Em AmarElo - É Tudo Para Ontem, Emicida e Fióti dão aula de ficar para história - de fazer preto se orgulhar e branco pensar [ENTREVISTA]

Documentário é, ao mesmo tempo, aula sobre música, Brasil, racismo, cidades, São Paulo, e cultura - já pode cair no vestibular

Yolanda Reis | @_ysreis Publicado em 06/12/2020, às 16h02

None
Emicida canta AmarElo no Theatro Municipal de São Paulo em 2019 (Foto: Jef Delgado)

"O que tentamos expandir é o grande direito de existir, mano. Não resistir. Resistir já é uma resposta, então a resistência já te coloca num lugar secundário, porque você precisa responder a uma estrutura. AmarElo é um grande manifesto pelos direitos de poder existir sem precisar responder à opressão" - Emicida.


Emicida
chegará em 2021 subindo em um novo patamar da música brasileira. O rapper lança, em 8 de dezembro de 2020, o documentário AmarElo - É Tudo Para Ontempela Netflix (produção de Evandro Fióti e direção de Fred Ouro Preto). À primeira vista, parece uma produção sobre o disco dele, lançado sob o mesmo nome em 2019, e o maravilhoso show de estreia no Theatro Municipal de São Paulo. Mas é muito além disso: é uma verdadeira aula de história digna de ficar para a história.

+++LEIA MAIS: Como o rap assume de vez a própria narrativa em TVs por streaming, com Criolo, Filipe Ret, Laboratório Fantasma e Marcelo D2

O que começa em microcosmos termina num abraço da cultura brasileira no geral. Emicida narra sua história pessoal, de batalhas de rima e crescer na Zona Norte de São Paulo ao show no Theatro para apresentar AmarElo. Mas conta bem além disso: vai um século para o passado, e mostra como, na semana de 22, os Oito Batutas eram tão contemporâneos quanto o rap é hoje.

O objetivo do filme, muito além de um docushow, é mostrar como a arte do Brasil é preta. É assim há mais de um século, mas custa para verem assim. AmarElo - É Tudo Pra Ontem retoma o direito da expressão e de conquista de lugares. Mostra a história que muitos não querem ver - tanto cultural quanto social. "O AmarElo é um grande manifesto pelos direitos de poder existir sem precisar responder à opressão. Ser maior do que ela," disse Emicida em entrevista para Rolling Stone. Confira o papo:

+++ LEIA MAIS: Na calmaria com Emicida: sobre queijos caseiros, meditação, yoga, Prisma e lições de casa

Rolling Stone: E aí, Emicida, como você tá?

Emicida: Tô bem. Tô daora. Tô bacana. Tamo aí... Enquanto tiver milho, a gente faz pipoca. 

+++ LEIA MAIS: "Belchior tinha razão": Emicida lança emocionante clipe de AmarElo com Pabllo Vittar e Majur

RS: Quero começar elogiando o documentário. Achei sensacional. Terminei de assistir de madrugada e mandei mensagem para a equipe, de lição de casa, para redação inteira assistir. Está sensacional!

E: [Risos]. Obrigado. Que f***. Você terminou ele com qual sensação? A entrevista ficou ao contrário! Eu também tenho só 12 minutos para fazer a entrevista?

+++ LEIA MAIS: Ilustradores recriam Emicida e Mano Brown como guerreiros orientais

RS: [Risos] Acho que a primeira sensação foi um peso, né? Primeiro, na consciência, porque [sou branca] e minha história afeta muito diretamente a sua. Um peso por tudo que meus amigos passaram. Sou da Zona Norte [de São Paulo, onde Emicida cresceu] e conheço muita história parecida com a sua. A principal questão foi um peso... Mas também, esperança, de ver o tanto que vocês conseguiram nesses últimos anos. Isso é f***.

E: É... Acho que conseguimos contar uma história que pensa nos momentos de dureza, mas terminamos ele com muita beleza e uma provocação muito forte, saca? Do tipo 'ok, sejamos melhores.'

