Pela primeira vez no Brasil, Surfer Blood faz show nesta quinta, 17, em São Paulo, e na sexta, 18, em Porto Alegre

O vocalista John Paul Pitts revela detalhes do novo disco, o primeiro por uma grande gravadora, e especula sobre o futuro do rock

Pablo Miyazawa Publicado em 17/01/2013, às 12h50 - Atualizado às 13h12

DE BOA Pitts (no alto, à esq.) e o Surfer Blood: ponto fora da curva
DAN MONICK/DIVULGAÇÃO

O Surfer Blood surgiu em 2008 na isolada West Palm Beach (Flórida), como o projeto pessoal do vocalista/guitarrista John Paul Pitts (na foto, no alto, à esquerda). Sozinho no próprio quarto, ele escreveu e gravou as faixas que formariam a estreia da banda, lançada em 2010. “Eu estava na faculdade e passei o ano letivo gravando e mixando o disco”, ele lembra. “Depois disso, decidi que não voltaria para as aulas.” Energético, com toques retrô e recheado de guitarras melodiosas, Astro Coast rendeu hits na volúvel cena indie (“Swim”, “Floating Vibes”), além de comparações com artistas sonoramente pouco semelhantes, como o Weezer.

Contrariando as estatísticas atuais, o Surfer Blood hoje alcançou o que há anos era considerado o caminho “natural” – repercutir com um disco independente para em seguida assinar com uma grande gravadora. O segundo álbum, ainda sem título, chegará nos próximos meses, com lançamento pela Warner.

A banda está no Brasil pela primeira vez, para três apresentações e um pocket show no país. A performance de São Paulo acontece nesta quinta, 17, no HSBC Brasil, e a de Porto Alegre será realizada no Opinião, na sexta, 18. “Sempre foi um sonho ir para a América do Sul”, comenta Pitts, por telefone. “Então estamos felizes que finalmente está acontecendo – mesmo que tenha demorado um pouco”.

Vocês são da parte sul da Flórida, uma região relativamente isolada geograficamente do restante dos Estados Unidos. Você acha que uma banda como o Surfer Blood “aconteceria” há 20 anos, quando não havia internet? Quanto acha que a internet ajudou a banda a se tornar o que é hoje?

Eu acho mesmo que a internet é super importante para a vida de nossa banda, já que foi como a maioria das pessoas nos conheceu. Nós estávamos fazendo shows na costa leste dos Estados Unidos, dando nosso CD de graça, e foi assim que muitos dos mp3 começaram a atingir pessoas diferentes. Acho que mais do que qualquer coisa, foi um jeito de sair da Flórida e fazer shows em toda parte, excursionar pelo país. Foi aí que começaram a nos notar, prestar atenção. Poderia ter acontecido há 10 anos, mas talvez não tão rapidamente quanto hoje em dia. Mas certamente poderia ter rolado.

Em 2010 vocês lançaram o disco Astro Coast; em 2011, um EP, Tarot Classics. Não se ouviu falar muito sobre vocês em 2012. O que andaram fazendo, além do novo álbum?

Foi porque passamos a maior parte do ano compondo e gravando. Nós acabamos de finalizar o disco, recebemos as fitas masters há uma semana. Estamos esperando o lançamento mais ou menos na primavera [março-maio] de 2013. E será nosso primeiro álbum pela Warner Brothers. Gravamos em um estúdio em Los Angeles com um produtor chamado Gil Norton. Passamos oito semanas com ele gravando e definindo o disco.

Aliás, este foi o primeiro disco em que vocês gravaram em um estúdio de verdade, e imagino que os discos que Gil Norton produziu anteriormente estejam entre alguns de seus favoritos. Que tal foi trabalhar com ele?

Obviamente conhecemos o Gil porque ele trabalhou muito com o Pixies [produziu os álbuns Bossanova, Doolitle e Trompe Le Monde entre 1989 e 1991]. E tivemos a grande sorte de fazer turnê com eles no segundo semestre de 2011. Então foi uma escolha bem óbvia que quiséssemos trabalhar com Gil. E quando finalmente aconteceu, ele foi bastante receptivo – escutou e digeriu todas as demos que enviamos a ele. Decidimos então gravar em Los Angeles. Ele é muito fácil de se trabalhar junto. É criativo, empolgado, dava para sentir que estava lá do nosso lado para o que desse e viesse. Gostei bastante de ver o quão envolvido e entusiasmado ele é.

O resultado do disco foi o que você imaginava, no que diz respeito à sonoridade? Era o que você esperava de um produtor como ele?

