A Emancipação de Manu Gavassi: 'Eu quis agradar os outros por muito tempo'

De ídolo teen a finalista do BBB20, artista chega à plenitude artística diante dos olhos do Brasil no maior reality show do País

Pedro Antunes, editor-chefe Publicado em 25/04/2020, às 12h00

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Manu Gavassi (Foto: Divulgação)

Manu Gavassi entrou com uma pose segura naquele apartamento espaçoso, decorado de quadros por todas as paredes e sofás convidativos, confortáveis e vermelhos, localizado na Rua Augusta, em São Paulo. Botas de couro com saltos gigantes, calça estampada e uma camiseta propositalmente despojada. Usava duas argolas gigantescas penduradas nas orelhas e o cabelo estava cortado curtinho. Falou brevemente (e sorridente) sobre o atraso para a entrevista marcada para aquela segunda-feira.

O papo ocorreu quase um ano atrás, veja bem, em 3 de junho de 2019. Manu Gavassi, artista com a vida esmiuçada há uma década - desde que surgiu como ídolo teen quando tinha 16 anos e uma headband em clipes como "Planos Impossíveis" e "Garoto Errado" -, entrava em um novo momento da carreira. Na época, isso ainda não era claro, entende? O processo de emancipação de Manu Gavassi ainda não estava completo, diferentemente do agora.

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Na época, ela tinha recém-lançado a web série divertidíssima Garota Errada, na qual brincava com a ideia que todos fizeram dela nesse tempo todo. Também havia lançado o EP Cute But Psycho, um trabalho com 3 músicas de pegada bem eletrônica e canções extremamente sinceras e pessoais. "Eu sou difícil de entender", canta ela na faixa-título.

Por fim, também naquela época, havia realizado uma turnê acústica por teatros e lançado a parte do projeto MINIDocs Nashville o qual participou como um novo EP. Nele, ela regravou músicas do início de carreira na cidade norte-americana com Tó Brandileone, uma espécie de geninho dessa nova geração de cantautores pop que você realmente deveria conhecer.

Ou seja, naquele 3 de junho de 2019, Manu ainda começava a colocar para fora o que viria ser o seu processo de reinvenção (detesto essa palavra, perdão, mas ela faz sentido aqui). Ela fazia as pazes com o seu "você anterior" com a turnê acústica e o MINIDocs, expunha suas verdades em uma web série idealizada e roteirizada por ela.

Depois daquela entrevista, ainda viria um segundo EP e Cute But (Still) Psycho, mais vídeos no YouTube, até a chegada do convite para participar do BBB20.

Manu demorou para cogitar aceitar a participação no reality show da TV Globo. Era muita exposição, é claro, mas com a visão de agora, de 25 de abril de 2020, quando esse texto finalmente é escrito, realmente faz sentido.

Se Manu Gavassi vivia justamente o processo de se desprender das amarras criadas pela fama precoce, pela imprensa, pelos haters que todo influenciador possui (e como ela detestava essa palavra: "influenciador"), a entrada no BBB20 fazia sentido.

A estratégia bolada com o empresário Felipe Simas foi brilhante. Uma tonelada de vídeos foram gravados para irem ao ar nas redes dela até se chegasse à final da disputa. Ela entorpeceu seu Instagram, ferramenta dita por ela como sua principal fonte de trabalho atualmente (como você lerá a seguir).

Entrou no reality show com 4,4 milhões de seguidores (o que já é um número assombroso. Na quinta-feira, dia 23, ela venceu a última prova do programa e se tornou a primeira finalista da 20ª edição do BBB. Hoje, sábado, enquanto o texto é escrito durante essa manhã, a conta dela já tem 12,7 milhões.

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Toda a ideia de entrevista com Manu Gavassi aconteceu quando, em 2019, percebi que havia uma transformação vindo. Batemos um papo longo, de quase uma hora. Eventualmente esse texto viria, quando fosse a hora, sem pressa. É uma dessas sensações inesperadas quando você percebe que a vida real completou a peça que faltava do quebra-cabeças que era essa matéria.

Manu Gavassi, independentemente do resultado do BBB20, está emancipada. E aqui está a entrevista dela com a Rolling Stone Brasil:


Rolling Stone Brasil: Sempre existiu muita expectativa em cima de você. São 10 anos de carreira. Consegue entender quando na sua vida você parou de se preocupar tanto com o que as pessoas esperavam de você a ponto de criar algo em cima disso? Foi longo o processo de se entender melhor? 