+++ LEIA MAIS: Emicida e Drik Barbosa lançam 'Sementes', música contra o trabalho infantil; ouça

[Colocar ALT]
Emicida canta AmarElo no Theatro Municipal de São Paulo (Foto: Jef Delgado)

RS: Sim, isso foi bem incisivo. Falando do final pro começo, então: você passa toda aquela mensagem de união, de como enquanto um estiver livre mas o outro não, ninguém está livre de verdade. Gostei muito disso, e queria saber como você acha que as outras lutas acompanham a sua luta?

E: Eu... Às vezes, uso a palavra luta. Não é tão estranho para mim. Mas luta não é a minha palavra preferida. Às vezes, consegue sintetizar bem um determinado momento. Mas, a verdade, é que à medida que amadureci compreendi como é maravilhoso se olhar no espelho e sentir que você é um ser um humano. Isso aconteceu por uma série de coisas: as pessoas que conheci, as pessoas que tenho ao meu redor, as pessoas que trabalhei, inclusive no documentário - foram pessoas fantásticas, por causa das viagens que fiz, do que li... Tudo isso é uma somatória que me coloca num lugar que me faz ter essa sensação.

+++ LEIA MAIS: Emicida manda papo reto: ‘Tentando colocar Djonga, Brown e eu em lados opostos’

[Colocar ALT]
Emicida e Majur tocam no Municipal (Foto: Jef Delgado)

Aí, talvez esse seja o coração de todas as atividades que são produzidas, no sentido de expandir o que significam direitos humanos pelo planeta. Tá ligado? O que essas pessoas querem? Os ativistas de direitos humanos querem que essas pessoas se olhem no espelho e se sintam humanas, entenderem que elas podem colaborar, produzir, viver, trabalhar... Não serão prejudicadas por nenhuma característica com a qual elas nasceram, saca? Ou a forma que se orientam em questões de gênero...

Então, "luta" é uma boa palavra, mas acho que o que fazemos, o que tentamos expandir, é o grande direito de existir, mano. Não resistir. Resistir já é uma resposta, então a resistência já te coloca num lugar secundário, porque você precisa responder a uma estrutura.

+++ LEIA MAIS: Emicida dá aula sobre racismo, machismo e violência no Faustão: ‘Muitas mulheres estão trancadas em casa com os agressores’

O que fazemos, tanto no projetoAmarElo como disco, e intensificamos no documentário, é mostrar que tivemos perguntas muito melhores ao longo da história desse país. Mas, nesse momento, estamos respondendo perguntas medíocres. Tá ligado? Precisamos nos reconectar com a qualidade das perguntas para que essa existência seja o centro, e não resistir mais. Entendeu?

Porque até na melhor das intenções, as pessoas querem fazer com que essas lutas sejam visibilizadas, e nessa boa intenção as pessoas tendem a colocar essas pessoas... Vamos falar aí de pessoas de pele escura, indígenas, mulheres, LGBTQ+... [Cara***, foi a primeira vez que acertei a sigla! Carai, to ficando profissional!] Mas mesmo que na boa intenção, às vezes, as pessoas colocam cada um desses grupos num lugar que parece que a existência deles é responder à opressão, quando na verdade é muito mais...

+++ LEIA MAIS: Emicida é o entrevistado do Roda Viva com participação da Rolling Stone: política, racismo estrutural, Laboratório Fantasma e mais; veja como assistir

O AmarElo é um grande manifesto pelos direitos de poder existir sem precisar responder à opressão. Ser maior do que ela. 

RS: No documentário, tem uma passagem com Zeca Pagodinho. Vocês estão conversando e você fala como nos últimos 10 anos houve um progresso, e definiu esse como "o período que não precisamos provar nada para ninguém." Como você, como músico, sentiu essa mudança?

