Como o Brasil Grime Show levanta a cultura de rua mesmo durante a pandemia

Vitrine de MCs, o programa se adapta as dificuldades do isolamento social para destacar a sonoridade do gênero londrino que já ganhou "a cara do Brasil"

Nicolle Cabral Publicado em 13/07/2020, às 07h00

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Brasil Grime Show e Dj Oblig (Foto e edição: Wander / I Hate Flash)

Como uma das exportações musicais britânicas mais interessantes das últimas duas décadas, o grime, enfim, aterrizou no Brasil. Com BPM acelerado e influências do UK Garage, Jungle e o Drum and Bass, o gênero, que surgiu na capital inglesa no início dos anos 2000, fez barulho no Rio de Janeiro com o impulso de DJs e MCs e a fusão da sonoridade local: o funk.

Devido à agitação da cena e inspirados pelo formato das rádios online de Londres, Antonio Constantino (ANTCONSTANTINO) e Mateus Diniz (diniBoy) criaram o primeiro projeto destinado a fomentar o grime no Brasil. Sediado no Estúdio Casa do Meio, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o Brasil Grime Show reúne MCs para rimarem por cima de beats em uma sessão descontraída e gravada para o canal do YouTube.

Com mais de 21 mil inscritos na plataforma para acompanhar as sessões, a trupe formada por produtores, DJs e videomakers se tornou uma biblioteca musical online do gênero para quem aprecia as batidas energizantes. Devido à pandemia do novo coronavírus, contudo, o canal precisou passar por mudanças. "A nossa dinâmica mudou 100%", conta ANTCONSTANTINO em entrevista à Rolling Stone Brasil. "Todos os dias buscamos uma maneira nova de continuar lançando conteúdo".

Segundo o DJ e co-fundador do programa, todos os quadros precisaram ser remanejados para um formato inteiramente digital. "Os quadros têm sido feitos com cada um em casa, geralmente pelo discord. O DJ Set, que também era no estúdio, está sendo gravado em partes por cada um". A vontade e disposição do grupo de manter o projeto de pé dá ainda mais força para o que estava sendo construído pelos MCs antes de serem interrompidos pela pandemia. 

Alguns como, por exemplo, o carioca Leall — que participa do vídeo mais visto do canal com mais de 231 mil visualizações — ganhou projeção após participar do programa. Dono de um flow fluído e acompanhado por beats agressivos, Leall é um dos nomes que impulsionam essa vertente do rap nacional com as faixas "Cachorrada", "Criminal Influencer" e "Moda Síria (Anti-Adidas)". 

 

Conexão Londres x Brasil: O BRIME! 

Em 2019, o ritmo pareceu dar um salto aos olhos do público. A aparição de Fleezus e Febem, MCs paulistanos, em um dos episódios do canal, também contribuiu para isso — ambos os artistas já tinham lançado projetos com uma levada de grime. 

A união e afinidade vocal dos dois deu tão certo que, junto ao DJ Cesrv, deram origem ao Brime!, primeiro disco que evidencia a identidade brasileira em um rap feito originalmente na Inglaterra. Apesar de abrasileirada, a produção foi feita na capital londrina. O trio, Febem, Fleezus e Cesrv, viajou para participar do Say Nuttin’ e em sete dias fizeram o EP, que foi lançado em março de 2020. "Tentamos usar ao máximo as nossas referências de música brasileira. Tanto que a gente olhou e pensou: 'Isso não é grime, é brime'.", conta Cesrv sobre os bastidores da produção. 

 

Ainda que o ritmo mantenha o caráter underground, assim como em Londres, o projeto pontua um passo importante para o gênero no Brasil. "O grime tem um espaço muito grande para crescer dentro da cena do rap e para as pessoas que consomem essa cultura. Mas em uma questão mainstream, o grime vai continuar no lugar dele, ele pode até flertar com outras coisas, como foi o brime", reflete Cesrv

Para Febem, "o que faz parecer que a cena de lá [em Londres] ser grande, é o acesso que os artistas têm às câmeras e estúdio. Tudo profissional. Mas lá também é correria".

Amparados pela identificação, não só de ritmos, os temas presentes nas rimas e no estilo de vida dos MCs são um belo vislumbre da ressignificação do grime londrino quando chega ao Brasil: as batidas eletrônicas viram trilha do amor ao futebol e a cultura de rua. Não é por menos que a capa do projeto seja um registro do jogo que marcou a vitória do Corinthians contra o Chelsea na final do Campeonato Mundial de Clubes: o zagueiro Chicão dando um carrinho em Hazard.

O show tem que continuar 

Com novos lançamentos e o burburinho do gênero nas pistas, os shows e eventos para 2020 faziam parte dos planos. Depois de uma mini turnê com Oblig — referência para ANTCONSTANTINO e diniBoy — no Rio de Janeiro e em São Paulo, a ideia era dar continuidade a terceira temporada do Brasil Grime Show, porém, a pandemia interrompeu a programação.

Por ainda não existir um retorno financeiro vindo do canal, ANTCONSTANTINO explica a motivação por trás do projeto: "Acaba sendo algo pela cultura mesmo. Óbvio que a gente quer ganhar dinheiro, mas isso não acontece. A gente criou por ser algo que curtíamos muito e não tinha no Brasil. Claro que já teve gente que lançou grime, mas não com esse formato. Acabou sendo mesmo uma vitrinezona de MCs". 

Para diniBoy, uma das mentes por trás do Brasil Grime Show, o cenário é otimista "é uma cena que ainda vai crescer muito e gerar oportunidade para novos artistas e produtores. Muita coisa boa ainda vai acontecer".