Elisete Cardoso - Uma Vida

Leia o primeiro capítulo, No Tempo de Tia Ciata, da biografia da cantora, escrita por Sérgio Cabral, com relançamento oficial nesta sexta-feira, 7

Redação Publicado em 07/05/2010, às 12h18

<i>Elisete Cardoso - Uma Vida</i>, relançamento da primeira edição de Sérgio Cabral, lançada há 20 anos
Divulgação

No show que reuniu, na noite de 19 de fevereiro de 1968, Elisete Cardoso, Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro no palco do Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, Jacob estava muito emocionado. Quando o público fez coro para o samba Barracão (Luís Antônio) - uma música que cresceu muito durante o espetáculo, graças à interpretação da cantora e à participação do extraordinário instrumentista -, ele homenageou a plateia com o grito de "Bravo!". As mais de 1.500 pessoas que lotavam o teatro colaboraram para o êxito do espetáculo, aplaudindo muito e cantando junto com Elisete.

A participação do público, porém, atingiu de maneira distinta os dois grandes nomes da noite. A cantora, mais à vontade, usou-a para fazer dos espectadores integrantes ativos do espetáculo. Convocou-os, por exemplo, no momento em que cantava Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro): "Comigo!" - e todos cantaram com ela. Interpretou depois Lamento (Pixinguinha e Vinicius de Moraes), foi muito aplaudida e, no fim da música, quando Jacob e o conjunto Época de Ouro se retiravam, porque no número seguinte seria acompanhada pelo Zimbo Trio, Elisete gritou:

- Jacob!

Com o amigo novamente ao seu lado, informou:

- Quando comecei a cantar no rádio, ele era assim... garotinho.

- Ainda sou garoto...

- Eu um pouquinho menos garota do que ele. Eu morava na Rua do Resende e ele na Avenida Gomes Freire. Então, ele telefonava e dizia: "Elisete, escuta esta coisa que eu fiz (desculpe, Adília, sei que você está por aí, mas não tem problema)... Eu fiz uma música para uma namorada que arranjei, vê se você gosta".

Após uma boa gargalhada, cantou a ingênua música, por sinal, recheada de um palavreado típico das canções do início do século. O público também riu muito. No final da música, Jacob resolveu acompanhá-la no bandolim:

- Esta não estava no programa.

- Mas tinha outra. Esta é bárbara.

Jacob disse qualquer coisa ininteligível, mas Elisete Cardoso cortou:

- Me deixa cantar. Eu agora embalei.

E cantou um samba feito pelo jovem Jacob, que dizia, entre outras coisas, que "Foi numa festa/Tu estavas divinal". Enquanto o bandolinista ria um riso nervoso, ela prosseguia: "Tu não entendes/Nem tampouco compreendes/O meu pobre coração". E brincou, ao terminar a música:

- Ai, que lindo! Coisinhas do passado que nos trazem recordação.

- Isso é uma surpresa. Não estava no roteiro. E eu, sinceramente, não lembro nada disso. Renego isso tudo - afirmou o músico.

- É que a senhora dele está aqui e ele quer fazer média. E aquela, Jacob, que você fez para eu cantar em primeira audição, Jamais - rebateu a cantora.

Dino, o grande violonista de sete cordas e membro do Época de Ouro, tratou logo de transmitir o tom para os companheiros:

- Dó maior.

Durante o espetáculo, Jacob abriu o coração, num desabafo que novamente arrancou muitos aplausos:

- Antes de fazer mais um número, graças à boa vontade de todos aqui, eu quero lembrar uma data pra mim muito grata e confessar com muita vaidade que aqui, neste recinto todo, o mais orgulhoso sou eu. Em 18 de julho de 1936, fui a uma festinha de aniversário igual a qualquer festinha: chopinho, a jarrinha cor-de-rosa com chope, os docinhos, bolinhos de sogra, era exatamente igual a toda festa. Mas houve uma pessoa que neste dia conheci, uma menina, e a acompanhei, fiquei entusiasmado e a encaminhei à extinta Rádio Guanabara: Elisete Cardoso!

Adília, a mulher de Jacob, realmente se encontrava na plateia, com a bolsa carregada de medicamentos. Ela sabia que Jacob iria emocionar-se e temia a repetição do enfarte que quase o matara, no ano anterior, quando foi aplaudido por uma multidão de jovens numa sessão do Clube Jazz & Bossa, no então Café Teatro Casa Grande, no Rio.