Manu Gavassi: Foi um longo... E doloroso processo. Porque comecei muito novinha, comecei com 16 anos. Nesse processo de crescer, de adolescência e pós-adolescência, você quer se distanciar daquilo, quer mostrar que cresceu. Ficar presa na memória das pessoas naquela fase é muito ruim porque eu tava crescendo e me desenvolvendo e queria fazer outras coisas, ser vista de outra maneira. Mas por muito tempo continuei: 'ah, ela canta pra criança, ou adolescente'. Ignorando o fato também que adolescentes crescem com a gente. Não é que fiquei 10 anos fazendo uma série de adolescentes. Comecei com 16 anos e o público tinha por volta dessa idade. Se cresci, todo mundo cresceu junto. A mídia, principalmente as pessoas que tomavam conta das decisões, tinham essa visão minha. Isso por muito tempo me incomodou e foi um processo muito lento e muito maravilhoso no final das contas.

É louca a possibilidade que tenho de ter começado há 10 anos e esse tempo depois existir e poder me expressar e criar. E ser aceita. Sim, é uma raridade. A meu ver é quase um milagre. Era pra eu estar enterrada na memória afetiva pré-adolescente de 2010. Hoje em dia me sinto muito melhor e mais forte com o que quero fazer e muito mais segura com as minhas decisões de não aquietar só na música.

Por muito tempo, cobrei a mim mesma para escolher uma coisa só para ser respeitada. Faço milhões de coisas, pensava que nunca seria respeitada. Esse também era um medo da minha cabeça. Com o tempo e com a maturidade, eu vi que não precisava dessa ansiedade, fui entendendo o que curto na arte, seja como for, na música, mas não somente nas composições e arranjos, mas na maneira com a qual ela vai ser apresentada ao público, em fotos, em video. No livro que escrevi e usei pedaços dele par usar em Garota Errada que é um piloto de algo maior. Estou aprendendo a fazer um roteiro, foram 5 minutinhos, 5 episódios, meu desafio está sendo transformar um episódio de 5 minutos em um de 20 minutos que prendam, não só pessoas que me conhecem, mas também quem não me conhece, que seja pra todo mundo, independentemente da pessoa ter memórias comigo.

Abri várias frentes e  estou com a calma agora. Maturidade traz isso, né? Conseguir rir de mim mesma, fazer as pazes com o meu passado, entender que na real depois de muita vergonha que eu tinha, hoje tenho muito orgulho do meu começo, orgulho de quem eu sou e tenho muito orgulho hoje em dia de poder brincar de fazer todas as coisas que eu amo. E viver disso, me sustentar disso.

RS: Quando esse momento aconteceu? Entendo que é um processo, mas em algum momento, em um passado recente, você percebeu que passou por essa mudança. Quando percebeu que estava mudando de fato?

MG:Faz um ano, foi um processo bem recente, na verdade. Dos 25 aos 26 anos, existiu uma virada em tudo na minha vida e na compreensão comigo mesma. Foi uma percepção sobre mim que não tinha. Sabia que gostava de criar música, de fazer várias coisas, sabia que não estava sendo bem compreendida, mas eu não sabia como sair disso. Por muito tempo isso foi só uma frustração.

Dos 25 aos 26, entendi que tinha que me apropriar de todos os meus projetos, eles só tinham graça se tivessem a minha impressão digital. Só se eles fossem 100% eu em tudo. O último CD que lancei em gravadora foi Manu, em 2017,e foi um grande aprendizado. Foi um álbum com o qual falei: agora que está na moda ser popstar pela primeira vez no Brasil, tenho tentado há tanto tempo e agora será o meu momento, vou ser mega comercial. Eu tinha esse plano "maligno" de fazer o CD pop perfeito e iria fazer do meu jeito. Mas deixei tudo muito plástico, fiz a lição de como ser um popstar, ainda era um projeto de como ser um popstar, mas deixei muito da minha alma, o que era verdade pra mim, um pouco de lado par entregar esse projeto que me propus a fazer. Eu tinha um show maravilhoso, no Tom Brasil, uma das maiores casas de show em São Paulo, com 4 trocas de figurino, com 4 prelúdios no telão que eu dirigi, com música que escrevi, com coreografias que eu decidi fazer. E saí do show e falei: o que eu to fazendo da minha vida? Porque estou fazendo isso, eu tinha esquecido porque eu estava fazendo isso porque estava bitolada na ideia do projeto plástico popstar que me propus a fazer, depois aquilo passei por um processo difícil e doloroso muito foda de crescimento e de compreensão de quem quero ser. Depois, eu vi que não adiantava. Que eu poderia dançar o que for que não seria feliz se não colocasse a minha alma.

