Entrevista: estrela do MMA, Gina Carano estreia em Hollywood no filme A Toda Prova, de Steven Soderbergh

Atriz e ex-lutadora conta como foi contracenar com atores como Michael Fassbender e Antonio Banderas no filme que chega aos cinemas nesta sexta, 13

Paulo Gadioli Publicado em 13/04/2012, às 12h13 - Atualizado às 12h37

Gina Carano
AP

Acostumada a enfrentar seus adversários mano a mano, a lutadora Gina Carano dá uma guinada em sua carreira e agora encara milhões de pessoas de uma só vez. Sob os cuidados de Steven Soderbergh, de Onze Homens e Um Segredo, a norte-americana debuta como estrela de filmes de ação em A Toda Prova, que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta, 13. Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, Gina fala sobre como foi trabalhar com um elenco tão talentoso, as dificuldades do treinamento comandado por um ex-agente do serviço secreto israelense, sua possível volta ao octógono e até mesmo seu eclético gosto musical, que vai de Adele a Hollywood Undead, passando por MGMT e Empire of the Sun.

Steven Soderbergh entrou em contato pouco tempo após sua derrota para a brasileira Cristiane “Cyborg” Santos no Strikeforce, em 2009, certo?

Correto.

E o resultado desta sua primeira derrota no MMA teve efeito na sua decisão de aceitar participar de um projeto como este?

Na época, eu estava com o coração partido, ainda tentando entender o que havia acontecido. Estava com o olho roxo e devastada, por isso não demorei muito a dizer sim, especialmente quando me toquei que aquele era o cara responsável por Traffic e Erin Brockovich, alguém que as pessoas adorariam conhecer. Disse sim quase que imediatamente, não houve muita dúvida.

Neste primeiro contato com Soderbergh você já sabia que iria contracenar com atores como Antonio Banderas, Michael Fassbender e Michael Douglas?

Não. Não fazia ideia no que estava me metendo. Ele não tinha roteiro, nem apoio de estúdio, sequer tinha conversado com algum ator. Basicamente, Steven me viu lutando e quis me colocar em um filme. Então, quando esses nomes começaram a surgir, eu ligava empolgada para minha mãe. Uma vez, liguei e disse: “Mãe, o Antonio Banderas vai participar”, e ela automaticamente respondeu “meu deus, o Zorro!” [risos].

Ao saber que esses atores de renome participariam do filme, você ficou ainda mais empolgada ou surgiu certo receio de machucar algumas das caras mais conhecidas de Hollywood?

Na verdade, já estava animada apenas em conhecer o Steven Soderbergh. Mesmo não sendo profunda conhecedora do trabalho dele, percebi que estava tendo uma bela oportunidade. Acreditei na visão que ele tinha, então quando estes grandes astros começaram a entrar no projeto, bem, tive só que tomar coragem e seguir em frente, sem tentar criar expectativas sobre as pessoas que eu iria conhecer. Aprendi isso nas lutas. Você não pode parar e julgar as pessoas só por vê-las ou conversar com elas uma vez. Acho que esse pensamento me ajudou a lidar com tudo o que aconteceu.

Levando isso em consideração, qual das cenas foi a mais complicada de se filmar?

A que eu luto com o Fassbender no quarto do hotel. Definitivamente foi a mais longa e mais complexa. A maioria das cenas de luta foi filmada em dois dias cada, então, no geral, não demorou muito. Treinei com a equipe por dois meses antes das filmagens, e quando os atores estavam disponíveis eles também participavam do treinamento.

O momento que vocês lutam no quarto do hotel é marcante pois possui um certo romantismo e, ao mesmo tempo, toda a brutalidade de um combate.

Sim, eu acho que por estarmos nesta locação e acabarmos em posições esquisitas essa dualidade se torna interessante. Vemos esse tipo de ação no ringue constantemente, mas por ser um homem e uma mulher fazendo isto em um filme, parece diferente. Existe algo muito intenso nessa cena que deve atrair a atenção de muitas pessoas.

Apesar desta ter sido uma bela e intensa luta, foi seu primeiro dia no set que realmente a deixou nervosa, não é?

Sim! Eu estava tão nervosa e ansiosa no meu primeiro dia, você não pode nem imaginar! [risos]. Quando me falaram que eu teria que beijar o Michael quase não me contive de nervosismo. Consegui me controlar, para tentar realizar a cena sem que os outros percebessem o que eu estava sentindo. Mas foi difícil [risos].

Após esta primeira experiência, qual é a principal diferença que você pode destacar entre a luta feita no cinema e a de verdade?

