Eagles of Death Metal volta para Paris com show roqueiro e catártico

"Agora sou parisiense", disse o vocalista Jesse Hughes durante a apresentação, que contou com Josh Homme na bateria

Talia Soghomonian Publicado em 17/02/2016, às 13h13 - Atualizado às 14h15

Eagles of Death Metal
Jean-Nicolas Guillo/AP

“Mal posso esperar para voltar para Paris”, disse o vocalista do Eagles of Death Metal, Jesse Hughes, em uma entrevista no fim de novembro, algumas semanas depois de um show da banda clube Bataclan ter sido interrompido por um ataque terrorista que matou 90 pessoas. Depois de um aquecimento cantando duas faixas em uma apresentação do U2 em dezembro, e após ter iniciado a turnê Nos Amis em Estocolmo, no último sábado, 13, a banda deu continuidade a seu giro mundial, que inclui vinda ao Brasil para o Lollapalooza, em março, no renomado Olympia, em Paris, na última terça, 16. O evento histórico foi carreado de emoção, catarse e rock.

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Cerca de 900 sobreviventes daquela noite estavam lá para a apresentação (vítimas e parentes de vítimas foram convidados para entrar de graça), alguns deles ainda se recuperando de ferimentos físicos e a maioria ainda tentando lidar com a mistura de emoções, com medo de entrar em surto e reviver a noite de 13 de novembro.

Ainda assim, foram corajosos o suficiente para irem até lá para tentar criar novas memórias e imagens mentais que ajudassem no processo de cura. O fato de o show não ter sido realizado no Bataclan, que continuará fechado até o fim do ano, certamente foi algo que facilitou o processo, assim como a presença de um time de psicólogos a postos para auxiliar os sobreviventes a lidar com possíveis crises de pânico desencadeadas ao relembrar aquela noite traumática. Muitos dos sobreviventes optaram por assistir ao show posicionados perto das saídas.

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Tendo perdido alguém no Bataclan, eu também estava apreensiva no início. Não era cedo demais para a banda terminar o show do Bataclan? Mas se meus amigos sobreviventes, inclusive um fotógrafo que tomou um tiro, estavam sendo corajosos o suficiente para ir (e, conforme soube depois, aproveitar a apresentação), então eu não tinha o direito de ser dominada pela preocupação.

Aliás, o Olympia era o lugar mais seguro onde se poderia estar em Paris na noite de terça, 16. O esquema de segurança estava tão forte que poderia começar uma guerra do lado de fora e ainda nos sentiríamos seguros do lado de dentro. Um grande perímetro em volta do local estava isolado por policiais armados e havia pelos menos quatro pontos de revista dentro e fora, com detectores de metal e revistas pessoais. Uma vez lá dentro, uma mulher distribuindo abraços estava pronta para nos receber de braços abertos.

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O duo austríaco White Miles, que havia aberto para o EODM naquela noite fatídica e cujo vocalista se machucou no ataque, novamente apoiou a banda da Califórnia nessa nova oportunidade. O local estava cheio e o espírito das pessoas fez com que a ocasião fosse menos sombria do que eu esperava. Mas ninguém estava totalmente curado, as emoções confusas circularam tanto quanto a cerveja.

Às 21h11, Jesse Hughes, usando uma capa vermelha, entrou em cena enquanto a icônica faixa "Il Est Cinq Heures, Paris S'éveille" (“São cinco horas, Paris acorda”) saía das caixas de som, uma escolha simbólica de uma música a respeito de começar um novo dia. Foram dois minutos de bastante crueza, uma mistura estranha de tristeza e alívio, e a certeza de que a vida ficou menos inocente e mais vulnerável depois de 13 de novembro, assim como aconteceu logo depois do 11 de setembro. A banda foi aplaudida durante todo o tempo de execução da faixa de 1968, com Hughes mandando beijos e acenando para a plateia antes de começar a tocar “I Only Want You”.

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“O Elvis está aqui!”, se animou um fã, falando sobre o cofundador do EODM, Josh Homme. O Elvis Ruivo, como ele costuma ser chamado, geralmente não viaja com a banda, mas estava na bateria com Julian Dorio. O grupo fez uma pausa no meio da música quando Jesse Hughes pediu “60 segundos de silêncio, por favor, vamos parar um minuto para lembrar. Depois podemos voltar a nos divertir”. Isso deu o tom da noite, ele prometeu um show de rock e era isso que Paris ia ganhar.