Tirei os apliques loiros, cortei o cabelo, voltei a ser morena, fui me entender, ficar um pouco sozinha, um pouco afastada. Escrevi um livro que é uma ficção, mas é muito baseado nas minhas opiniões, na minha história dos últimos anos. Consegui colocar tudo numa ficção e pensei: cara, antes da música, eu preciso fazer as pessoas entenderem quem eu sou hoje. Tenho muita birra com YouTube, comecei lá há 10 anos e nunca mais voltei. Pensei: por que não me apropriar dessa ferramente que tenho para dar minha mensagem. Foi a partir que criei esses 5 episódios para internet que eu dirigi e co-dirigi com um amigo meu, roteirizei tudo, e lancei. Sem querer foi um rebranding.

RS: Tem um retorno de Saturno vindo aí? Está preparada? Para mim, preciso dizer, foi intenso.

MG: Passei por uma turbulência e hoje consigo respirar e me sentir completamente distante desse drama que criei pra mim na minha carreira nos últimos anos.

RS: Mas foi bem intenso, né? Afinal, foram só dois anos desde isso.

MG: Faz exatos 2 anos, nosso celular lembra a gente agora.

RS: Você conseguiu ficar um tempinho afastada?

MG: Afastada do trabalho. Tenho uma maneira de me posicionar e isso me proporcionou trabalhar com a internet e seguir sustentada pelo meu próprio trabalho com moda. Comecei era antes de tudo virar internet, mas eu não queria ser isso. Quando me foi dado o título de influenciadora, pensei: eu não quero isso, eu renego isso.

RS: Existe, ou melhor, existiu um sentido negativo em torno desse termo, né?

MG: Não gosto do nome de influenciadora. Eu não quero influenciar nada! Cada um pensa com a sua própria cabeça eu não gosto disso. Parece que você está influenciando alguém a comprar algo. Demorei nesse processo todo de me questionar. Ficava pensando que queria fazer artes, "mas, na minha arte, as pessoas não estão me entendendo". Também estava frustrada na minha própria arte, nesse processo eu entender que a arte significa para mim e o que a moda também significa pra mim também.

A moda sempre teve um papel importante em tudo que eu tanto amo, na música, para os meus ídolos e pra mim. Nunca fui refém da moda, desde muito pequena. Porque meu pai é um "roqueirão da Radio Rock", ele nunca foi apegado a marcas. Gostava da moda e criava moda: pintava o cabelo com uma cor de cada lado, cortava a meia-arrastão e ia para escola. Isso teve um papel fundamental em formar minha autoestima e minha individualidade.

Continuou sendo, pra mim, uma grande ferramenta de comunicação, de arte e de percepção de quem sou. Quando consegui me apropriar disso, do "caraca, eu estou com birra disso de influenciador" e tal, percebi que gosto tanto de moda, ela faz tanta parte da minha vida e vejo as pessoas falando tão mal dela, ela é tão incompreendida. Pensei: vou defender a moda! Então, foi meio que isso.

O Cute But Psicho, que foi um projeto que lancei um EP ano passado logo depois do lançamento da série, pra mim, foi a representação do que queria ser e fazer. Peguei um fotógrafo de moda, a minha stylist, a minha música, a minha verdade, juntei tudo isso e lancei um projeto que é atual, que não precisa de clipes e lançamentos nos moldes antigos.

O Instagram é a minha maior ferramenta hoje em dia, então pensava em por que não lançar história a qual as pessoas vão acompanhar? Por que ficar refém de clipe? Hoje em dia, a gente pode criar outras coisas, criei uma fotonovela para o Cute But Psycho com fotógrafos de moda. Depois, marcas vieram perguntar se eu queria fazer o Cute But Psycho com eles. Fiz uma coleção de óculos com a Livo. Chamaram para criar uma campanha de Dia dos Namorados com a minha linguagem, com as minhas historinhas, e foi o maior engajamento que já tive com um publipost. Foi um case, foi um case pra mim mesma do que eu poderia fazer ao longo dos anos.

RS: Antes das redes sociais, a comunicação do artista passava diretamente pela imprensa, pelo material de divulgação da gravadora. Não tinha outra forma de comunicação. Agora tem. As redes ajudaram você a ser quem queria ser sem precisar se enquadrar em caixinhas e padrões que te colocavam?

MG: Cute But Psycho e a web série tiveram um papel grande nisso. Porque pessoas como você, que não são o meu público, compartilharam aquele vídeo. Existia essa compreensão geral a meu respeito e pude me apropriar de novo de quem eu sou. Agora você sabe quem eu sou hoje em dia. Foi mais importante lançar o EP. Só tive coragem de lançá-lo e bancar isso com a minha gravadora na época porque eu tinha lançado a série e tinha dado super certo.