Para mim, a principal diferença é que quando treino para lutar, uso coisas em que sei que sou boa, algo que tenho certeza que irá funcionar, enquanto nas lutas feitas para o cinema há mais espaço para criatividade. Com isso, aprendi algo que deveria ter levado mais em conta quando estava lutando de verdade. Queria ter tido uma mente mais aberta antes, pois no momento em que comecei a me preparar para o filme, tive a chance de reaprender, me renovar, ser criativa. Estávamos preocupados em criar algo novo.

É curioso, porque nestas lutas cinematográficas cabe a você cuidar dos atores, protegê-los de você mesmo.

Sim, e existe algo lindo nisso. Nas filmagens, minha adrenalina subiu muito rápido, parecido com quando estou lutando. No final das contas, você está fazendo estes movimentos rápidos que, caso sejam certeiros, podem fazer muito estrago, e esta é a última coisa que você quer.

E é possível manter a adrenalina no alto durante as filmagens ou a repetição torna tudo um pouco mais chato?

Não, não, na verdade é legal poder repetir as coisas quando elas não dão certo da primeira vez. Eu realmente gostei de poder dizer “ei, não gostei, vamos fazer de novo”. Para mim foi divertido. Foi minha primeira vez, sei que alguns atores devem estar acostumados, mas ainda estou maravilhada. Se pudesse fazer isso no ringue, com certeza iria me sair muito melhor [risos].

Quando Soderbergh a convidou para o projeto, você procurou se basear em outras personagens e atrizes?

Eu não pensei nisso na hora, pra ser sincera. Eu treinei com Aron Cohen, um cara do Mossad [serviço secreto israelense], e realmente queria representá-lo bem. Ele me treinou por sete meses, pegou pesado em uma espécie de treinamento intensivo, então ele acabou sendo a inspiração para a minha personagem, Mallory Kane.

Apesar de ser conhecida como uma moça de atitude, você não é grande fã dos filmes de ação, certo?

Sim, e é algo estranho. Ao mesmo tempo em que eu era meio maria-joão, gosto de muitas coisas de menina. Por exemplo, aquela versão antiga de <>Orguho e Preconceito.

A com o Colin Firth?

Isso. Gostava também de Anne de Green Gables. Me sinto mal às vezes, pois as pessoas sempre me perguntam quem é meu astro de ação preferido. Eu gosto dos Resident Evil, da série Anjos da Noite e, acredite se quiser, eu realmente gostei de Sucker Punch – Mundo Surreal. Achei muito legal ver aquelas lindas mulheres se divertindo. Achei até a história legal.

Além de Orgulho e Preconceito, você tem algum outro gosto que possa surpreender seus fãs?

No cinema eu acho que não. Ultimamente tenho me conectado mais com a música. Ela me faz aguentar um dia difícil. No caminho para malhar, depois dos exercícios, esteja o dia bom ou ruim. Acho que a única coisa que não escuto é música country. Mas ouço de heavy metal a techno, todos tipos de sons diferentes.

Falando em música, o que estava tocando no seu iPod durante o período de filmagens e o que você tem ouvido agora?

Quer saber, estou com meu iTunes aberto, vou olhar agora mesmo. Ultimamente estou ouvindo Adele, Hollywood Undead. Adoro o Hollywood Undead, eles tocam rock, mas são rappers, usam máscaras. Não sei, quando estou com raiva do mundo é pra eles que corro, pois a banda parece estar sempre com raiva de todos também [risos]. Gosto muito de MGMT. Durante a filmagem ouvi bastante MGMT. TV on the Radio, The Faint, Empire of The Sun, além de, claro, algumas músicas que tocam no rádio, quase sempre rap. Na época das filmagens, gastava a maior parte do meu tempo livre vendo vídeos divertidos no YouTube. Meus preferidos são aqueles de dança. Gosto também de assistir as lutas de MMA femininas, para sempre estar em contato com as garotas novas que chegam. Elas me inspiram.

Em janeiro, quando A Toda Prova estreou nos Estados Unidos, você disse que queria esperar as primeiras críticas e reações para decidir sobre seu futuro. Agora que estamos em abril e o filme já estreou na maior parte dos países, você tem ideia do que vem pela frente?

O que eu sei é que não posso me forçar a fazer nada. A luta surgiu na minha vida muito naturalmente, é algo que eu amo e estava fazendo porque me completava, me dava força para levantar todo dia e fazer algo com a minha vida. Agora encontrei esta nova paixão, a indústria do cinema, que é um desafio. Tenho que aprender tudo do zero. Estou trazendo minhas habilidades, mas existe muito além. Estou tentando entender este mundo completamente novo e é fascinante ter esta nova paixão.

Mas, sinceramente, eu não sei. Vou me esforçar muito no meu próximo filme, In The Blood, e tentar construir uma carreira. Mas não sei se isso significa que voltarei a lutar ou não. Essa é a única dúvida constante. Sei apenas que voltarei a lutar somente quando não tiver dúvidas de que esta é a coisa certa a se fazer.