Entrevista: Stephen Malkmus fala sobre a vida em família – e sobre o ótimo novo disco do The Jicks

Wig Out at Jagbags, lançado esta semana, mostra lado mais feliz do ex-vocalista do Pavement

Rob Sheffield Publicado em 09/01/2014, às 11h13 - Atualizado às 11h14

Stephen Malkmus
Leah Nash/Facebook oficial

Como frontman do Pavement nos anos 1990, Stephen Malkmus sempre foi o deus do rock indie que gostava de zombar das pretensões da era em que vivia – ele cantava “Fight This Generation” quando a Geração X estava no auge. Ainda assim, acabou se tornando o cara que seguiu alguns dos ideais daquela época a longo prazo: persistência, independência, se manter verdadeiro. Desde o fim do Pavement, no ano 2000, ele gravou seis discos, solo ou com a banda The Jicks, incluindo o excelente Wig Out at Jagbags, lançado esta semana. Ele é o artista de rock com mais tempo de estrada que nunca fez um disco fraco (o mais próximo disso é Face the Truth, de 2005 – e mesmo assim, não chega a ser o caso).

Falamos com Stephen Malkmus na última passagem do The Jicks pelo Brasil, em 2013. Leia aqui.

Malkmus sempre mostra certo tipo de confiança malcriada, que não indevidamente leva algumas pessoas a se equivocarem sobre ele. Mas se manteve verdadeiro ao universo independente. Ele compôs as músicas de Wig Out at Jagbags durante um período em Berlim, embora tenha se mudado com a esposa e as filhas de volta para Portland, onde já havia morado. Eloquente como sempre, ele fez uma pausa na limpeza da cozinha de casa para falar de diversos assuntos, entre eles Lorde, Daft Punk, Louis C.K., 12 Anos de Escravidão, Spotify, terapia e gatos.

Benvindo de volta a Portland.

Yeah, essa é a nossa base agora. Era muito difícil ficar indo e voltando de Berlim. As escolas são boas. Ensaios são fáceis. Acabamos de pegar dois gatos – Lucky e Scooter, batizados pelas crianças. Lucky recebeu esse nome por causa da música do Daft Punk. Hoje está nevando, o que é esquisito em Oregon [estado onde fica a cidade de Portland]. E estou só eu em casa, o que é ótimo.

Parabéns pelo novo disco. O The Jicks agora existe há mais tempo do que o Pavement.

É uma parceria, e é tudo feito pelo amor à música. São pessoas que deram seu amor e seu coração à banda, como [a baixista] Joanna Bolme e [o guitarrista] Mike Clark, e a [gravadora] Matador. A música é importante para todos nós. É por isso que continua indo em frente. E as pessoas que se relacionam com a banda a mantêm rolando, com as bandas delas e blogs.

Parece que esse disco e o anterior [Mirror Traffic, de 2011] são um pouco mais felizes. Há um senso de confiança emocional.

Todas as vezes que você faz coisas, seja música, livros ou arte, você sempre pode dizer “eu poderia ter feito diferente” ou “aquele não era eu”. Mas eu não ligo muito mais para isso.

Sempre existiu um balanço entre tristeza e alegria nas suas músicas – uma gama de humores.

Sim, existe. Mas havia meio que um ponto final embaixo do que era depressivo. É o que minha esposa diz, mas ela vai mais à terapia do que eu. Então eu comecei a fazer um esforço para ser positivo. Tudo bem ser engraçado. Nada clássico vai rolar aqui, vamos admitir. Então, se divirta.

Comédia faz parte da sua programação de TV?

Na verdade, não. Se eu assisto a algo como Louis C.K., é ruim para mim. Eu posso me tornar aquele cara bem rapidamente, mas não de maneira tão engraçada. Sou mais um cara da ficção científica. Não tenho orgulho em admitir, mas gosto de ficção e fantasia. Assisto até a filmes espaciais ruins. Eu não tenho filhos meninos, então não fico completamente de saturado com Star Wars ou Lego como pais de meninos costumam ser.

Quando foi a última vez que você foi ao cinema?

A gente fez um programa a dois horrível para assistir a 12 Anos de Escravidão, do Steve McQueen. E minha esposa não gosta de nada violento. Ela é artista, e McQueen teve uma obra bem ao lado da dela na Bienal de Veneza. Nós gostamos da arte dele, então achamos que seria uma boa ideia. Mas foram duas horas de tortura. Aquela foi uma noite desconfortável.

Suas filhas gostam de música pop?

Sim, fomos ver o show da Lorde há alguns dias. Ela é jovem, ainda não é exatamente uma performer – não tem muito carisma. Mas eu não ligo. Isso apenas deixou tudo com jeito de show indie. Ela gosta de Raymond Carver, você sabia? Deve ter um pai legal, um professor de inglês legal ou algo assim. A música é um negócio meio minimal, meio com jeito de hip-hop. Soou muito bem. E o show era às 5h da tarde, o que foi bom. O Vampire Weekend ia tocar no mesmo lugar mais à noite, e minhas filhas provavelmente teriam gostado também.

Elas gostam de Taylor Swift, Ke$ha, Macklemore. Para elas, Lady Gaga e Katy Perry são coisa do passado. E aí tem música que a gente não gosta muito [ele canta alguns versos de “Wake Me Up”, do Avicii]. “I tried carrying the weight of the world, but I've only got two hands” [“Eu tentei carregar o peso do mundo, mas só tenho duas mãos”]. Isso é muito ruim. Amamos Daft Punk – para elas é como se fosse o Radiohead, uma coisa boa muito sofisticada. Eu não enjôo de “Get Lucky”, ouvi umas 40 milhões de vezes. As rádios mainstream podem deixar você louco sempre repetindo a mesma música, no caso de pais como eu, que sempre deixam na mesma estação no carro. Acho que se eu fosse mais envolvido com a indústria, poderia fazer uma playlist para um desses negócios maléficos como o Spotify.

Então, você não gosta do Spotify?

Definitivamente. Acho que é uma porcaria. Mas isso não significa que a minha música não esteja lá. Eu sou contra muitas coisas que faço, mas mesmo assim as faço, então tem muito autoengano nas nossas vidas. Ao menos na vida de um músico sem princípios.