Em novo disco, Lisa Marie Presley retorna às suas origens

"Eu estava sem inspiração e afastei certas experiências criativas anteriores", conta a cantora sobre Storm and Grace, produzido por T-Bone Burnett; leia entrevista

Steve Baltin Publicado em 17/03/2012, às 14h31

Lisa Marie Presley
AP

Storm and Grace, que chegará às lojas em 15 de maio, é o álbum que Lisa Marie Presley nasceu para fazer – um country poderoso, cru, com folk e blues, que faz a cantora abraçar suas raízes sulistas e o nome da família.

Para deixar o disco ainda mais impressionante, a produção é assinada por T-Bone Burnett, que já levou 12 prêmios Grammy para casa. Mas o processo de concepção do álbum foi iniciado bem antes que Burnett chegasse. Lisa viajou para a Inglaterra, onde teve a colaboração de compositores como Richard Hawley, Ed Harcourt e Travis’ Fran Healy para encontrar suas raízes.

Em entrevista à Rolling Stone EUA, a filha de Elvis e Priscilla Presley falou sobre o álbum, porque se sente mais a vontade fazendo uma gravação americana na Inglaterra e como Burnett devolveu sua fé na música, fazendo com que ela não lutasse mais contra si mesma.

É uma gravação crua. Foi difícil fazer?

Foi fácil, mas tive que ir longe para fazer isso. Fui para a Inglaterra. Eu estava sem inspiração e afastei certas experiências criativas anteriores, vindas de outras gravações. Então, eu realmente precisava me distanciar, buscar um cenário totalmente diferente. Passei oito meses me acostumando a estar lá e escrevendo, e isso foi realmente fácil. Aconteceu naturalmente.

Enquanto estava escrevendo, você sabia que o T-Bone produziria seu projeto?

Não fazia ideia. Tudo isso aconteceu quando falei para o Simon Fuller [empresário de Lisa e CEO da XIX Entertainment]: "Eu realmente não quero estar em uma situação típica mais uma vez. Quero me afastar de mim mesma e ir o mais longe possível". Felizmente, ele acertou tudo, e me juntou com outras pessoas. Nós escrevemos 30 músicas em oito meses, eu e os compositores. Isso aconteceu, mas eu não estava com pressa. Falei para Simon, logo no início, que um sonho meu se tornaria realidade se T-Bone fosse o produtor. E contei para ele que amei o Raising Sand [álbum de Robert Plant e Alison Krauss, produzido por Burnett] e todas as outras coisas. Depois que voltei e tinha as 30 músicas escritas, eu recebi uma ligação – "T-Bone ouviu as músicas e quer encontrar você na casa dele às 5 horas”. Eu pirei. Não esperava, nem sabia que ele tinha ouvido falar no projeto.

O que é fascinante é você ir para a Inglaterra fazer uma gravação essencialmente americana.

[Risos] Eu sei, isso é completamente louco, não é? Era para eu estar escrevendo algum tipo de sinopse sobre isso hoje e fiquei pensando que é tão irônico – finalmente a gravação de blues concreta, orgânica e enraizada sai de mim, na Inglaterra, com compositores ingleses. Não consigo te dizer quantas vezes as pessoas falaram: “Vá para Nashville e escreva com esses compositores; faça isso e faça aquilo”, e tentavam me empurrar em determinada direção. E eu sentia que aquilo não era o certo pra mim. Isso não foi projetado, as músicas já estavam lá, elas tinham seus tons, suas texturas.

É irônico, mas talvez não seja tão surpreendente, já que há uma longa história de músicos ingleses que abraçaram e entenderam a música americana.

É verdade. Pode acontecer de saberem mais da história da música americana do que os próprios americanos. Eles são muito bem educados sobre isso. E essa gravação sempre esteve em mim. Eu sou de onde sou, e nunca vou deixar de ser do sul. Portanto, essa é minha natureza. É que no passado algumas vezes alguns tentaram me empurrar para a cena de Nashville, ou cenas em que eu me senti artificial, não era natural para mim.

Você se sente mais confortável com suas raízes conforme vai ficando mais velha ou isso acontece encontrando as pessoas certas?

É uma ótima pergunta. As duas respostas são corretas. Sempre sinto uma necessidade de lutar, de bater, não sei o motivo. Mas, no passado, tentando fazer alguma coisa a mais, eu sempre acabava pisando e tropeçando em meus próprios pés. Não provava nada para ninguém fazendo alguma coisa completamente diferente, que não tinha nada a ver com nada. Eu estava contra eu mesma, me machucando, embora estivesse pensando que estava atingindo outras pessoas. Tive que passar por essas fases, eu passei. Então, sim, não vou mais fazer isso. Mas isso também foi estar perto de pessoas que eu conhecia e que não fariam isso comigo. Os compositores que estavam comigo não tentavam me empurrar em direção alguma. Eles não tinham agenda. Alguns nunca tinham composto com ninguém antes. Como o Richard Hawley, que nunca sentou e compôs uma canção com ninguém antes além de Jarvis [Cocker]. E ele estava meio nervoso, porque pensava “eu só escrevi com Jarvis”. E então ele escreveu “Weary”.

Essa gravação me parece intensamente pessoal. Quão importante foi a participação do T-Bone em estabelecer uma distância entre você e a gravação, servindo como um observador imparcial?

Apenas o fato de que ele queria dar vida a mim. Minha luz estava enfraquecida. A maneira como a indústria musical se foi me desanimou. E mais ou menos no segundo ou terceiro dia no estúdio, eu puxei ele ao meu lado e disse: “Eu só quero agradecer você – por fazer isso, acreditar em mim e gravar comigo, você realmente me deu alguma luz outra vez”.

Você é fã do britpop?

Isso é algo que o meu marido busca desde sempre e, na verdade, foi ele quem teve a ideia de compor com o Richard. E então nós meio que continuamos nesse caminho, porque estava indo tão bem, e o Ed embarcou nessa.

O que você leva disso quando ouve este álbum?

No passado, quando as gravações saiam e todo mundo ouvia, todos diziam “oh, isso está bom, isso está ótimo, oh, eu amei a gravação, blá blá blá”. Eu não podia realmente ter uma perspectiva, e dessa vez ninguém ouviu falar dele, minha mãe sequer sabia. É tão pessoal que não tocou para ninguém.

T-Bone realmente coloca ele mesmo no projeto. Ele vai estar envolvido em outra função como, por exemplo, shows ao vivo?

Eu o adotei como uma presença paterna em minha vida, então, de qualquer maneira que eu possa ter ele por perto, quero tê-lo por perto. Simplesmente o adoro, então o adotei e deixei ele saber disso. Se eu puder ter ele no palco, ficarei muito feliz com isso. Algo que queria dizer também era o fato de que eu não sabia que iríamos gravar ao vivo. Foi um pouco fora da minha zona de conforto, mas foi ótimo. Ele me disse, com uns três dias de antecedência: “Oh, a propósito, nós vamos gravar ao vivo”. Mas foi realmente ótimo fazer desta maneira. Isso me impulsionou muito.