Em encontro histórico, Titãs comemora 30 anos de carreira

Com Nando Reis, Arnaldo Antunes e Charles Gavin, grupo homenageou o guitarrista Marcelo Fromer, que morreu em 2001

pedro antunes Publicado em 07/10/2012, às 03h05 - Atualizado às 12h11

Titãs
Fábio Nunes/Divulgação

“Você tem sede de que?”, pergunta Arnaldo Antunes, no início da segunda metade do show de comemoração dos 30 anos de carreira dos Titãs, na noite deste sábado, 6. E a resposta, vindo da algazarra do público, era clara: era sede da anarquia provocada pela banda reunida no palco do Espaço das Américas, em São Paulo.

E a festa estava quase completa. Os sete titãs no palco, juntos, em comemoração, sim, mas também em homenagem ao oitavo membro, o guitarrista Marcelo Fromer, morto em 2001. “Esse show é para ele”, anunciou Sérgio Britto, antes de “Epitáfio”, em um dos momentos mais emocionantes da noite.

Mas aquelas duas horas passaram longe de sentimentalismo ou nostalgia. Muito disso porque as canções parecem tão jovens quanto os titãs sobre o palco. Tudo ainda traz um frescor de 20 e poucos anos, quando o então octeto colocou Titãs nas lojas, embalados com os hits “Sonífera Ilha” e “Marvin”.

Foi um show divido em dois. Na primeira parte, Paulo Miklos, Branco Mello, Sérgio Britto, Tony Bellotto e o baterista Mário Fabre ficaram sozinhos no palco. Pontualmente às 22h30, o som ambiente, com predileção para canções de rock oitentista, foi interrompido. Ainda sob aplausos, Bellotto começou a executar o riff inicial de “Diversão” e foi prontamente acompanhado pelo público, como em todo bom show de rock que se preze.

O início pesado continuou com “AA UU”, do álbum Cabeça Dinossauro, um disco raivoso dos Titãs lançado em 1986, inspirado, entre outras revoltas internas dos integrantes, pela prisão de Bellotto e Arnaldo Antunes por porte de drogas. “Nem Sempre se Pode Ser Deus”, com Branco nos vocais, foi outra escolhida para um início peso-pesado.

O público se mostrava receptivo a cada acorde, ou verso resmungado por Miklos, Mello ou Britto, acompanhando tudo com assustadora adoração. Como uma onda, a empolgação chegava ao palco e era refletiva de volta com a banda executando cada música como se fosse a última. Parecia uma surra, a cada música, uma pancada. “Aluga-se”, “Televisão” e “Tô Cansado”, o oponente já estava no chão e o juiz começou a contagem.

O tempo para respirar só veio, mesmo, na oitava música. A balada “Pra Dizer Adeus”, de Televisão (1985), acalmou os ânimos, mas não o coro. Em seguida, uma emocionante execução de “Epitáfio”, cantada por Britto, mostrou que os punks também amam, sofrem e choram.

Com “Go Back”, a banda exibiu a versatilidade que tanto se fazia presente nos primeiros anos de carreira, com experimentações que iam do punk sujo dos esgotos ao reggae ensolarado. A fonte The Clash foi bebida, bem assimilada e ganhou temperos nacionais com os Titãs.

“Vossa Excelência”, composta em 2005 durante o escandaloso Mensalão, veio em boa hora, já que neste domingo, 7, serão realizadas as eleições municipais em todo país. “Desejo a todos os presentes um voto consciente. Corrupção não tem partido, cor e ideologia”, brandou Miklos antes da canção.

Em quase 50 minutos, o grupo revisitou boa parte da pancadaria registrada nos 30 anos de banda. Mas a festa ainda estava longe de ser completa. Faltavam outras três peças-chave da história. Sai Mário Fabre e chegam Nando Reis, Arnaldo Antunes e Charles Gavin. Agora, sim, uma comemoração titânica.

E a anarquia ficou completa: Nando cantou e revezou o baixo com Branco Mello; Arnaldo, melhor dançarino do grupo, soltou a voz e mostrou seu intrigante remelexo. Com o palco do Espaço das Américas cheio, eles engataram “Comida”, cantada por Arnaldo, e “Família”, por Nando. Duas escolhas acertadas para matar a saudade do público.

“Marvin” foi a vencedora com o maior coro da noite, mas foi uma decisão apertada. A ocasião era especial e o público sabia disso. Pelo ânimo visto por lá, nem público ou banda queriam que o encontro acabasse. Depois do primeiro bis, este já agendado, com “Homem Primata” e “Sonífera Ilha”, os pedidos de “mais um, mais um” foram atendidos.

Sem ensaio, garantiu Arnaldo, veio uma atordoante versão de “Porrada”. Para terminar, Miklos voltou ao microfone e repetiu “Bichos Escrotos”. Duas horas, no fim, foi pouco. Ainda que tenha havido alguma escorregada normal aqui e ali na segunda metade do show, o rock nacional respirou um ar fétido vindo do esgotos e porões paulistanos. Por uma noite, os Titãs voltaram com tudo. Por um única (e histórica) noite, é bem verdade, mas valeu a pena. A sede foi saciada.