Agora, em fevereiro de 1968, ele apresentava-se pela primeira vez em público ao lado da cantora que levara para estrear numa emissora de rádio. Conhecera-a na festa do 16º aniversário dela (o aniversário ocorrera no dia 16, mas a festa realizou-se no dia 18 de julho), na rua do Resende, 87, no centro do Rio de Janeiro. Era uma casa de cômodos, como tantas em que Elisete morou, mas esta era especial porque moravam nela também os promotores da festa, os tios Ivone e Pedro, este um seresteiro e frequentador das rodas de choro, amigo de vários músicos importantes da época. Compareceram, além de Pixinguinha e João da Baiana, Jacob do Bandolim com o seu conjunto, do qual o grande Dilermando Reis era um dos violonistas (o outro era Luís Bitencourt, também autor de Jamais), Mário Silva (que trocaria depois a música pela odontologia) tocava cavaquinho e o ritmo ficava por conta de Gilberto Dávila, um dos maiores pandeiristas de todos os tempos.

Já era antiga a admiração dos tios pela voz da sobrinha. Fazia tempo que ela se destacava nas festinhas e nas reuniões de família, interpretando canções da moda e até promovendo shows para amigos e vizinhos. Nascida na manhã de 16 de julho de 1920 (chovia muito nesse dia), na rua Ceará, 8, em São Francisco Xavier (a rua desapareceria no início da década de 1960, para dar passagem à Avenida Marechal Rondon; a casa, por sua vez, seria ocupada, anos depois, por um centro espírita), Elisete Moreira Cardoso era filha da morena baiana Maria José Vilar, que gostava de cantar e que era chamada de dona Moreninha, e do carioca Jaime Moreira Cardoso, um mulato de 1,90m de altura, fiscal da Prefeitura do Distrito Federal, tocador de violão, seresteiro e mulherengo. Os avós paternos chamavam-se Florentina Rosa Brandão e João Brandão e os maternos, Andrelina Pontes Martins e Antônio Pontes Martins. O número 8 da rua Ceará era o endereço de uma casa de cômodos que abrigava várias famílias, entre as quais o casal Cardoso com Antônio, filho do primeiro casamento de dona Moreninha (que era viúva), e Elisete, a única filha do casal. Jaime já tinha quatro filhas com a mulher de quem se separara. Eram elas Erendina, Jaimira, Dina e Nininha.

Pouco depois do batismo da caçula, numa igreja do bairro do Engenho Novo (padrinhos: Olímpio dos Santos e Antônia dos Santos, irmã de dona Moreninha), a família mudou-se para o Méier e, em seguida, para o Engenho de Dentro. A primeira lembrança de Elisete da sua infância foi de um período em que morava na rua Senador Eusébio (que desapareceria com a construção da avenida Presidente Vargas), 45, junto à antiga Praça Onze. Foi na Praça Onze (Escola Benjamin Constant) que Elisete começou a estudar (suas primeiras professoras chamavam-se Amélia e Altair) e foi lá também que formou um bloco carnavalesco de baianas com dona Moreninha, tias e primas, desfilando na praça que era a sede do melhor carnaval popular do Rio de Janeiro. Quando as crianças iam dormir, as baianas adultas deixavam a Praça Onze e continuavam no carnaval até a madrugada, na Galeria Cruzeiro, na avenida Rio Branco. Do outro lado da praça, na rua Visconde de Itaúna (outra rua que sumiu para dar passagem à avenida Presidente Vargas), número 117, morava tia Ciata, dona da casa em que, para alguns historiadores, teria nascido o samba carioca. A menina Elisete esteve muitas vezes na famosa casa de tia Ciata.

