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Entrevista: Keith Richards e Ronnie Wood detalham como os Rolling Stones criam um setlist arrasador

Prestes a voltar aos palcos depois da cirurgia cardíaca de Mick Jagger, guitarristas explicam como a banda monta seus shows

Patrick Doyle, Rolling Stone EUA Publicado em 21/06/2019, às 19h46

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Os Rolling Stones têm um sistema particular de escolher quais músicas serão tocadas em todos os seus shows.

Nos dias de apresentação, a banda geralmente faz a passagem de som no período da tarde. Então, Mick Jagger passa a trabalhar com o tecladista Chuck Leavell em como fazer o setlist.

Eles levam em consideração alguns pontos: observam quais músicas tocaram naquele lugar da última vez para não se repetirem e Jagger reflete sobre a sua voz e no que ele estará confortável para cantar.

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Algumas vezes, o resto da banda faz sugestões: "O Mick será bastante honesto", diz o guitarrista Ronnie Wood. "Ele dirá: 'Na verdade, não, isso não vai funcionar aqui' ou 'Nós tocamos isso essa aqui muitas vezes já'. Ou, ainda, ele vai dizer apenas: 'Sim, vamos tentar'. Então, você nunca sabe o que esperar, mas sempre existe uma razão para não tocarmos algo."

Apesar de Wood dizer que a banda tem "músicas essenciais" - como "Brown Sugar" e "Tumbling Dice", considerada por ele "a parte mais suculenta do show" -, ele tem tido boas surpresas ao longo dos últimos anos em turnê. Isso inclui "Play With Fire", de 1965: "Eu gostaria de tocar essa com mais frequência, eu e Keith tocando violões". E "Mixed Emotions", de 1985: "Essa veio do nada. Mick disse: 'Vamos dar uma chance para essa?'."

"Quando recebemos a lista final", diz Wood, "vou direto para minhas telas em branco." Wood vem transformando os setlists da banda em arte pelos últimos 20 anos, com ilustrações psicodélicas e tudo mais.

Os convidados para o seu camarim nos dias dos shows têm perguntado a ele mais sobre isso há anos, então, ele decidiu reuni-los em um novo livro, chamado Set-Pieces.

Já que os Rolling Stones vão reiniciar a turnê No Filter nos Estados Unidos em Chicago, na noite desta sexta-feira, 25, pedimos à banda para detalhar o setlist da performance favorita deles em 2018. Eles escolheram o show no Twickenham Stadium, realizado no dia 19 de junho, em Londres. Vamos a ela:

1. “Street Fighting Man” (1968)

No início da turnê, a banda começava os shows com “Sympathy for the Devil", mas, então, Mick Jagger decidiu trocá-la por essa canção mais roqueira e política. "É uma boa sensação tocá-la", diz Keith Richards. "Não sei se há outra melhor que essa para um começo de show."

2. “Ride ‘Em on Down” (2016)

Os Stones pegaram essa música desconhecida de Eddie Taylor, de 1955, para criar um momento logo no início do show. "Mick decidiu que só teríamos uma música de blues na turnê passada", diz Ronnie Wood. "Eu discordo. Vamos lá, vamos fazer mais!"

3. “Bitch (1971)

"Ela parece ser tranquila, mas tem umas armadilhas", diz Richards. "Há uma ponte interessante e é preciso prestar atenção nela. De outra forma, ela se transforma em um rock e soul clássico que a gente adora. É um prato cheio para o Charlie Watts."

4. “Beast of Burden” (1978)

O grupo toca essa música em todas as passagens de som - e ficam intrigados do motivo pelo qual Jagger raramente a coloca no set. "Procuro por ela no setlist e digo: 'Ei, Mick, a gente acabou de ensaiar essa!'", diz Wood. "E ele não responde. Mas três semanas depois, bum, ela está no set. É isso que deixa você sempre ligado. Richards complementa: "Gostaria de tocá-la mais vezes. Sempre sinto que estou explorando algo, diferente mais uma coisa nova a cada vez. Mas é uma decisão do Mick. Ele não sente que deveria inclui-la"

5. “Honky Tonk Women” (1969)

"'Honk Tonk' pode ser muito difícil de tocar, cara", diz Richards. "Quando dá certo, ela realmente soa da maneira certa. Mas se há algo errado logo no início, o tempo dela não se ajusta. É um desafio, mas eu adoro."

6. “You Got the Silver” (1969)

A primeira música cantada por Richards não foi tocada ao vivo até 1999. Desde então, passou a ser frequente. "Ele não sabia o quanto as pessoas gostavam dessa música", diz Wood. "Eu meio que introduzi ela nos nossos sets e ela se sai muito bem."

7. “Sympathy for the Devil” (1968)

Richards diz que esse clássico é "algo bizarro de se tocar. É incrivelmente divertida, mas tem essas pausas nas guitarras. Eu e Ronnie não tocamos até o momento de 'Pleased to meet you!' Existe uma dinâmica ótima ali."

8. “Jumpin Jack Flash” (1968)

"Essa gasta bastante da nossa energia", diz Wood. "'Jumpin Jack' sempre tem um ótimo groove, uma vibe ótima. Ela leva felicidade para toda a plateia, e para a banda também. É ótimo ver as pessoas sorrindo. É disso que gostamos, entende?"

9. “Gimme Shelter” (1969)

A versão original possui várias camadas de guitarra, então, tocá-la ao vivo é o seu "maior desafio". "Fica tudo bem assim que você começa, mas eu nunca tenho certeza se estou no volume certo. Fico sempre um pouquinho ansioso. Aquele começo é tão estranho, às vezes em um estádio eu começo a ouvir os ecos."

10. “(I Can’t Get No) Satisfaction” (1965)

"É riff o tempo todo", diz Richards. Apesar de tocar essa música constantemente desde 1965, ele diz nunca se cansar dela. "Ainda estou tentando encontrar um jeito de acertá-la. Eu e [o baixista] Darryl [Jones] estamos trabalhando em um novo ritmo para ela recentemente - algumas ideias diferentes para deixá-la mais rápida e melhor."

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