Em entrevista exclusiva, Bruce Springsteen fala sobre o processo de criação de Born to Run

Clássico álbum do músico norte-americano completa 40 anos em 2015

Rolling Stone EUA Publicado em 30/08/2015, às 11h13 - Atualizado às 11h13

Bruce Springsteen

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Ele teve uma única chance de fazer acontecer. Pelo menos é assim que a história foi contada. Com Born to Run, de 1975, Bruce Springsteen, então com 25 anos, sentiu como se toda sua vida estivesse em risco, o que provavelmente é o motivo pelo qual ele se encaminhou – junto com a E Street Band – para a beira do colapso através dos torturantes anos da criação do disco.

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Em novembro de 2015, algumas horas antes de entrar no palco para um show da turnê solo Devils and Dust, Springsteem chamou a Rolling Stone para conversar sobre o processo de criação de Born to Run. No aniversário de 40 anos do lançamento do disco, aqui está a transcrição completa dessa conversa, publicada de forma inédita.

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Steve Van Zandt [multiartista norte-americano] disse que havia a sensação de que Born to Run poderia ter sido seu último disco. O quão verdadeiro isso é para você?

Eu estava de contrato assinado [com a Columbia Records] junto com John Hammond e Clive Davis e então, depois do meu primeiro disco, Clive Davis foi embora e eu me senti em uma condição desfavorável para o segundo álbum. Um grupo diferente de pessoas apareceu. Ninguém estava investindo em mim e estávamos passando por maus bocados. Acho que quando The Wild, the Innocent and the E Street Shuffle [o segundo disco] saiu ele não foi devidamente promovido. Sempre me lembro de ir até rádios em que não sabiam que eu tinha lançado um segundo disco [risos]. Lembro de todo mundo vindo para assistir alguma jovem e promissora banda que estava abrindo para nós e então ir embora quando nós aparecíamos. Naquele tempo havia um grande desacordo quanto ao disco e me pediram para regravar todo as músicas com músicos de estúdio. Eu disse que não gravaria e eles basicamente responderam, “Bom, veja, isso vai para a lata de lixo”. Esse é o negócio da indústria fonográfica, sabe.

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O single “Born to Run” veio bem antes do disco.

Sim, quando Born to Run saiu, tinha essa coisa incomum de o single ter vindo seis meses antes do disco. Demoramos tanto tempo com o álbum que demos a música para as estações de rádio pensando que estaríamos quase prontos, mas não foi o que aconteceu. Então, muito tempo passou até lá e algumas coisas boas aconteceram. Uma delas é que a própria faixa tocou bastante no rádio e havia muito barulho em torno dela. Acho que o que gerou o burburinho em cima do disco foi isso. E outra coisa boa foi que um cara chamado Irwin Segelstein apareceu para comandar a empresa. Irwin veio do departamento de televisão para liderar a gravadora e tinha um filho que estava na escola.

O filho viu o show e no dia seguinte eu estava detonando a gravadora no jornal da escola com algum repórter mirim e acho que o garoto foi para casa e mostrou para o pai. Irwin Segelstein nos reuniu e disse: “Vamos fazer as pazes?”. Mas estávamos em um período difícil e não sabíamos o que iria acontecer. Não éramos considerados um sucesso, então, Steve está certo. Por outro lado, não sei se teria encerrado tudo, porque o que mais iríamos fazer [risos]?

Eu dizia para os rapazes [da banda], ‘Não se preocupem, camaradas, nós vamos seguir em frente’. E os shows ao vivo estavam tendo uma boa resposta do público e não tinha volta para o trabalho diário. Ninguém tinha outros trabalhos. Sabíamos que ali é onde nós estaríamos.

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Quando você ouviu uma versão masterizada do disco, você odiou e jogou em uma piscina. Você já disse que a verdade é que estava com medo. Estava com medo do quê

Eu sempre tive uma atitude meio ambivalente. Do que eu estava com medo? De mudanças, não sei [risos]. Além disso, aquele era um momento em que sua música era a totalidade da sua identidade . Então, estávamos muito envolvidos naquilo. Parte do que faz a gravação tão boa é que atingimos extremos para estruturá-la, compô-la e tocá-la dessa forma muito detalhada e maluca. Eu não ouvi o álbum por mais ou menos 20 anos e recentemente escutei porque o remasterizamos e eu pensei, “Wow”. Ele é estruturado como um tanque, é indestrutível e isso veio de uma enorme quantidade de tempo que gastamos, uma insalubre quantidade de compulsão obsessiva. Eu estava com medo de lançar o disco e dizer: “Bem, esse é quem eu sou”, por todas as razões pelas quais as pessoas têm medo de se exporem. Esse é quem eu sou, isso é tudo que eu sou, esse é meu melhor, esse é o melhor que eu posso fazer nesse momento.

Você também perdeu a perspectiva disso naquele momento.

Eu perdi a habilidade de ouvir isso claramente, certamente até o fim do trabalho. Depois do longo tempo que gastamos nisso, eu só escutava o que estava errado com o disco ou o que eu achava que estava fraco nele. Foi traumático. E você é jovem, 24 ou 25 anos, e não tem a estabilidade ou a experiência para conseguir colocar isso em qualquer forma de perspectiva. Eu sentia que não haveria mais discos depois daquele.

Vocês ainda eram jovens quando vocês escreveu "You're scared and you're thinking that maybe you ain't that young anymore (você está assustado e está pensando que talvez não seja mais tão jovem assim)”. O que isso queria dizer?

