Em casa, Lenine faz show de mais de duas horas no carnaval do Recife

As apresentações no palco Marco Zero, no centro-velho da cidade, ainda tiveram nomes como Siba e Zélia Duncan

Pedro Antunes, do Recife Publicado em 10/02/2013, às 16h14 - Atualizado às 17h12

Lenine
Divulgação / Carlos Oliveira

Nem mesmo os 12 anos de apresentações no carnaval de Recife o impediram de se emocionar. Ao final de “Hoje Eu Quero Sair Só”, Lenine afastou-se do microfone, com dois passos para trás, e gritou. “Puta que pariu!”, saiu como uma válvula de escape. Ainda que o sábado, 9, tenha sido um longo dia para os foliões – a festa começou às 5h, com o início das festividades do Galo da Madrugada, um dos maiores blocos de rua do mundo -, a praça localizada no Marco Zero estava tomada.

Ali, onde foi montado o palco principal do carnaval do Recife, no coração da charmosa cidade-velha e centro de toda a folia, famílias, crianças e casais conviveram de forma bastante pacífica e comidas e bebidas eram vendidas a preços justos (entre R$ 2 a R$ 4). Tudo corroborou com o clima que arrebatou Lenine, responsável por fechar o dia de shows, depois de Siba e Zélia Duncan.

Siba, aliás, mostrou o som refinado de Avante, disco solo após a saída do Fuloresta. Ao vivo, a tuba que substitui o baixo na marcação do tempo com a bateria tem um efeito ainda mais retumbante. O álbum, que marca um reencontro de Siba com a guitarra, é cheio de melodias e letras metafóricas e confessionais.

Ele canta de forma suave, assim como maneja a sua guitarra. Com essa delicadeza, executou canções como as lindas “Cirandas na Beira do Mar”, “Preparando o Salto”, “Canoa Furada” e “Avante”.

Depois dele, foi a vez de Zélia Duncan trazer um repertório bastante amplo e atraente para o festival. Fez uma apresentação interessante, partindo para canções de samba, frevo e outros ritmos que não lhe são comuns.

Em seguida, Lenine, ilustre filho pernambucano, trouxe sua poesia intrincada e seu modo peculiar de manejar as cordas da guitarra e do violão. Ele, no início de carreira, nos anos 80, tinha dificuldade de se encaixar dentro de gêneros e rótulos: era muito rock and roll para a MPB, e muito MPB para o pessoal do rock. Mas tudo já é passado. Lenine dominou o público, encantou, agitou. Sua musica é livre – assim como é de praxe na produção pernambucana.

Foram pouco mais de duas horas seguidas, sem muito falatório e conversa. “Aproveitei para tocar para caramba”, explicou ele ao público, já no fim da apresentação. “Não sou Roberto Carlos, mas são tantas emoções que eu vivi aqui”, completou.

A apresentação se iniciou com “Voltei, Recife”, frevo nostálgico que lida com o amor pela capital pernambucana, arrebatador – a mesma faixa executada por ele na noite anterior, na sexta, 8, na programação especial em homenagem ao ritmo. Desta vez, contudo, ela ganhou peso, distorções e uma bateria acelerada. Lenine voltou – de novo.

Ele seguiu com hits, ainda que a palavra traga uma ideia de comodidade que não se aplica a Lenine. Todas as canções – todas -, ganharam arranjos mais potentes e musculosos ao vivo. Muito também por conta de uma banda excepcional que o acompanhou, formada por Guila (baixo), JR Tostoi e Bruno Giorgi (ambos nas guitarras e efeitos) e Pantico Rocha (baterista que acompanha o músico há 20 anos).

O experimental Chão, seu último disco, do fim de 2011, foi representado pela música-título, “Se Não For Amor, Eu Cegue”, “Envergo Mas Não Quebro” e “Tudo Que Me Falta, Nada Que Me Sobra”. No álbum, as canções foram gravadas sem bateria, em trio formado por Lenine, o filho dele, Giorgi, e Tostoi, com inserção de sons do cotidiano, como canto de um passarinho ou sons de passos. Tudo ganhou uma nova camada, ao vivo.

Lenine ainda tocou “Martelo Bigorna”, “O Homem dos Olhos de Raio-X” (com “A banda de Zé Pretinho”, de Jorge Ben), “Dois Olhos Negros”, com solo de bateria no fim, “Virou Areia”, na qual mostrou uma grande performance vocal, “Relampiano”, “Jack Soul Brasileiro”, “Alzira e a Torre”, “Do It” e “A Ponte”. Então ele saiu do palco, mas voltou. "Vocês achavam que eu iria sair sem cantar ‘Leão do Norte’?”, perguntou ele, com o sorriso nos lábios.

A música levou o Marco Zero à forma da noite anterior, dedicada ao frevo. O público dançou e trançou os pés no ritmo. O relógio já passava das 4h. Depois da tempestade de pulos, veio a calmaria romântica, embalada por “Paciência”, pérola das mais preciosas dos tesouros de Lenine e, claro, da música popular pernambucana. Ou seria do rock pernambucano?

O carnaval de Recife no polo Marco Zero continua neste domingo, 10, com o encontro de maracatus de baque solto (às 19h), Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (22h), Zeca Baleiro (23h30), Otto (1h) e Titãs (3h).