Foi também na Praça Onze que, no dia 23 de abril de 1926, Elisete Cardoso, aos cinco anos de idade, estreou como cantora, subindo ao palco do Kananga do Japão e pedindo ao pianista e funcionário dos Correios Tojeiro, para acompanhá-la na marcha Zizinha. Tojeiro era o chefe do conjunto musical da casa, que contava ainda com um banjo, um violão, uma flauta e um pandeiro. A Sociedade Familiar Dançante e Carnavalesca Kananga do Japão nascera como rancho carnavalesco, em 1911, na rua Barão de São Félix, 189, e teria desaparecido completamente, pouco tempo depois, se um tio de Elisete, José Constantino da Silva, o tio Juca, trabalhador do Cais do Porto e que ficou famoso nas rodas boêmias e carnavalescas como Juca da Kananga, não promovesse o seu renascimento em nova sede, na rua Senador Eusébio, 44, em frente à casa onde morava a família Cardoso. Como o nome indicava, tratava-se de uma sociedade dedicada à dança e ao carnaval, aliás, uma das muitas instaladas na Praça Onze e adjacências. A Kananga acolheu em suas festas músicos populares muito conhecidos na época, como Sinhô (José Barbosa da Silva), também chamado de Rei do Samba, J. Bulhões, Manuel da Harmonia, Pixinguinha e João da Baiana, que fora o seu diretor de harmonia na fase de rancho. Foi lá que Júlio Simões se inspirou para criar, em 1930, a primeira gafieira do Brasil, a Elite, no Campo de Santana. Conhecimento não lhe faltava, pois, durante muitos anos, Júlio desempenhara a função de fiscal de salão da Kananga.

Como todas as instituições populares do gênero, a Kananga do Japão tinha o seu padroeiro: São Jorge, o santo predileto das camadas mais baixas da população carioca. O seu dia, 23 de abril, era comemorado pela casa desde as primeiras horas da manhã, quando a imagem do santo era retirada do salão e conduzida para a igreja de São Jorge, a cerca de um quilômetro de distância. Geralmente, o santo e o respectivo dragão eram levados pelo padrinho ou pela madrinha escolhidos naquele ano. Em 1926, a madrinha foi Elisete Cardoso, que teve de contar com a ajuda de outras pessoas, pois a imagem tinha quase o dobro de seu peso. Após a missa, todos voltaram para a sede da Kananga, onde almoçaram e lá permaneceram toda a tarde em clima de festa. Era o dia de Elisete. Após vencer um concurso de dança de charleston, a menina subiu ao palco e pediu a Tojeiro para acompanhá-la. "Eu era muito exibida", dizia em suas entrevistas, toda vez que se lembrava do episódio.

- Que música você vai cantar? - perguntou Tojeiro, divertindo-se com a ousadia daquela criança que só dali a dois meses completaria seis anos de idade.

- Zizinha - respondeu a menina, referindo-se a uma marchinha de José Francisco de Freitas, Carlos Bitencourt e Cardoso de Menezes, que obtivera grande êxito no carnaval de 1926 e que fora lançada, no ano anterior, na revista teatral Se a moda pega, de Carlos Bitencourt e Cardoso de Menezes, no Teatro João Caetano, na voz da cantora Otília Amorim. Eis a letra da música que marcou a estreia de Elisete Cardoso nos palcos:

Por ser deveras conhecida

Palavra, eu ando aborrecida

Em qualquer lugar

Quando a passear

Sou muito perseguida

O meu tormento não tem fim

Nunca pensei sofrer assim

Velhos e mocinhos

Pedem-me beijinhos

Dizendo, enfim, pra mim:

Zizinha, Zizinha

Zizinha, Zizinha

Ó, vem comigo, vem

Minha santinha

Também quero tirar uma casquinha

Noutro dia num bondinho

Um coronel, já bem velhinho,

Deu-me um beliscão

Pegou-me na mão

Tais coisas fez enfim

Que quando olhei admirada

Até parece caçoada

Ainda suspirou

Os olhos revirou

Dizendo assim pra mim:

Zizinha, Zizinha etc.

Segundo contaria Elisete, outras músicas foram cantadas naquela tarde festiva da Kananga do Japão. Não lembrava quais os números escolhidos, mas recordava-se perfeitamente de que só parou de cantar quando os mais velhos resolveram retirá-la do palco.

Da rua Senador Eusébio, a família Cardoso mudou-se para a Rua Ana Teles, em Jacarepaguá, providência que deixou a menina muito feliz, porque a nova casa ficava próxima à dos padrinhos, tia Tonica e tio Santos, que moravam num casarão dotado de um extenso quintal, onde brincava com os primos e primas. Por sinal, foram muitas as mudanças de casa durante a infância e a adolescência de Elisete.