As músicas foram escritas logo depois da Guerra do Vietnã e todo mundo se sentia daquela forma na época. Não importava a sua idade, todo mundo experimentou uma mudança radical na imagem que tinha do país [Estados Unidos] e de si mesmo. Você estava se tornando um tipo diferente de norte-americano do que a geração que imediatamente o precedeu, radicalmente diferente. Esse verso foi simplesmente reconhecer esse fato. Muitos dos meus heróis influenciaram esse álbum. Mas eu percebi que eu não era um deles. Eu era uma outra pessoa. Eu abracei o que nos faz singulares. Não era uma cópia de estilos anteriores. Tinha muita coisa da música que nós amávamos naquilo, mas tinha algo mais também. E esse algo mais era um senso de terror e de incerteza sobre o futuro e sobre quem nós éramos, aonde estávamos indo, aonde todo o país estava indo.

O lírico e o estilo chave dos trechos de piano do disco – "Thunder Road", "Backstreets" — se tornaram boa parte do que as pessoas imaginam como sendo o seu som. De onde aquilo veio? Quais foram as suas referências musicais?

O fato de aquilo ter essas introduções elaboradas, partes melódicas e uma variedade de movimentos, você pode creditar à forma como Roy Orbison compunha. Mas também era simplesmente algo que eu gostava. Eu tinha um pequeno piano Aeolian antigo em frente à minha sala de estar e eu sabia que estava interessado em compor no piano naquele tempo. Em parte porque eu estava interessado nesses movimentos temáticos. Acho que quando você faz isso corretamente, uma boa introdução faz com que a música pareça que está saindo de algo e então se envolvendo em outra coisa. Como se fosse parte de uma espécie de continuidade, também é dramático e foi feito para iniciar a música. Acho que alguém me perguntou sobre isso em um pequeno filme que fizemos e eu disse que parte da ideia era fazer parecer com que algo auspicioso fosse acontecer. Tem alguma coisa na melodia de “Thunder Road” que sugere um novo dia, uma manhã, alguma coisa começando. É por isso que essa música acabou sendo a primeira no disco, ao invés de “Burn to Run”, o que faria mais sentido. Acho que só tem oito faixas em Born to Run, acho que não é mais do que 35 minutos. Mas enquanto você ouve o álbum, onde cada música aparece na sequência, faz muito sentido. Mas nós não estávamos pensando nisso. A gente foi por instinto na época.

Antes de gravar uma nota de "Born to Run", que imagem de toda a coisa você tinha na cabeça?

Simplesmente extasiante, orgástica [risos]. Lembro quando o riff veio para a minha cabeça. Eu vinha ouvindo "Because They're Young", de Duane Eddy, e estava ouvindo muito Duane Eddy porque eu estava ligado no som da guitarra twangy no momento. Eu tinha essa ambição enorme, queria fazer o maior álbum de rock que eu já tinha ouvido, eu queria que soasse enorme. Eu queria que o álbum te pegasse pela garganta e insistisse que você entrasse naquilo, insistisse que você prestasse atenção. Não apenas à música, mas apenas à vida, sentir-se vivo, estar vivo.

Isso era mais ou menos o que a música estava pedindo e ela estava dando um passo dentro do desconhecido. Essa é a grande diferença, digamos, entre “Born to Run” e “Born in the U.S.A”, que obviamente era sobre estar em algum lugar. “Born to Run” era sobre procurar esse lugar, eu era jovem e era isso o que eu estava fazendo. Eu era bastante desprendido, havia um mapa complicado e eu estava prestes a sair à procura da minha fronteira, pessoalmente e emocionalmente. Tudo era muito, muito amplo e aberto. E é assim que o disco soa, amplamente aberto, cheio de possibilidades, cheio de medo, sabe, mais isso é a vida [risos].

Quando você toca "Born to Run" hoje nos shows, pessoas que estão assentadas, que não estão indo a lugar nenhum, ficam excitadas como nunca e cantam junto como se esse ainda fosse o hino deles. E você não está mais à procura de nada. Então, o que a música significa hoje que é diferente do ela significava então?

Acho que aquelas emoções e desejos, e esse era um disco cheio de ânsia, enorme ânsia, nunca vão embora. Você está morto quando isso vai embora. É isso, “Ei, você vai dar essa passo até o próximo dia e ninguém sabe o que o amanhã vai trazer”. Ninguém pode saber sobre isso. Então, a música continua a falar com essa parte de você. Ela transcende idades e continua com essa parte de você que está extasiada e assustada com o que o amanhã traz. Ela sempre vai fazer isso, é assim que isso foi construído.

"Meeting Across the River" é um presságio para Nebraska – sexto disco de Springsteen, de 1982 – e muitas das suas outras histórias musicais? Qual foi a origem disso?

Eu tinha esse pequeno riff de piano, não tenho certeza de onde a letra veio. Não sei explicar exatamente. Acho que naquela época tínhamos sido excluídos e provavelmente tenha algo a ver com isso, um sentimento que eu tive sobre eu mesmo talvez de que tinha sido subestimado. A maioria dos caras que entram no meu negócio tiveram a experiência de alguém que os descartou ou de ser subestimado, alguém julgando sua vida como se não tivesse um grande valor. Então, essa música cresceu disso: “Ei, esse cara é um peixe pequeno, mas ele ainda vai encontrar o lugar dele depois do rio”.