, do jovem designer ao estilista maduro, dando mostras do império que tudo aquilo iria se tornar. O estilo que ele cria naquele momento reflete a riqueza das mudanças culturais da França e do mundo naquele momento. Para além do estilo, ele foi um pioneiro do branding, avançou por áreas análogas à moda como o licenciamento de perfumes da marca. Foi um inovador e o primeiro a colocar modelos negras para protagonizar desfiles.

Você se identifica com esse período em particular? Algo que desperta certa curiosidade dentro do filme é a leitura da correspondência entre Yves Saint Laurent e Andy Warhol, ainda no fim dos anos 1960, em tempos de efervescência cultural e transgressão.

Sim, definitivamente. E essa passagem, na verdade, foi inventada. Yves e Andy de fato se conheceram, foram muito próximos naquele momento e se encontraram várias vezes em Nova York e em Paris. Os retratos que Andy fez de Yves são dessa época. Mas nunca li nenhuma carta trocada por eles. Foi apenas minha maneira de mostrar que Yves era uma estrela sem recorrer a recursos clichês como fotos e manchetes de jornais. Naquela correspondência, tudo está dito. Há muita ficção neste filme, mas sempre partimos de fatos reais. É preciso inventar um pouco de realidade para que o resultado não seja chato.

Modelos que conseguiram se estabelecer em outras áreas do entretenimento.

Uma das pérolas do filme é a relação de carinho, apego e obsessão de Yves com o cachorro de estimação, Moujik, mesmo em meio à loucura desenfreada das drogas.

Ele realmente teve quatro cachorros idênticos chamados Moujik. São buldogues franceses. Isso é extremamente relevante e mostra parte de sua loucura, de seu perfeccionismo. Mas eu também usei da realidade para fazer uma pequena ficção. Fui eu que inventei a morte do primeiro Moujik por overdose [ao comer acidentalmente algumas pílulas jogadas no chão durante uma noitada do protagonista], aquilo não aconteceu de verdade. Já a imagem de Yves idoso, alimentando Moujik IV com caviar dentro de sua mansão é, para mim, um retrato fidedigno da solidão.

A trilha sonora é bastante arrojada. Vai de ópera a Velvet Underground, passando pela música negra norte-americana dos anos 1970, além de composições suas.

O som do filme é tão importante que costumo pensar na trilha sonora desde a concepção dos roteiros. As cenas não estão completas até a inserção das músicas. Componho e gravo a maioria das minhas músicas, especificamente, para algumas cenas. Desta vez eu quis que toda a trilha fosse componente dos cenários, como se Yves, de fato, as estivesse ouvindo em sua sala de criação, nos desfiles, nas pistas de dança, em sua casa. Gosto de colocar personagens e espectadores no mesmo nível de experiência e sentimentos sobre a música. Maria Callas era uma espécie de deusa para Yves e procurei respeitar essa característica dele, além de tocar a trilha sonora mais marcante da época, com muita soul music e rock de vanguarda.

Filmes que retratam o mundo da moda.

O filme é o indicado oficial da França para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015, mas houve alguns problemas legais com Pierre Bergé. Você quis fazer um filme provocativo?

A questão não é provocação, mas liberdade artística. Bergé tentou proibir o filme antes de conhecer o roteiro. Fui notificado pelos advogados dele durante as filmagens, em uma clara tentativa de controle. Como não recuamos e a obra acabou ganhando muita repercussão após o Festival de Cannes, ele resolveu desistir de nos processar e acabou me desejando boa sorte. Mas eu não revelei nada secreto ou exatamente provocativo sobre Yves neste filme. E ainda falta percorrer um longo caminho até o Oscar.