Entrevista: Philip Selway comenta o próximo disco do Radiohead

“Espero que não demore mais 20 anos”, diz o baterista sobre um possível show da banda no Brasil

João Vitor Medeiros Publicado em 20/07/2015, às 15h11 - Atualizado às 15h17

Philip Selway
AP

Philip Selway é um cara legal. Sereno, tranquilo e gentil, não se assemelha nem um pouco ao estereótipo do astro do rock. Difícil dizer só de olhar para ele que o inglês de 48 anos é, há quase 30, o baterista de uma das maiores bandas do mundo: o Radiohead.

Thom Yorke e Diplo lideram lista de artistas com maior número de downloads legais em 2014.

Se a banda principal dispensa apresentações, talvez pouca gente conheça o trabalho solo de Selway. Multi-instrumentista, ele lançou o primeiro disco, Familial, em 2010. Ano passado deu sequência à aventura com o ótimo Weatherhouse. “Eu reconheci que havia algo muito particular no meu trabalho, uma voz lírica própria. Fora da banda, do Radiohead, é onde você pode tentar coisas. Porque a gente cobre um grande terreno musical, mas você não pode fazer qualquer coisa naquele contexto. Então, para nós, fazer coisas fora do Radiohead é a nossa oportunidade de mergulhar nesses experimentos”, explica o músico em entrevista para a Rolling Stone Brasil. “As duas coisas são muito importantes para mim. E é algo bom quando você está sozinho, se reflete no que fazemos como banda”, completa, ressaltando que todos os membros do quinteto inglês têm trabalhos paralelos.

Dez maneiras inusitadas de se lançar um disco.

A decisão de se lançar na carreira solo partiu da quantidade de material acumulado que o músico possuía. Liderar o próprio grupo, no entanto, não foi uma tarefa simples e ele admite que a autoconfiança aumentou exponencialmente na gravação de Weatherhouse: “Da primeira vez eu não conseguia enxergar o processo como um todo”.

Se em Familial formavam a banda de estúdio instrumentistas como Lisa Germano (musicista que já trabalhou com David Bowie e Iggy Pop), Glenn Kotche (Wilco) e Sebastian Steinberg (que integrou o Soul Coughing) – um time dos sonhos, segundo o próprio Selway -, no segundo disco ele resolveu apostar em Adam Ilham e Quinta, músicos que o acompanham nas apresentações ao vivo e conhecem todo seu repertório.

“Havia uma afinidade musical entre nós três, então tinha uma boa dinâmica e grandes possibilidades sobre o que podíamos fazer. Quando fomos fazer Weatherhouse, queríamos nos sentir como uma banda tocando ali. Nós gravamos muitos instrumentos e tínhamos um bom estúdio para trabalhar, tínhamos o estúdio do Radiohead, e tudo foi andando dessa maneira. Então, eu tinha a confiança, mas nós também tínhamos relações musicais sólidas e toda aquela animação para ver onde aquilo ia nos levar”, declara sobre os parceiros de produção.

Radiohead

Selway se mostra dividido sobre a influência da sua banda principal na percepção do público quanto ao seu trabalho sozinho: “Acho que sou sortudo, porque as pessoas vão ouvir o que eu fizer por causa do Radiohead, mas é complicado porque demora um tempo até elas entenderem o trabalho por si só, fora do contexto do material da banda. Nesse segundo disco eu estava mais pronto a abraçar meu ‘eu-do-Radiohead’, isso é até mais perceptível”, acrescenta no seu costumeiro tom calmo de voz.

Sempre à frente do seu tempo, dentro e fora de estúdio, o Radiohead foi um dos primeiros grandes grupos a entender a nova dinâmica da indústria musical na era da internet. Se em 2007 a banda lançou de forma independente o lendário In Rainbows, que as pessoas podiam adquirir por download pagando o preço que quisessem, no ano passado o vocalista Thom Yorke resolveu vender seu disco solo por Torrent. Selway aprova: “Acho que foi ótimo o jeito que ele lançou o Tomorrow’s Modern Boxes e eu fico feliz que ele tenha feito dessa maneira. Há um esforço constante para arranjar uma solução em que os artistas consigam se sustentar”. A estratégia de Yorke deu certo e o álbum teve mais de um milhão de cópias comercializadas no formato inovador.

Quando questionado sobre o modelo de distribuição do novo disco do grupo, Selway se esquiva: “Precisamos primeiro ter um disco para depois resolver como vamos vendê-lo”, ri. “Mas nós já estamos trabalhando nele, certamente. Estamos de novo curtindo fazer músicas juntos e estamos aproveitando todo o processo”.

O trabalho mais recente do quinteto, King of Limbs (2011), não agradou a todo mundo. De orientação eletrônica, deu pouco espaço às poderosas guitarras do grupo ao optar por uma construção melódica baseada em sequências digitais programadas e loopings. Se o próximo disco seguirá a mesma linha? “Ainda não tenho como dizer, trabalhamos sempre nas coisas que nos empolgam. Nem vale muito a pena comentar, porque às vezes estamos na metade de algo e simplesmente mudamos completamente a direção”. Nem mesmo uma data de lançamento parece estar na mente dos músicos. “Nenhum de nós sabe. Não vamos nos prender a prazos. Trabalhamos muito intensamente quando trabalhamos juntos e nós vamos tomando as decisões no decorrer das coisas. É isso que guia o processo, que em algum momento será terminado”, arremata.

Essa sintonia do conjunto é a consequência e a razão pela qual o Radiohead sustenta a mesma formação de músicos desde o início da banda. “No coração disso há um respeito mútuo. Todos nós curtimos o que fazemos musicalmente nos nossos projetos paralelos e curtimos o que fazemos juntos e com o Nigel Godrich. Nós somos muito conscientes da nossa história e de que cobrimos muito terreno musicalmente, mas há uma certa sintonia musical que se adquire em quase 30 anos tocando juntos que você não quer desperdiçar”, confessa.

Show nos Brasil

O Radiohead e o Brasil têm uma relação complicada. Por anos uma das bandas mais pedidas do público, os ingleses finalmente fizeram duas apresentações no país em 2009, tocando no Rio de Janeiro e São Paulo, e tendo Kraftwerk e Los Hermanos como bandas de abertura. Selway relembra: “Foram dois shows muito intensos. Era nossa primeira vez no país como banda e, sabe, você nunca sabe se vão embarcar na sua música, então é sempre uma surpresa quando você chega a um lugar e as pessoas estão respondendo muito bem à música. E ainda estávamos tocando com o Kraftwerk, então foram duas experiências fantásticas ao mesmo tempo. Foi uma imensa, imensa sensação de alegria. Espero que não demore mais 20 anos pra voltarmos”.

Se o Radiohead não se mexer para tanto, o baterista não descarta uma vinda solo: “Eu adoraria”.