“A energia das performances foi intensificada”, diz fundador da Rolling Stone EUA sobre a passagem de Bruce Springsteen pelo Brasil

Jann S. Wenner viajou para São Paulo e Rio de Janeiro com Bruce Springsteen e explica a estratégia emocional do músico para reconquistar o público da América do Sul

Paulo Terron Publicado em 29/09/2013, às 12h57 - Atualizado às 16h39

Bruce Springsteen - Rolling Stone
Jann Wenner

Certa vez, Bruce Springsteen fez uma confissão a Jann S. Wenner, fundador da Rolling Stone EUA: antes de ser famoso, ele andava quilômetros até uma banca mais tranquila, em Nova Jersey, para poder se encostar em um canto e ler as edições da revista sem ter de comprá-las. Décadas depois, o músico não precisa mais se preocupar com isso. Ao longo dos anos, estampou a capa da publicação dezenas de vezes – e foi escolhido como o melhor performer ao vivo em atividade.

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Não é à toa. A conexão do músico durante os shows é única, o que garante estádios e arenas lotados nos Estados Unidos e Europa. E agora Springsteen quer recuperar um território que estava meio esquecido: a América do Sul. “Ele está encontrando um novo público, fãs com quem ele não tinha se conectado antes”, explica Wenner, que acompanhou o músico durante os shows de São Paulo e do Rock in Rio, neste mês, os primeiros no país desde 1988. “Fazia 25 anos que a banda não se apresentava na América do Sul, desde a turnê da Anistia Internacional, que foi um quarto de século atrás. De certa forma, ele era até meio desconhecido na América Latina – ele sabe disso e abraçou esses shows com muita vontade. A energia das performances foi intensificada, e ele fez todo mundo dar duro nessas apresentações.”

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A relação de Springsteen com a Rolling Stone continuou próxima. No meio dos anos 70, ele se aproximou do crítico Jon Landau, que escrevia para a revista e acabou se tornando empresário, produtor e conselheiro, uma relação que dura até hoje. Landau é autor da famosa frase: “Eu vi o futuro do rock and roll e o nome dele é Bruce Springsteen”.

Aos 64 anos, o empenho de Springsteen para continuar sendo o futuro – e não uma figura do passado – continua claro. Um bom exemplo é a escolha de “Sociedade Alternativa”, de Raul Seixas, para abrir os shows brasileiros (e canções de Mercedes Sosa e Víctor Jara, na Argentina e no Chile). “O Bruce e a E Street Band aprenderam e ensaiaram a faixa durante as passagens de som no Brasil”, conta Wenner. “É uma canção sobre tempos melhores e liberdade – o mesmo tipo de assunto que ele aborda nas composições dele. Também foi uma forma dele dizer: ‘Estou aqui, prestem atenção, estou falando português com vocês, preocupo-me com a minha plateia’. Ele se sente bem fazendo aquilo.”

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Inicialmente, a dedicação de Springsteen parece ter funcionado. A crítica dos shows sul-americanos foi amplamente positiva, e a exibição do Rock in Rio ao vivo pela televisão e internet conquistou um público que talvez só se lembrasse de “Born in the U.S.A.”. Resta aos brasileiros os próximos passos do Boss, que não deve demorar mais 25 anos para chegar à América do Sul, como reforça Wenner. “Como ele disse em São Paulo, ele vai voltar para o Brasil logo.”