- Diziam que papai não gostava de pagar aluguel. Mas prefiro dizer que mamãe gostava de mudar de residência todos os anos - disse ela, em entrevista à revista Realidade, em janeiro de 1969.

Os anos em Jacarepaguá renderam as melhores recordações de sua infância. Numa entrevista que concederia, em dezembro de 1983, à revista Manchete, afirmou que o desejo de ser cantora manifestava-se até nas brincadeiras de roda que as meninas promoviam no bairro:

- Uma das brincadeiras tinha uma cantiga assim: "Oh! que rochedo tão alto/Que ninguém pode alcançar/Sentou-se a pobre viúva/Sentou-se e pôs-se a chorar". Eu queria ser sempre a viúva porque ela cantava: "Dizei, senhora viúva/Com quem quereis se casar/Se é com o filho do conde/Se é com o seu general". Eu me levantava na minha vez: "Não é com nenhum desses homens/Eles não são para mim/Eu sou uma triste viúva/Triste, coitada de mim".

Jacarepaguá era cheio de sítios e de grandes quintais, sistematicamente invadidos por Elisete, que pulava as cercas para roubar laranjas do pé. Foi naquela casa que conheceu melhor o seu pai, com quem se sentava na soleira da porta da cozinha: ele, com o violão, a cantar e pedindo a ela que também cantasse para acompanhá-la com o instrumento. Até então, o velho Jaime sumia muitos dias de casa sob o pretexto de que se sentia obrigado a dar atenção às outras filhas. Mas, além do pai, havia os tios, os primos e a vizinhança, sempre dispostos a promover cantorias, principalmente nos fins de semana. Os adultos reuniam-se no quintal, enquanto as crianças tratavam de formar um grupo artístico, envolvendo parentes e vizinhos. A turma infantil organizou-se de tal maneira que, em pouco tempo, montou uma barraca - a que as crianças chamavam de "circo" - na calçada da esquina da rua, local em que cada um exibia os seus dotes artísticos. Monsueto, sobrinho do tio Santos, tocava violão e desempenhava o papel de diretor do grupo. Zaíra, irmã de Monsueto, cuidava da montagem do show. Uma vizinha chamada Iolanda era atriz e apresentadora, além de recitar poemas de Catulo da Paixão Cearense. Durante as apresentações dos meninos e das meninas, os adultos interrompiam a música do quintal e iam para o "circo", pagando cada um o ingresso de dez tostões. Havia shows em todos os fins de semana, durante os quais Elisete Cardoso, sempre estimulada pelos tios, cantava músicas do repertório de Vicente Celestino, enfrentando a oposição de Monsueto, que achava estranho uma menina cantar aquelas músicas. Para ele, música de Vicente Celestino era só para homem cantar. Mas ela cantava:

Santa

Sublime amor dos sonhos meus

Canta

Eu quero ouvir dos lábios teus

Que és minha só

Minha serás eternamente

Grande é a dor

De quem te ama eternamente.

Ou:

A minha terra

Tesouros mil encerra

É linda e pura como no mundo não existe igual.

Ou a famosa Serrana:

Existe no meu sertão

No alto daquela colina

Uma cabocla

Que habita uma choupana pequenina.

Eram realizadas várias sessões praticamente para o mesmo público, o que não impedia que cada um dos frequentadores morresse com os dez tostões do ingresso. Após Zaíra recolher o dinheiro, Iolanda movimentava um sino anunciando o início da sessão. Era tudo muito divertido, até que um acidente obrigou as crianças a cancelarem o show: ao puxar o badalo do sino, este caiu sobre o pé de Iolanda, machucando-a fortemente. Socorrida com medicamentos caseiros, o pé inchou, Iolanda continuou submetida ao tratamento doméstico, sem o menor êxito. Quando o médico foi chamado, a infecção já havia evoluído para uma gangrena e Iolanda morreu, morrendo com ela também o "circo" das crianças.

Na ligação de Elisete com os tios tinha muito afeto, mas havia também a busca de maior conforto. Jaime não cumpria as obrigações familiares, por mais simples que fossem. Na verdade, nunca foi um bom chefe de família, conforme confessou a própria Elisete, em entrevista concedida ao radialista Hélio Tys, da Rádio Globo do Rio de Janeiro, em março de 1983, e atestou um amigo de infância, João de Deus da Silva, o Joca, em entrevista que me concedeu em 1994. O fato é que a família teve de mudar-se de Jacarepaguá.

