Em Buoys, Panda Bear descobre uma nova voz sem abandonar sua complexidade característica

Novo disco solo do integrante do Animal Collective chega às plataformas de streaming nesta sexta, 8

Igor Brunaldi, Repórter Publicado em 08/02/2019, às 16h39

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Panda Bear (Arte: Hugo Oliveira / Foto: Fernanda Pereira)

Panda Bear é o projeto solo e pseudônimo criado pelo músico norte-americano Noah Benjamin Lennox, também integrante do grupo Animal Collective. Nesta sexta, 8, ele lançou Buoys, seu novo disco e talvez o mais facilmente decifrável até o momento.

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Noah exibe uma fala que se opõe de forma extrema à suas criações. A voz calma e as respostas compreensíveis parecem não vir da mesma cabeça idealizadora de músicas intrincadas que exigem no mínimo várias audições para que você consiga entender o que está acontecendo ali. Sem exagero.

Escutar um disco como Person Pitch (2007) ou Panda Bear Meets the Grim Reaper (2015) chega a ser um exercício de concentração e até paciência. Vocais encharcados de efeitos são sobrepostos e ao mesmo tempo subpostos a uma imensidão atordoante de pequenos detalhes sonoros que, em um primeiro contato, podem parecer não fazer sentido algum.

É preciso suar um pouco para atravessar essa barreira, mas, do outro lado da cortina de complexidade, existe a satisfação de encontrar algumas das composições mais únicas e criativas dos últimos anos.

Tudo isso é milimetricamente intencional. Noah conta que, de certa forma, não é possível dizer que seu trabalho surge de forma natural. "O meu objetivo é fazer algo que não se parece com nada que já existe. Busco apresentar algumas perspectivas que não vejo muito por aí."

E acrescenta: "O que eu mais gosto é quando uma coisa me confunde ou me desafia, ou algo que carrega em si um certo mistério. Por isso sempre tento fazer música que siga nessa direção."

Quando questionado sobre a busca por inspiração, a resposta que ele dá se mostra tão clara quanto reflexiva. "Tento buscá-las em todos os lugares e em lugar nenhum ao mesmo tempo. Quanto mais ampla for minha pesquisa por inspiração, menos óbvio fica de onde eu a tirei."

A maior diferença entre Buoys e o resto da discografia do músico formada por oito ábuns no total talvez seja, como mencionado antes, a facilidade com que é possível entender o que se está ouvindo ali.

Dizer isso, contudo, não significa que as novas músicas perderam seu caráter labiríntico, ou que não exista mais nada para decifrar. Bem longe disso.

Ao longo do álbum, o vocal é apresentado quase que majoritariamente sem outras incontáveis cópias distorcidas de si mesmo. E é isso que se destaca logo de cara. "Tentei fazer algo diferente do que eu já tinha feito, mais pessoal e íntimo. Antes, o objetivo era fazer minha voz soar como uma nuvem de confusão, ou como um novelo de lã. Agora é mais como um pedaço de plástico", explica.

E, antes mesmo de me dar tempo de perguntar, conta que "Dolphin", música que abre Buoys, foi escolhida para ser o primeiro single pois de certo modo sintetiza toda a mensagem que o disco quer passar: "Ela funciona meio que como um padrão e um guia para a estética que busquei nesse novo trabalho". 

Mudanças foram necessárias, e, apesar de saber que elas podem tanto trazer quanto afastar fãs, ele admite não se importar com isso e que também não pretende fazer um esforço consciente para resgatar público perdido ou conquistar um novo.

"Meu processo criativo sempre foi basicamente o mesmo. Ir do nada a algo é o que eu realmente amo, e por isso continuo fazendo música".

Nascido na cidade de Charlottesville, nos Estados Unidos, Noah hoje tem 40 anos e mora em em Lisboa com a esposa e dois filhos, uma menina de 13 e um menino de 8. Ele admite sentir que não tem chances de conquistar um público muito jovem. "Meus filhos odeiam minhas musicas" diz, mas depois de uma pausa, acrescenta: "Com meu filho talvez eu tenha uma chance, mas minha filha faz careta toda vez que ouve."

Buoys já está disponível nas plataformas de streaming. Clique aqui para ouvir.

Ouça abaixo o single "Dolphin".