A Era dos Heróis Imperfeitos: Depois do sucesso da Marvel nos cinemas, é a vez dos heróis incorretos na TV? [ANÁLISE]

Enquanto alguns super-heróis disputavam bilheterias nos cinemas, outros ganharam destaque na TV

Malu Rodrigues Publicado em 17/07/2020, às 07h00

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The Boys, Doom Patrol e Umbrella Academy (Foto 1: Reprodução/Amazon Prime Video/Foto 2: Reprodução/HBO/Foto 3: Reprodução/Netflix)

Há 12 anos, a Marvel começava uma super jornada nos cinemas com Homem de Ferro. Em 2019, ela fechou a terceira fase com Vingadores: Ultimato e Homem-Aranha: Longe de Casa. A rival DC também esteve presente nas telonas desde O Homem de Aço, lançado em 2013 - e já se prepara para uma nova era com a chegada de The Batman.

Enquanto os super-heróis das duas editoras disputavam bilheterias nos cinemas, outros ganharam destaque na TV. No entanto, enquanto nas telonas podemos acompanhar personagens com posturas mais superiores, na televisão seguimos protagonistas mais imperfeitos - e por vezes bem incorretos. 

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Nas salas de cinemas, os espectadores acompanharam por anos a Jornada do Herói retratada na maioria dos filmes da Marvel - baseados nos quadrinhos originados na Era de Ouro. Para recordar, nessa estrutura filosófica temos alguns elementos essenciais, como o chamado à aventura, provação e recompensa. Nos longas, os protagonistas se mostram como guiadores da história, prontos para se arriscarem e se sacrificarem pelo bem comum.

Adriana Amaral, Professora e pesquisadora de comunicação e cultura pop da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos e do CNPq), comentou sobre as construções dos heróis do estúdio: "O Capitão e o Homem de Ferro encarnam, em um certo sentido, o mesmo tipo de 'arquétipo Marvel', do super-herói não convencional".

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Ela continua: "Steve Rogers não tem condições físicas de lutar na guerra e se submete a um experimento para poder lutar, onde se torna o Primeiro Vingador; Tony Stark, embora rico e inteligente, sofre na própria pele por ser um playboy inconsequente e cria uma tecnologia para se salvar e combater a própria herança armamentista que sua empresa desenvolveu".

Apesar de partirem de um passado não-convencional por não serem figuras com poderes míticos, os arquétipos montados pela Marvel ainda revelam um herói preparado para se desafiar e tentar melhorar o mundo. Percebemos, então, como o estúdio apresenta uma narrativa mais idealizada do protagonista superior e único, quase solar.

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Para além do retrato da Marvel, a DC tomou um rumo narrativo um pouco diferente. "Quando Frank Miller e Alan Moore escreveram, respectivamente, O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, o mundo era bem diferente. Talvez eles tenham seguido o Zeitgeist do momento, com o mundo da Guerra Fria e perigo de extermínio nuclear, recessão econômica, pessimismo e isso somado pedisse outro tipo de abordagem dos super-heróis, uma abordagem desconstruída e menos romântica dos super-heróis", disse Amaral.

Esse tom mais sombrio foi refletido nos cinemas, como em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016). O senso de justiça dos protagonistas é testado a todo momento - e eles são mostrados com falhas mais profundas em relação a outras construções no cinema. Mesmo assim, a missão principal deles é a de salvar o mundo.

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Fora dos cinemas, chegamos na televisão e nos streamings, inundados por séries de super-heróis. No entanto, em 2019, três produções se destacaram: The Boys, Umbrella Academy e Patrulha do Destino. Distantes do arquétipo mais tradicional de Herói, elas revelaram para o público protagonistas poderosos - mas com caráter, no mínimo, peculiar e com ações questionáveis. 

Adriana Amaral comparou as trajetórias dos personagens nas diferentes produções: "Se pensarmos só nos filmes como um todo e compararmos com as séries, o que importa nelas é mostrar como os personagens disfuncionais enfrentam seus traumas, antes de tentar salvar o mundo". 

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"No caso da Patrulha do Destino são pessoas rejeitadas até por deformação física, mas elas vão usar seu poder para salvar outros; em Umbrella Academy, é uma família problemática com ressentimentos familiares e precisam se entender antes de salvar a Terra. Com o grupo The Boys são pessoas traumatizadas por grandes perdas que querem se vingar, mas também retomar o poder de controle do mundo que está nas mãos de poderosos hipócritas e corruptos", explicou.

A pesquisadora também enfatiza como em "todos os casos, além dos traumas, salvar o mundo é uma consequência, não o plano principal, como nos filmes da Marvel".

O passado dos protagonistas é um destaque nas produções da televisão. No entanto, além disso, as séries brincam com as próprias narrativas e deixam todo o brilho para os heróis - cheios de atitudes duvidosas, estranhas e surreais.