A situação foi ficando tão difícil que, aos dez anos de idade, Elisete sentiu-se obrigada a abandonar a escola no terceiro ano do curso primário para trabalhar, a fim de ajudar a mãe na manutenção da casa. Todo o dinheiro que passou a ganhar era entregue, intocável, a dona Moreninha. Inicialmente, tomou conta de uma criança, na Rua Joaquim Silva, bairro da Lapa. Permaneceu pouco tempo no trabalho, mas é provável que, nessa época, tenha cruzado com Jacob do Bandolim, que morava no número 97 da Joaquim Silva, uma rua pequena onde o pai do futuro instrumentista tinha uma farmácia. Pouco tempo depois, Elisete passou a trabalhar como balconista de uma charutaria na Rua São José, esquina da Rua Vieira Fazenda (depois, a esquina desapareceu; a Rua Vieira Fazenda deixou de ir até a São José), no Centro do Rio, ganhando 50 mil-réis por mês. Ter de abandonar os estudos foi uma decisão que traumatizou Elisete Cardoso para sempre. "Passei a minha vida inteira lamentando não ter estudado", disse ela na entrevista a Hélio Tys, poucos meses antes de completar 63 anos de idade. "Você abandonou os estudos e a infância", lembrou Hélio. "Pior foi ter largado os estudos", replicou a cantora. Sempre muito discreta, raramente Elisete se expôs em demasia nas entrevistas que concedeu. Mas a Hélio Tys ela desabafou:

- Meu pai deixava a gente de lado e se voltava para a vida dele. Cuidava mais das outras irmãs do que de mim. Ficamos numa situação muito difícil. Nunca tive o sentimento de revolta por isso. De mágoa, sim. Meu pai podia ter cuidado mais de mim.

Tinha pelo menos o consolo de não gastar dinheiro em transporte para ir de casa para a charutaria, pois morava num quarto no terceiro andar da Rua São José, 8, num prédio em que o térreo era ocupado pela Camisaria Fluminense. Até então, com as ausências do pai, os recursos para o pagamento do aluguel, do vestuário e da comida eram extraídos do pequeno ordenado do irmão Antônio, trabalhador da Companhia Telefônica Brasileira. Uma recordação que guardou do emprego na charutaria foi a dificuldade para atender aos clientes, quando estes pediam cigarros ou charutos guardados numa altura inatingível para uma criança de dez anos de idade. Nesses casos, era obrigada a subir numa cadeira para pegar maços de cigarro das marcas Veado, Iolanda 500, Elmo, Jockey Club e Lord Club. Outra lembrança foi a de ter entre os seus clientes o futuro compositor Marino Pinto, então um menino de 14 anos de idade, estudante do colégio São Bento, e que já iniciara sua carreira de fumante inveterado. Sendo a São José uma rua com muitas moradias, não faltava a companhia de outras crianças para as brincadeiras. Nos fins de semana, a garotada se reunia nas escadarias do Palácio Tiradentes, a Câmara dos Deputados de então, utilizadas como área de lazer, principalmente para os jogos de peteca. Foi nessa época que Elisete, "uma namoradeira", como se autointitulou várias vezes, teve o seu primeiro namorado, um menino de 14 anos, Oscar Miranda, o Tatá, irmão da cantora Carmen Miranda, cuja família morava perto, precisamente na Travessa do Comércio, 13, nas proximidades da Praça Quinze. O namoro passou como um episódio da infância dos dois, mas a amizade permaneceu ao longo da vida. Tatá não perdia um show de Elisete Cardoso.

