Em Interestelar, drama ecológico e familiar disputa espaço com ficção científica ambiciosa – e perde

Christopher Nolan “abraça o mundo” para contar uma história sobre viajar para fora dele; longa estreia nesta quinta, 6

Stella Rodrigues Publicado em 06/11/2014, às 12h33 - Atualizado às 14h28

Cena do filme Interestelar
Divulgação

Pode conter spoilers

É difícil equiparar Christopher Nolan a qualquer outro diretor atual de Hollywood. A filmografia dele é um oásis de roteiros cerebrais, originais e complexos. Assim como aconteceu com A Origem, que ele dirigiu em 2010, a tendência é classificar Interestelar como uma ficção científica, o que é de um reducionismo terrível. Aqui, o ambicioso Nolan eleva à potência máxima a tendência a abraçar tudo: drama familiar, ciência, temática ecológica, tudo embrulhado em visuais deslumbrantes, o grande trunfo de um filme que tem gerado comparações com 2001 – Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick) e Solaris (Andrei Tarkovsky), mas que, na realidade, bebe de todos os gêneros possíveis.

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Em Interestelar o Matthew McConaughey, na melhor fase da carreira, encarna Cooper, um engenheiro que viaja pelo espaço usando “buracos de minhoca”, um dos aspectos da ciência preferidos pelos autores de ficção. Segundo a teoria, retratada em filmes como Donnie Darko, os buracos são capazes de conectar regiões distantes de espaço-tempo, tornando possíveis coisas hoje inimagináveis (e, às vezes, inverossímeis), como viagens para o passado ou para o futuro. Se antigamente o gosto do público ditaria que uma jornada espacial cinematográfica deveria ocorrer para defender a Terra de alienígenas cruéis e gosmentos, a história de Nolan, criada em cima de um roteiro antigo do irmão dele, Jonathan Nolan, segue a atual tendência de motivação ecológica. No longa, a devastação da Terra levou a uma crise de falta de comida e a solução para a sobrevivência da humanidade está no espaço.

Astro da ficção científica Interstellar, Matthew McConaughey quer manter a boa fase, mas sem deixar a família de lado.

A primeira hora do filme, misteriosa e com tons de misticismo versus ciência, estabelece a premissa familiar que guiará todos os outros aspectos do filme. Cooper, pai de um adolescente (Timothée Chalamet) e uma garota (Mackenzie Foy), é basicamente o personagem “homem de família”, esforçado no intuito de fazer o melhor pelos filhos dentro de uma realidade devastadora. Fica claro logo de início a conexão e o amor entre pai e filha, a garota-geninha-geniosa com a função de desafiar o estabelecido para que a trama siga seu curso, será o fio condutor que moverá toda a ação. Menos óbvia, mas ainda assim importante para a história, está a relação entre par de pai e filha, a Dra. Amelia Brand (Anne Hathaway) e o Professor Brand (Michael Caine), que entram na segunda hora para deixar a realidade de humanidade em crise para trás e embarcar na jornada interestelar que dá título ao longa. Eles representam o que sobrou da NASA nesse momento perdido em algum momento não-determinado do futuro e encabeçam a missão que buscará um futuro para os serem humanos fora da Terra. A partir do momento em que fica claro que o único jeito de salvar a Terra é deixando-a para trás, começam a ação e as infinitas possibilidades de caminhos – tanto para o diretor, quanto para o astronauta.

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Da mesma forma como Cooper se perde na imensidão do espaço, o filme de Nolan fica perdido na vastidão do universo que condensou em 2h50 de filme. No quesito drama, ele fica devendo. Por mais essencial que seja a construção da relação entre pai e filha, ela não se aprofunda o suficiente ao ponto de não passar uma sensação de algo meloso e a até um pouco chatinho. Além disso, a complexidade da trama exige momentos em que explicar a tese ganha prioridade em cima de desenvolver a trama, o que inevitavelmente gera um desgaste nesse mergulho na experiência proposta pelo diretor. Ainda mais porque, por mais complexo que fique tudo - com ciência, a falibilidade do ser humano e toda uma gama de aspectos influenciando o rumo da trama – a resposta não está em nenhuma teoria sobre viagens interplanetárias, questões de espaço-tempo ou na exploração de outros planetas, mas sim na característica humana que mais intriga humanidade desde o início dos tempos, que é o amor.