“As pessoas podem escutar Facção ou Pollo, mas o hip-hop está vivo”, diz Emicida

Artista, que recentemente lançou o primeiro disco completo da carreira, celebra boa fase do rap nacional

Lucas Reginato Publicado em 06/10/2013, às 15h42

Emicida
Ênio César / Divulgação

Oito anos é um tempo considerável para uma carreira, e foi o que Emicida percorreu até lançar O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, seu primeiro disco completo. Mesmo tendo feito barulho com suas mixtapes, ele acredita que a espera foi necessária para que conseguisse não apenas ter condições de fazer o trabalho da forma como queria, mas também para ter mercado e público preparados para receber um álbum de rap como este.

Resenha: com a experiência de produzir várias mixtapes, Emicida enfim lança o álbum de estreia

“Acho que o disco sinaliza um amadurecimento poético e musical, porque a gente não expandiu nem se limitou ao sample. A gente pôde criar do zero e ter a música como referência”, explica Emicida. São 14 faixas construídas em estúdio, com instrumentistas escolhidos por ele para reproduzir organicamente a multiplicidade da música brasileira. A sinfonia foi organizada pelo produtor Felipe Vassão, parceiro desde os tempos de “Triunfo” (2008). “Desde o começo eu e o Felipe queríamos fazer um disco de rap. Não queria fazer um disco experimental, isso vai ficar mais pra frente”, ele brinca.

“Todas as mixtapes que eu fiz funcionaram de um jeito freestyle – um cara me mandava uma batida instrumental e eu cantava em cima. Dessa vez não, eu queria partir do zero. Queria que os arranjos fossem feitos em cima da poesia”, conta. A complexidade e a novidade intrínsecas ao projeto demandaram também tempo e paciência. “O último trabalho que a gente lançou foi em 2011 e eu já estava fazendo o disco”, lembra. “Foi importante também dar um breque, dar uma analisada no que eu estava falando, porque eu tenho um puta receio de me tornar redundante, de ficar eternamente batendo na mesma tecla. Tem temas que são comuns pro rap, eu gosto de entortar a coisa e levar para outro lado, ou então falar do mesmo tema de uma maneira totalmente diferente. Depois de 2011 eu dei um breque, parei de escrever, e fiquei uns 8 ou 10 meses sem pegar minha caneta. Tem uma frase da minha primeira mixtape que é louca: ‘Quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo’. Acho que esse disco sintetiza isso.”

Veja a visita de Emicida ao Estúdio RS.

Uma simples audição do disco é suficiente para que se evidencie como de fato Emicida procurou novos caminhos para transmitir sua mensagem. Não é dele, por exemplo, a voz que abre o álbum – é de Elisa Lucinda, a poetisa que escreveu especialmente para o projeto o poema “Milionário do Sonho”. “A perspectiva da Elisa me toca muito. Tem um livro dela chamado A Fúria da Beleza que é um dos livros mais legais que já li. Eu queria alguém que partisse de uma perspectiva parecida com a minha, só que queria a visão de uma mulher.”

Talvez nenhum dos dois imaginasse como estariam em sintonia. “Faz muito sentido a gente se gostar”, diz Elisa, que vê pontos em comum entre os trabalhos dela e dele. “Eu acho que minha poesia tem um ritmo, uma musicalidade. Além disso, acho que tem o discurso político dentro do cotidiano, sem ser panfletário.” Além da identificação mútua, existe a própria ligação, quase umbilical, que conecta a arte feita por eles. “É uma relação natural entre poesia e rap. É engraçado que é o pão e a forma – o conteúdo e o modo para se chegar à população”, ela teoriza.

Também por isso O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui representa um passo ousado na carreira de Emicida, que alcançou uma posição rara para um rapper na música brasileira. As dimensões a que ele chegou e os canais que encontrou para transmitir sua música foram pouco desbravados por artistas do hip-hop no Brasil. Uma das faixas do disco, por exemplo, é “Zoião”, trilha da novela global Sangue Bom. “A independência não tem que ter menos visibilidade que o mainstream. A gente consegue essas exceções dentro do mercado e tem que se apropriar delas”, prega o rapper. “O rap nunca teve visibilidade suficiente pra que a gente vislumbrasse uma carreira e sonhasse em ser artista. A gente não sonhava em ser artista e cantar no Faustão, por exemplo. O nosso sonho era fazer rap, tocar numas quebradas e falar umas ideias legais para o povo da rua. É louco como tudo isso mudou em tão pouco tempo.” Assim como ele, outros nomes do rap estão chegando a um público cada vez maior, como o amigo Criolo, com quem Emicida lançou o DVD Ao Vivo.

Emicida e Criolo se unem para DVD celebratório ao vivo, com participação especial de Mano Brown.

O rapper também soube aproveitar as facilidades de seu tempo – cresceu de forma independente e distribuiu sua música pela internet. Atualmente, embora flerte com o mainstream, ainda se permite inovações como as percebidas em O Glorioso Retorno.... “Hoje tem muito mais coisa acontecendo. Tem uma demanda e uma atenção maior para as coisas que a gente faz. Mas a essência do disco é a essência do começo. Eu queria desde o começo remeter ao samba, ao maracatu e à percussão, mas não tinha recurso. Não tinha como colocar um percussionista dentro do estúdio e mixar aquilo da maneira ideal. Foi um sonho que foi sendo empurrado para frente cada vez mais e hoje a gente conseguiu realizar. O nome do disco já está pronto há uns oito anos”, brinca ele, que quando mais novo costumava de desenhar as capas do que, na imaginação dele, viriam a ser seus discos.

“O lance do título é esse – é o retorno porque para muita gente eu estou de volta. Só que muita gente não faz ideia de quem seja o Emicida. O disco é isso: cumprimenta quem já conhece e se apresenta para os desconhecidos”, ele esclarece, afirmando ainda ter consciência da dificuldade de alcançar a posição que ocupa hoje. “Tenho um orgulho muito grande de ter chegado onde eu cheguei, construído o que eu construí, ter levado o rap pra tantas pessoas e de ter aberto tantas portas. Acho que sou, sim, responsável por uma abertura de pensamento até dos próprios meios de comunicação em relação ao rap.”

Mas a ideia nunca foi brilhar sozinho. “A gente falava muito de como a referência ao rap era sempre ao passado, como se estivesse acabado. E isso não existe mais – as pessoas podem escutar Facção ou Pollo, mas o hip-hop está vivo.”