Sabe, ele com certeza fez várias coisas por nosso som que considera muito óbvias, mas que nós mesmos nunca iríamos descobrir por conta própria – por causa de nosso histórico e das músicas que costumamos escutar. Por exemplo, nunca pensamos em usar eco natural nas canções. Se tivéssemos, teria acontecido por acidente. Então, sim, ele nos ajudou a pegar as faixas e colocá-las em um formato mais familiar, tradicional, no que diz respeito à composição – algo com o qual não éramos contra de jeito nenhum. Certamente nós soamos muito mais “cheios”. Dá para dizer que a sonoridade está bem mais profunda, mais ampla. Fico feliz de que ainda soa como a nossa banda, mas que também há um caminho diferente do Astro Coast. Mas é mesmo um enorme passo adiante para nós, tanto na composição das musicas como na sonoridade.

É verdade que o pessoal do Pixies emprestou equipamento para a gravação do disco?

É, eu vou confessar que se você prestar muito a atenção ao som de algumas músicas do novo álbum, irá notar que é o mesmo timbre do Joey Santiago [guitarrista do Pixies] no disco Doolittle. O Gil os conhece há mais de 20 anos. Estávamos precisando do som de uma Les Paul com amplificador Marshall, que é tipo o que o Joey costuma usar. Então ele foi bem legal em ir conosco até o local onde ele guarda equipamentos e nos emprestar as coisas dele por dois meses - acho que ele nem estava as utilizando na época. Isso era algo que eu não estava mesmo planejando. Ele até apareceu para nos ver no estúdio algumas vezes também. A gente se divertiu muito nesse verão, cara. Foi bom demais gravar naquele lugar.

Já tem o nome do disco?

Tenho, mas não tenho permissão de dizer agora. Logo mais vamos divulgar a data de lançamento e todo o resto.

Cada um possui um estilo na hora de compor. Como define o seu método?

Para mim sempre foi a guitarra primeiro – a guitarra e a melodia vocal. Para esse disco, basicamente foi eu em um quarto com um violão e um teclado de acordes. Eu criava melodias em cima disso, e daí saiam umas sequências de acordes. Mas a progressão de acordes, as melodias e os riffs surgem primeiro. Todo o resto vai aparecendo a partir daí.

As músicas do primeiro disco foram escritas apenas por você. As novas, pela banda toda. Foi difícil compor com outras pessoas?

Bem, esse é provavelmente o projeto mais colaborativo que já fizemos. Nós tínhamos um local para ensaiar e nos encontrávamos todos os dias. Eu mostrava a eles a ideia básica de uma música que eu havia escrito. Cada um na banda tem estilo e opiniões próprias, então no começo foi um desafio, porque eu queria que tudo soasse como as demos que gravei em casa. Mas agora, olhando para trás, com tudo gravado e pronto, eu consigo perceber que o disco tem bem mais personalidade do que poderia ter. Acho que é uma das coisas mais interessantes sobre a banda: cada um no grupo tem uma personalidade própria quando toca.

O Surfer Blood está agora em uma grande gravadora. Isso chegou a ser a sua expectativa em algum momento, no início da banda? “Seremos famosos, assinaremos com uma major, tocaremos no Brasil...” Como você previa o futuro e considerava suas opções na época? Dá para comparar a sua expectativa com o que realmente aconteceu?

Honestamente, eu posso dizer que não tinha expectativa nenhuma. Eu não tinha ideia de que nossa banda ia rolar de qualquer maneira. Mas, acho que o negócio com a Warner foi uma ideia muito boa – quero dizer, sempre foi meu sonho gravar um disco em um grande estúdio, ter opções, tempo para pensar. Antes eu gravava no meu quarto. Finalmente tivemos a oportunidade de fazer o disco que eu sempre quis fazer e sempre sonhei em realizar. Então, até agora, nossa experiência tem sido extremamente positiva.

Parece cada vez mais difícil para bandas movidas a guitarras crescerem e ganharem reconhecimento de massa. Você acha que o papel do rock como o gênero musical mais importante para a juventude está extinto? É como se os jovens não ligassem mais tanto para guitarras como antigamente.

A questão é a seguinte: eu não acho que a molecada não curta mais bandas com guitarras. Mas entendo o que você quer dizer – o gênero não é mais o que já foi um dia. Talvez seja porque ele não tenha crescido ou evoluído de qualquer forma em muito tempo. Se você escutar emissoras de rádio alternativas nos Estados Unidos, elas tocam a mesma coisa que tocavam há uns cinco anos. E acho que a falta de crescimento é o que faz o jovem não se conectar – porque é algo que já está acontecendo. Há milhões de moleques em todo o mundo que estão aprendendo a tocar suas músicas favoritas na guitarra, e simplesmente por isso, eu não acho que o rock um dia sairá de moda. Entende o que quero dizer? Acho que o gênero – na verdade, o mainstream desse gênero - precisa seguir em frente, já que os outros estilos estão avançando bastante. Escute a música pop de hoje – é bastante diferente do que era cinco anos atrás, em estilo e esteticamente falando. Acho que o mesmo acontecesse com o rock, a situação seria diferente.