Ela bem que tentou o retorno aos estudos, matriculando-se no Liceu de Artes e Ofícios, mas a necessidade de ganhar dinheiro voltou a falar mais alto. Trabalhou numa bombonnière, da qual seria despedida depois de poucos meses, ao ser surpreendida pelo patrão consumindo algumas delícias do estoque da casa. O trabalho seguinte foi na oficina da Peleteria Francesa, na Rua da Alfândega, que lhe deixou poucas recordações. Defendeu-se durante algumas semanas como telefonista da empresa Caixas Registradoras National. Transferiu-se em seguida para a fábrica de sapóleos Rex, trabalhando, inicialmente, na prensa, e, depois, na seção de embalagens, ganhando cinco mil-réis diários para passar o dia inteiro colocando o produto dentro das caixas. Tal atividade deixou marcas permanentes em suas mãos, que se ressentiam da acidez do detergente. Algumas de suas colegas da fábrica Rex permaneceram em seu círculo de amizades por toda a vida. Aliás, um dos aspectos mais bonitos da personalidade de Elisete era a sua inabalável fidelidade às velhas amizades. Mais tarde, trocou a fábrica pelo Salão Antonieta, no bairro do Catumbi, especializando-se em esticar cabelo com aplicação de brilhantina da marca Parisiense. No salão, trabalhou também como pedicure. Todos os empregos muito diferentes do ofício que um dia sonhava exercer, o de enfermeira.

Em várias entrevistas que concederia mais tarde, Elisete Cardoso reconheceria a existência do racismo no Brasil, ressaltando, porém, que, "pessoalmente", nunca fora vítima de qualquer agressão de caráter racista. Que ela foi vítima de preconceitos, foi, como veremos mais tarde. Quando menina, pobre e mulata, certamente enfrentou dificuldades numa sociedade em que o predomínio do branco tentava esmagar as manifestações de origem negra, de caráter religioso ou cultural. Até a década de 1930, eram comuns as prisões de cidadãos brasileiros pelo "crime" de cantar, tocar ou dançar o samba, como testemunharam, em inúmeros depoimentos, os sambistas pioneiros. Elisete também testemunhou, pelo menos, um caso de perseguição religiosa, como informou num depoimento prestado à amiga, psicóloga e antropóloga mato-grossense Eugênia Coelho Paredes, que recolhia subsídios para uma tese de mestrado. Tal depoimento é aqui reproduzido por ilustrar a biografia da cantora e como contribuição aos interessados no estudo do apartheid, nem sempre disfarçado, imposto ao povo brasileiro pelas elites do país:

"Quando era garota, gostava de frequentar um terreiro que tinha lá em Osvaldo Cruz. Era o terreiro de dona Bubuca. Meu tio morava lá e frequentava junto com minha tia. Eu achava tudo ótimo: aqueles batuques, todo mundo vestido de saia camisu, aqueles torsos na cabeça, não é? Era um terreiro da pesada. Ia muita gente. E tinha festas. No dia de São Jorge, fomos para a casa de dona Bubuca. Era a festa de Ogum. Depois de entrar todo mundo, eles trancaram o portão com cadeado. No melhor da festa, quando todo mundo dançava e cantava e os atabaques tocavam, chegou o carro da polícia. Bateram no portão. Quando gritaram 'É a polícia!', fui a primeira a correr. Eu devia ter meus 13, 14 anos e queria livrar a minha cara. Quando viu a correria, Ogum, que estava arriado na dona Bubuca, disse: 'Não tem problema. Abram o portão e deixem a polícia entrar'.

Entraram, disseram que eram da polícia e tal e que aquilo não podia continuar, que aquilo era baderna, bagunça e que não podia continuar. Naquela época, a polícia chegava e fechava. Seu Ogum mandou eles entrarem e ofereceu uma cervejinha. A cerveja branca é usada nesses trabalhos de Umbanda, Candomblé, me parece. Aí, começaram a servir cerveja. 'Os senhores vão assistir, vão ver que não tem esse negócio de exploração, que isso é uma coisa dessa religião, de quem acredita'. Eles ficaram assistindo e tomando cerveja. Acabaram tomando um porre, uma bebedeira de cerveja.

O pior é que, quando a polícia chegou, peguei a espada de São Jorge - a espada que Ogum usava para dançar - e sabe o que eu fiz? Peguei a espada e enfiei dentro do fogão, que estava aceso. E deixei pra lá. No dia seguinte, meu tio perguntou: 'Cadê a espada que entregamos pra você?'. Eu disse: 'Ah! Não sabia de nada, fiquei tão apavorada que enfiei a espada dentro do fogão'. Quando eles foram ver, a espada de Ogum estava toda retorcida. E eu tive a minha penitência. Como já trabalhava na tal fábrica de sapólio, tive de comprar outra espada na Casa Sucena para botar no lugar da outra que havia queimado".

(Págs:. 13 a 24)