Durante “Don't Speak (I Came to Make a Bang)”, a banda mandou ver para seus amis, nem todos eles parisienses. Algumas pessoas viajaram da outra ponta do país. Antes de “Bag o' Miracles”, Hughes fez uma declaração de amor, uma das muitas da noite: “Eu amo tanto todos vocês, estou muito feliz de vê-los hoje.”

É como ir a uma missa em vez de um show. Hughes sabe como animar os fãs, é como um televangelista. “Gente, estamos aqui para nos divertir hoje. Ninguém vai nos parar. Posso ouvir um amém?”, ele grita com seu sotaque sulista. As referências dele ao ataque terrorista foram discretas e respeitosas. Ele não estava lá para abrir feridas ou fazer discursos políticos, mas sim para oferecer catarse por meio de diversão e uma performance energética e infatigável. E muito amor e rock.

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“Quero propor um brinde. Vejo um lugar cheio de vencedores, nos amis. Eu amo vocês o tempo todo”, disse. Foi a deixa para todo mundo cantar junto “I Love You All the Time”, que se tornou uma espécie de hino para os parisienses encararem o medo e as atrocidades com amor.

Hughes também mostrou seu amor usando um cachecol com as cores da bandeira francesa que foi tricotado por um fã. “Eu quero identificar quem fez esse cachecol lindo. Seja quem for, quero te dar um chocolate quente e um abraço depois do show”. Quando a banda se preparou para tocar “Silverlake (K.S.O.F.M.)”, com Josh Homme contribuindo com vocais, Hughes fez um acordo: “Esse é um momento emocionante para mim, então se der merda com a minha voz, não fiquem bravos comigo.”

Baterista do EODM relembrou o “inimaginável” ataque em Paris.

O grupo tirou “Kiss the Devil” do setlist, faixa que não vão tocar por um bom tempo, já que ela marca o momento no qual o Bataclan foi atacado e ainda assombra os sobreviventes. O chão tremeu com “Got a Woman”. A banda pareceu inspirada, usando a música como ferramenta de inspiração em massa para os fãs feridos.

As homenagens não pararam: “Secret Plans” foi dedicada a Nick Alexander, que estava vendendo produtos da banda no Bataclan e foi morto no ataque, e “Wannabe in L.A.” virou “Wannabe in Paris”.

Quando o show acabou, o público foi ficando impaciente, esperando o bis por seis minutos, todos começaram a cantar a música do White Stripes “Seven Nation Army”, algo que é tradição em shows de Paris. Jesse Hughes retornou sozinho e foi ovacionado como nunca. E quando ele ergueu sua guitarra Bleu Blanc Rouge, a multidão enlouqueceu. “Vocês não vão mais se livrar de mim. Agora sou parisiense”, disse.

Em dezembro, os integrantes do EODM voltaram ao Bataclan para homenagear vítimas.

Antes de continuar, ele virou uma bebida. “Será um milagre se eu conseguir sair do palco hoje, estou muito bêbado”. Ele pareceu estar afogando as emoções no álcool para continuar forte perante uma plateia muito especial. Então, pediu uma sugestão de música e, antes de começar a tocar, explicou que arrebentou um tendão do dedo do meio, portanto estava nervoso. “Se eu cagar tudo, me perdoem”, disse. O dedo do meio funcionou muito bem e ele fez uma cover, totalmente sozinho, do clássico dos Rolling Stones, “Brown Sugar”.

Quando o resto da banda se juntou a ele, o público cantou junto com a visceral performance da já tradicional versão do EODM para “Save a Prayer” (Duran Duran). Talvez tenha sido o momento mais carregado de emoções da apresentação (o Duran Duran estava em Paris na noite do ataque e ia encontrar o grupo no pós-show no Bataclan).

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Mais do que cumprir a promessa que fez a Paris, o Eagles of Death Metal fez um retorno triunfante e frenético, certamente foi a melhor terapia de duas horas que poderíamos ter pedido. Eles retomaram o palco e os sobreviventes retomaram parte de suas vidas.

Ao ver o nome da banda na marquise, do lado de fora, um sobrevivente do Bataclan comentou: “Finalmente teremos nossa vingança”. Isso basicamente resumiu o sentimento geral. Essa é a França, afinal de contas, um país que é sinônimo de estilo e revolução. Isso ninguém pode nos tirar. E na noite de terça, 16, o EODM nos lembrou disso e deu a todos uma fagulha de esperança. Conforme disse Jesse Hughes quase no fim: “Espero que todos estejam se divertindo tanto quanto eu. Estava precisando disso”. Todos estávamos.