+++ LEIA MAIS: Emicida não se encontraria com Bolsonaro: ‘Valores contrários ao que eu acredito’

E: Quando cheguei aqui, rap não era compreendido como música em muitos lugares. A própria imprensa tinha uma maneira muito superficial e estereotipada de se referir ao gênero. Junto de outros artistas, conseguimos expandir o que isso significa. Isso também signifca que, junto com outros movimentos da sociedade, também expandimos o que significa ser uma pessoa preta, o que significa ser uma pessoa de quebrada. É muito amplo e não dá para colocar ninguém, nenhum grupo numa caixinha e dizer "essas pessoas são assim, se comportam desse jeito", a experiência humana é muito vasta, sacou?

+++ LEIA MAIS: Emicida emociona ao lançar o disco AmarElo no Theatro Municipal: 'Nos vemos nos livros de história'

Digo isso porque a Laboratório Fantasma, nosso selo, é uma conjuntura de uma série de aspectos. Primeiro, temos uma grande busca artística. Temos a intenção de dar continuidade à grandiosidade da criação do Brasil, da arte brasileira. Por isso a gente provoca a ir cutucar lá a Semana de 22. Porque acreditamos que precisamos ser tão grandiosos quanto esse tipo de movimento. Por isso provocamos a ir pegar a origem do samba, orbitamos em torno disso desde sempre, e todo o Brasil que venceu estava em torno disso.

Só para exemplificar, e porque eles também estão no projeto do documentário, pegamos movimentos com essa grandiosidade e se provoca a tentar reproduzir o que seriam eles hoje. Pela forma como nos organizamos, pela construção que temos e apresentamos artisticamente, e pela relevância que temos - não só no ambiente da música, mas da cultura do país - chego à conclusão de que esse lugar de independência e maturidade me dá a liberdade de não precisar responder a questionamentos menores. Isso é que significa "não precisar provar nada a ninguém."

+++ LEIA MAIS: "Somos maiores do que os pesadelos que nos impuseram", diz Emicida sobre nova música

Claro, tenho uma série de questões com as quais quero me relacionar para fazer com que as discussões do que é a criatividade aqui, neste país, avancem. Mas, a verdade, é que me sinto livre para não precisar responder questionamentos menores.

RS: Algo que veio demais na minha cabeça é: todas as pessoas do mundo que falam dessa causa precisam assistir esse documentário. Gostei muito que, por mais que seja um documentário brasileiro sobre música brasileira, ainda é um assunto completamente mundial. Este ano tivemos, no mundo ocidental, muitas discussões de questões raciais... Queria que você me dissesse qual é a mensagem principal que você acha que o documentário entrega para quem não é do Brasil?

+++ LEIA MAIS: Com clipe de ‘Silêncio’, Emicida convida à reflexão sem uma palavra sequer; assista

E: Vivemos um momento em que o Brasil virou uma piada internacionalmente. Para quem se relaciona com pessoas do exterior diariamente, por causa de lançamentos - nossos discos são lançados na Inglaterra, Portugal... Trabalhamos com pessoas no Japão, nos EUA. Imagina que a imagem que o Brasil tem nesse momento é de pena. Oscilamos entre o Brasil ser um gigante digno de pena e uma piada.

Trabalhar com a Netflix é bacana nesse sentido porque explodimos para 190 países de uma vez. Então, temos a oportunidade de apresentar a grandiosidade do Brasil e, com o cartão de visitas que sempre foi o melhor cartão de visitas daqui - a cultura - para poder falar sobre a grandiosidade do que nasce aqui. Essa é minha empolgação, até porque é um tema pouquíssimo visitado na historiografia de documentários grandes deste país.

+++ LEIA MAIS: Emicida apresenta AmarElo, novo disco, em horário nobre da TV Globo

Temos muitos documentários maravilhosos sobre a cultura do Brasil, muitos a respeito da escravidão... Mas a escravidão não são as pessoas pretas. É uma interrupção da história das pessoas pretas. Acho que o documentário que produzimos coloca tudo em seu lugar. Mostra como produzimos uma arte que se provocou a pensar o país. Nem só pensar o país: produzí-lo. Tudo que amamos e acreditamos que deu certo é fruto dos pilares que são apresentados no documentário. Quero muito que as pessoas do exterior tenham essa sensação de "mano, tomara que o Brasil recupere sua grandiosidade logo."