A sangrenta The Boys 

A produção é voltada completamente para o humor ácido e para a violência. Nesse mundo alternativo, os super-heróis são privatizados e a imagem deles é vendida como uma mercadoria. Os heróis, no entanto, são problemáticos e estão longe da ideia de defensores da justiça que estamos acostumados a ver.

Na verdade, eles são responsáveis por diversos crimes e abusos ao longo dos episódios, como estupro e assassinatos.

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"Na TV deve ser a [série] mais subversiva, uma tradução/adaptação dos quadrinhos de 2006 de Garth Ennis. Neste contexto, [os Supes] eles estariam mais para vilões, sendo uma visão corrupta e distorcida do que representa o ideal clássico de heroísmo. O debate trazido por Ennis é importante dentro desse contexto dos anos 2000, algo que não havia na Era de Ouro e que também foi trazido por Alan Moore e outros, uma visão mais crítica e política", comenta Amaral

No dia 4 de setembro, The Boys ganhará uma segunda temporada no Amazon Prime Video. Assista ao trailer:


O surrealismo de Patrulha do Destino 

Patrulha do Destino é, com certeza, a produção mais distante da abordagem padrão apresentada pelas séries de heróis da DC (a maioria exibida pela CW). Ela companha os super-heróis Homem-Robô (Brendan Fraser), Homem-Negativo (Matt Bomer), Mulher-Elástica (April Bowlby) e Crazy Jane (Diane Guerrero), liderados pelo cientista Dr. Niles Caulder (Timothy Dalton) e por Ciborgue (Joivan Wade). 

Repleta de imaginários surrealistas e dadaístas, a produção, segundo a Rolling Stone EUA, "é refrescantemente autoconsciente, tanto na hilariante meta narração de Alan Tudyk como o inimigo principal da equipe, o Sr. Ninguém [...] quanto no entendimento mais fundamental de que, se você faz um show sobre esses personagens, é melhor ele ficar estranho ou nem transmitir". 

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A trama acaba com toda a romantização dos heróis ao mostrar protagonistas com poderes e habilidades nada glamourosas. Além disso, eles atuam - por falta de opção - nas situações mais bizarras e peculiares.

A série brinca com a própria história e garante até um vilão onisciente quebrando todas as paredes possíveis e dizendo: "Agora cortem pra a pretensiosa sequência de abertura". Um dos protagonistas, o Homem-Robô, não passa mais de duas falas sem soltar algum palavrão ou fazer uma piada duvidosa.

A segunda temporada da produção chegou no HBO MAX em 25 de junho. Assista ao trailer:


A estranheza de The Umbrella Academy 

Baseada nas histórias em quadrinhos de 2008 de Gerard Way, vocalista e co-fundador do My Chemical Romance, a série The Umbrella Academy se concentra na vida de crianças superpoderosas que são adotadas pelo enigmático Reginald Hargreeves, transformando-se em uma equipe de combatentes do crime.

A produção revela todo o lado traumatizante de ser visto como um 'salvador' e crescer protegendo outras pessoas. Todos os personagens são disfuncionais, com um comportamento tanto engraçado como preocupante. Os protagonistas heróis apresentam de forma evidente atitudes manipuladoras, abusivas e inadequadas.

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A segunda temporada de The Umbrella Academychegará no catálogo da Netflix em 31 de julho. Assista ao trailer:


Por que gostamos tanto desses novos heróis?

Como relembrou Tarsis Salvatore, crítico de quadrinhos e editor do site e podcast Papo de Quadrinho, a DC mostrou super-heróis parecidos com Deuses. A rival Marvel, por outro lado, "sempre usou das fraquezas e problemas comuns dos seus super-heróis para se aproximar do público, sobretudo do público jovem". Mesmo assim, de alguma forma a idealização de comportamentos heroicos está sempre presente nos protagonistas das duas editoras.

Enquanto isso, os novos heróis da televisão se aproximam de forma diferente da audiência. "Em relação à conexão com o público, eles [espectadores] querem ver o lado sombrio, uma certa resposta à perfeição dos super-heróis", enfatizou Adriana Amaral

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Em The Boys, por exemplo, a Professora comentou sobre como as "pessoas se identificam com os 'Garotos' porque eles sentem que sua vingança contra os super-heróis é justa, uma vez que sofreram nas mãos de super seres que distorceram os valores heroicos, ainda que eles próprios sejam violentos e nem um pouco heroicos".

A pesquisadora também reflete sobre o papel das plataformas, como Netflix e Amazon Prime Video, nas traduções de personagens poderosos mais imperfeitos. "O streaming possibilita trazer essas adaptações mais adultas por conta da multiplicidade de produções, ele pode investir de certa forma diferente do cinema. O cinema precisa daquele sucesso mais certeiro e o streaming não", completa.


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