Estou sentindo que, ao mudar no meu trabalho, as pessoas que realmente importam e podem mudar a minha carreira estão vindo falar comigo sobre isso. É louco sentir que estou só começando. É louco porque, afinal, comecei há muito tempo, mas agora eu tenho coragem de ser quem eu sou, tenho as ferramentas para ser quem eu sou e estou pronta para isso.

RS: E nesse tempo de entender quem você é, saiu o EP com versões acústicas de músicas antigas suas, o MINIDocs Nashville.

MG: O diretor musical desse projeto é o Tó Brandileone, do 5 a Seco, e fui convidada para isso. Foi antes de ser lançado o EP Cute... Foi gravado no Blackbird, que é um estúdio lendário de lá. Fui sem saber o que fazer. O que eu iria cantar? Não tinha sentido gravar algo novo, um trabalho mais eletrônico. Conversando com o Felipe Simas [empresário], ele falou: 'Por que não fazer as antigas? Você e o Tó, hoje em dia, vão saber dar uma cara para elas que te orgulhe". E foi a melhor coisa que eu fiz. Estava pensando em fazer uma turnê acústica, algo que sempre tive medo, porque tive o trauma de entrar no palco com pirotecnia, com 4 trocas de figurino, para pensar depois do show "o que estou fazendo?".

Saí disso tudo para um show acústico de teatro. Fiquei um ano longe dos palcos, talvez mais. Fiz 15 shows na época de Manu e depois, o acústico. Em um estava loira de cabelo enorme, no outro, morena, quase careca. Eu não sabia o que esperar. Vamos fazer? Vamos. Marcamos algumas datas e foi a melhor coisa que eu poderia ter feito, ao mesmo tempo em que estava criando a concepção de Cute But Psyco, eu precisava fazer as pazes com meu público e com quem eu era. Precisava pedir desculpas para eles. Eles têm uma memória afetiva com essas músicas e eu também. Já lembro de tudo aquilo que vivi com carinho e orgulho. Então, resolvi dividir isso com a galera, recuperar minha força no palco, minha voz.

Pulei essa fase do teatro. Nunca tinha pisado em e, de repente, fui direto para o Via Funchal tocar diante de 3 mil pagantes com uma banda que criaram para mim, com tudo o que criaram para mim. Claro, eu sempre criei a minha própria música, ao mesmo tempo, foi assim: vai. Não houve construção, aquilo de batalhar pelo público de teatro. Não tive nada disso. Fui ter isso agora, 10 anos depois. Estava conversando com a Ana, da Anavitória, eu via aquela magia com elas no palco. E eu, nossa, nunca senti essa magia de estar segura e 100% feliz. Mas foi assim, viajava com três pessoas. Antes, eu viajava com 10 bailarinos. Tirando tudo isso, hoje eu me sinto segura. Foi nesse processo que fui chamada para fazer o MINIDocs.

Quando sentei com o Tó e tocamos as músicas antigas, quando coloquei as músicas no violão do Tó, eu pensei: "Poxa, caraca, eu me acho foda." Foi muito legal perceber: pô, eu te respeito, estou aqui cantando hoje música que fazem sentido pra mim do meu jeito porque agora eu sei quem eu sou, recuperei o respeito por mim mesma.

Por isso o MINIDocs foi tão surpreendente. Sei o valor que ele teve pra mim. E poder fazer isso em Nashville, que é uma cidade incrível de estar lá. Por isso, até, pensamos em lançar essas versões como um EP. Foi uma sessão de terapia que fiz comigo mesma relançar "Planos Impossíveis", que foi minha maior música quando era mais nova. A gente não sabia que viraria um EP e virou. Ficamos 4 dias com sensação térmica de 2 semanas.

Hoje, afinal, o que as pessoas podem esperar de Manu Gavassi?  

Verdade. Diria verdade. Porque em tudo o que faço, essa é característica comum. Estou sendo muito verdadeira comigo, mesma. Se gosto, eu lanço. Não me importo mais em agradar os outros. Antes você deve agradar a você mesma. Aprendi a me respeitar antes de ter essa ânsia de agradar, eu quis agradar por muito tempo. Hoje em dia é um respiro conseguir pensar um pouco em mim. Pensar no que me faz feliz e no que quero mostrar como artista.


Bônus: "Você me lembra alguém", diz Manu Gavassi, ao final da entrevista. "Greg", começa ela, junto de mim: "Gregório Duvidier", respondo. "Gregrório Duvivieeeeeerrrr", diz ela, feliz em expor a semelhança. "Não é só fisicamente, mas tem alguma coisa no jeito de falar", completa. Quase um ano se passou e eu ainda não sei como me sinto em relação a isso.